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sábado, 3 de janeiro de 2009

Evolução


Temos abaixo um conto de Luigi Ricciardi, amigo e parceiro artístico, texto denominado "Evolução". Publico-0 em meu blog, pois é um conto muito interessante que retrata bem a atualidade quanto à globalização, espero que lhes agradem como agradou a mim. Aproveito para desejar um feliz 2009 a todos que passarem por aqui! ;)


Luigi Ricciardi

Gosto de fazer meus passeios a pé, o caminhar sempre foi um dos meus passatempos preferidos desde o frescor dos anos jovens; contudo, com o apressar dos tempos, a cidade se estendeu, ultrapassando os montes visíveis, e se tornou tão desmedida e alarida que não conheço quem consiga caminhar tranquilamente por suas vias, sem que sinta um odor pútrido aqui, ou escute os gritos fervorosos das buzinas e sirenes ali; e atravessá-la seria mais impossível ainda. Por mais que se ande, sempre se encontra uma rua ou um bairro desconhecido, a cidade cresce como fermento. Impaciento-me a poucos passos de casa, com o cantar desafinado dos vendedores ambulantes, com quem, por alguns reais, consegue-se comprar a caneta-tinteiro de JK ou o relógio de pulso do Che Guevara. Suspiro com calma fazendo um sinal de negativo com a cabeça para todos eles, mas sem parar de caminhar, para não ser engolido por suas bocas sem nexo. Mesmo com todos estes contratempos, e com o caminhar sôfrego, me aventuro uma vez a cada semana, pelos caminhos desta selva de pedras.

            Há tempos, em determinado trecho da minha caminhada, eu gostava de pegar o bonde para contemplar outras paisagens e para poder assim dar um descanso às pernas. Sempre encontrava algum cidadão simpático que era possível dirigir-lhe a palavra, comentando os resultados de futebol e as gingas de Carmem Miranda. Muitos namoros iniciavam-se dentro do bonde, com sorrisos tímidos e piscadelas, de onde saiam até casamentos, ou ao menos um encontro por trás dos muros do forte. Hoje não existem mais bondes, a cidade se modernizou com seus ônibus e metrôs, que carregam dores, cansaço e utopia de felicidade. Vivem lotados e levam pessoas, que sequer se cumprimentam, aos cantos mais inóspitos da cidade. Esbarra-se na sacola de um aqui, no calcanhar de outro ali. Às vezes alguém pede desculpa, vira as costas e nunca mais encontra a pessoa com quem esbarrou. Prefiro seguir a pé, não gosto de “estranhos”.

            Ao dobrar a esquina, escuto um frenesi de marretas juntar-se à sonata da cidade na construção de um novo edifício. Tento contar os andares, mas a babel é tão alta que se confunde com a luz do sol, que cega meus olhos cansados. Ponho-me de volta a caminhar. Por quadras e quadras caminho devagar olhando todos os movimentos: placas gigantescas com mulheres e seus corpos a mostra, carros de som anunciando uma apresentação de alguém que cante qualquer coisa que não sei o nome, a aglomeração em torno do homem atropelado pelo motoboy, dois rapazes com tocas e calças baixas conversando enrolado em um português tão incompreensível que me senti na Áustria. Olho clinicamente para os automóveis, o desfile de modelos e marcas é ininterrupto e o número deles é quase tão grande quanto o número de exemplares da biblioteca nacional do Rio.

            Em dado momento cruzo com quatro adolescentes. Todas elas com vestes estampadas com dizeres em inglês. Só consigo enxergar uma: Do it Yourself! Duas delas portavam fones de ouvido e escutavam algum tipo de som tribal, e as outras duas estavam conversando em inglês. Entendi só algumas palavras soltas, não prestei muita atenção, na hora tive saudades do francês que aprendi na escola.

            Após andar por aproximadamente duas horas, senti dores nas pernas e resolvi sentar para descansar. Lembrei-me de uma praça há algumas quadras dali e resolvi ir até lá para dobrar os joelhos e olhar o movimento da cidade e seus pormenores. Chegando lá me tomo de surpresa: não há mais árvores, nem bancos. Homens trabalham com picaretas, martelos e bigornas ao lado de uma placa que anuncia um novo centro comercial. Encolerizo-me. Minha mente voltou ao tempo que recitávamos poesia às meninas com quem estávamos de namorico nesses bancos de praça, lembrei-me das festas da cidade, quando ela ainda era uma menina, dos carrinhos de sorvete, das conversas e brincadeiras de fim de tarde, e dos senhores que levantavam o chapéu quando uma senhora passava por eles. Doeu-me o peito. Resolvi então procurar outro lugar. Retomei meu andar e caminhei pouco tempo quando a fome me bateu. Por estar longe de casa e triste demais para voltar resolvi fazer algo que não fazia há anos: arriscar comer fora de casa.

            Parei no primeiro estabelecimento que vi, estava cheio e não consegui lugar para sentar. Fiquei em pé durante quarenta minutos até um dos atendentes notar minha presença. A essa altura eu já tinha perdido qualquer esperança de ser atendido. Pedi o cardápio, mas havia esquecido os óculos em casa, então para não passar vergonha pedi ao garçom o prato da casa. Lembrei-me de Rosinha, antiga namorada e cantora de rádio, com a qual eu tomava meu café da manhã diário na padaria vizinha. Meia hora depois, já sentado em uma mesa com sujeira decenal, o sujeito que me atendera me trouxe o pedido. Com um dedo dentro do prato e a outra mão no avental lúgubre, deixou-me um copo de uma bebida gaseificada com gosto de água com açúcar e um prato generoso contendo uma porção de arroz amarelento, outra de feijão, quer dizer, caldo de feijão frio, um ovo que piava e um bife que quase mugiu. Só comi porque a fome varria meu corpo. Mal terminei e o tal garçom veio tirar-me da mesa com a justificativa de que o estabelecimento estava cheio. Paguei pela comida e o garçom não me devolveu o troco e a partir de então sequer me fitou, e continuou a atender aos outros clientes como se eu não estivesse ali. Cansei de esperar e saí.

            O tom sépia do céu enegreceu ainda mais meu peito e comecei a caminhar sem rumo, por alamedas que eu não conhecia a procura de algo que eu não sabia. Vi jovens correndo e entrando em uma loja, o nome era lan house. Sem saber a razão, entrei também atrás dos rapazes e vi vários deles com os olhos saltados em frente a computadores. Uma confusão de vozes tomava conta do lugar, juntamente com sons de tiros e gritos vindos sabe-se lá de onde. Tentei ver o que se passava na tela, mas só enxerguei uma confusão de cores e movimentos tão rápidos que tive tontura, e para não desmaiar voltei correndo pra rua, onde já começava a garoar.

            Senti falta das bibliotecas que eu freqüentava, senti falta da loja de doces, senti falta da banda que tocava no coreto, da barraquinha de algodão, do locutor do rádio. Minha visão ainda estava atônita, influenciada pela multidão de cores dos jogos juvenis. Continuei andando. Na esquina um garoto distribuía panfletos aos transeuntes. Estendi a mão para pegar um e o garoto não me entregou. Bateu no meu ombro. São sobre cursos para jovens, vovô, disse ele, o senhor não vai se interessar.

            A garoa cessara, mas com a alma em frangalhos, o peito dolorido, e as pernas trêmulas, sento-me no meio-fio molhado por não saber mais para onde ir. Haveria um trem para me levar para o campo, onde, na juventude, depois de andar pelas matas, eu repousava na rede?

            Perdi totalmente a noção do tempo, olhando para o nada, ouvindo o borbulhar de ruídos fantasmagóricos. Alguém tocou em meu ombro, e voltei do transe. Minha filha me estendia a mão e murmurava qualquer coisa que eu não entendia. Colocou-me no carro e me levou para casa. No caminho, a multidão corria como horas antes, sem cessar, a procura do nada, buscando o tudo, encontrando o vazio. Em cada rosto vi um sorriso envelhecido disfarçando uma lágrima que brotava dentro do peito. Meu Deus pra que tanto? Faltam pernas para quem corre, falta coração para quem pensa, falta cintura pra quem dança.

            Já em meu velho recinto tomo um banho para me lavar das tristes luzes modernas. Sento-me na cama e engraxo meu sapato, sentindo o cheiro da graxa e recordando bons momentos. Penso em ligar o rádio, mas desisto, não se acha mais nada audível. Ligo o gramofone, e ouço Piaf cantando lindamente como antes. Desejo não sair mais de casa, sinto que não faço mais parte deste mundo. A evolução cantou progresso e seduziu o mundo, que agora já não é mais meu. Desejo aqui neste quarto adormecer e encontrar a paz que perdi há décadas. 

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Maringá, Paraná, Brazil
Marco Hruschka é natural de Ivaiporã-PR, nascido em 26 de agosto de 1986. Morou toda a sua vida no norte do Paraná: passou a infância em Londrina e desde os 13 anos mora em Maringá. Sempre se interessou em escrever redações na época de colégio, mas descobriu que poderia ser escritor apenas com 21 anos. Influenciado por professores na faculdade – cursou Letras na Universidade Estadual de Maringá – começou escrevendo sonetos decassílabos heroicos, depois versos livres, contos, pensamentos e atualmente dedica-se a um novo projeto: contos eróticos. Seu primeiro poema publicado em livro (Antologia de poetas brasileiros contemporâneos – vol. 49) foi em 2008 e se chama “Carma”. De lá para cá já, entre poemas e contos, já publicou mais de 50, não apenas pela CBJE, mas também em outras antologias. Em 2010 publicou seu primeiro livro solo: “Tentação” (poemas – Editora Scortecci). Em 2014, publicou “No que você está pensando?” (Multifoco Editora), livro de pensamentos e reflexões escrito primordialmente no facebook. É professor de língua francesa e pesquisador literário.

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