"O sangue corria entre as tendas como uma inundação que brotasse do interior da própria terra, como se ela própria estivesse a sangrar, os corpos degolados, esventrados, rachados de meio a meio, jaziam por toda a parte, os gritos das mulheres e das crianças eram tais que deviam chegar ao cimo do monte sinai onde o senhor se estaria regozijando com a sua vingança." Saramago, 2009, p. 101
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Caim
"O sangue corria entre as tendas como uma inundação que brotasse do interior da própria terra, como se ela própria estivesse a sangrar, os corpos degolados, esventrados, rachados de meio a meio, jaziam por toda a parte, os gritos das mulheres e das crianças eram tais que deviam chegar ao cimo do monte sinai onde o senhor se estaria regozijando com a sua vingança." Saramago, 2009, p. 101
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Máscara (a)temporal
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Esperança oblíqua
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Mulher de aroma e céu
Trata-se de um poema inusitado, escrito num guardanapo de papel num barzinho, enquanto comemorávamos a boa apresentação de nossos trabalhos no CELLIP, em Cascavel. Uma amiga especial estava em uma mesa próxima, então resolvemos homenageá-la da melhor maneira que podíamos, com a nossa arte. Um viva aos poetas de bar! ;)
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Que assim seja
Angústia
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Sentido às avessas
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Epitáfio Lírico
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Caim, de José Saramago
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Prece
Dormirei abraçado ao teu cheiro
Sonhando com a tua pele
E rezando o teu amor de volta
És o anjo de minha vida
Vivo o amor desconexo
Aposto na minha verdade sentimental
Quero-te aqui
Toda e minha
Te amo
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Arnaldo Jabor: a realidade nua e crua!
domingo, 4 de outubro de 2009
Ampulheta-em-gula
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
PIBIC
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Versos para um olhar
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
Citações
terça-feira, 15 de setembro de 2009
Suicídio
domingo, 13 de setembro de 2009
Citação - Pablo Neruda
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Sou uma pergunta - Clarice Lispector
Quem fez o mundo?
Se foi Deus, quem fez Deus?
Por que dois e dois são quatro?
Quem disse a primeira palavra?
Quem chorou pela primeira vez?
Por que o Sol é quente?
Por que a Lua é fria?
Por que o pulmão respira?
Por que se morre?
Por que se ama?
Por que se odeia?
Quem fez a primeira cadeira?
Por que se lava roupa?
Por que se tem seios?
Por que se tem leite?
Por que há o som?
Por que há o silêncio?
Por que há o tempo?
Por que há o espaço?
Por que há o infinito?
Por que eu existo?
Por que você existe?
Por que há o esperma?
Por que há o óvulo?
Por que a pantera tem olhos?
Por que há o erro?
Por que se lê?
Por que há a raiz quadrada?
Por que há flores?
Por que há o elemento terra?
Por que a gente quer dormir?
Por que acendi o cigarro?
Por que há o elemento fogo?
Por que há o rio?
Por que há a gravidade?
Por que e quem inventou os óculos?
Por que há doenças?
Por que há saúde?
Por que faço perguntas?
Por que não há respostas?
Por que quem me lê está perplexo?
Por que a língua sueca é tão macia?
Por que fui a um coquetel na casa do Embaixador da Suécia?
Por que a adida cultural sueca tem como primeiro nome Si?
Por que estou viva?
Por que quem me lê está vivo?
Por que estou com sono?
Por que se dão prêmios aos homens?
Por que a mulher quer o homem?
Por que o homem tem força de querer a mulher?
Por que há o cálculo integral?
Por que escrevo?
Por que Cristo morreu na cruz?
Por que minto?
Por que digo a verdade?
Por que existe a galinha?
Por que existem editoras?
Por que há o dinheiro?
Por que pintei um jarro de vidro de preto opaco?
Por que há o ato sexual?
Por que procuro as coisas e não encontro?
Por que existe o anonimato?
Por que existem os santos?
Por que se reza?
Por que se envelhece?
Por que existe câncer?
Por que as pessoas se reúnem para jantar?
Por que a língua italiana é tão amorosa?
Por que a pessoa canta?
Por que existe a raça negra?
Por que é que eu não sou negra?
Por que neste mesmo instante está nascendo uma criança?
Por que o judeu é raça eleita?
Por que Cristo era judeu?
Por que meu segundo nome parece duro como um diamante?
Por que hoje é sábado?
Por que tenho dois filhos?
Por que eu poderia perguntar indefinidamente por quê?
Por que o fígado tem gosto de fígado?
Por que a minha empregada tem um namorado?
Por que a Parapsicologia é ciência?
Por que vou estudar matemática?
Por que há coisas moles e coisas duras?
Por que tenho fome?
Por que no Nordeste há fome?
Por que uma palavra puxa a outra?
Por que os políticos fazem discurso?
Por que a máquina está ficando tão importante?
Por que tenho de parar de fazer perguntas?
Por que existe a cor verde-escuro?
Por quê?
É porque.
Mas por que não me disseram antes?
Por que adeus?
Por que até o outro sábado?
Por quê?
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
Estrela Dourada
"Autores estrelados"
A partir das edições de Agosto/2009, a CBJE passou a identificar alguns autores nas listas dos selecionados para cada antologia, com dois tipos de estrelas:
Estrela dourada - identifica o autor que já ultrapassou a marca de 50.000 leituras nas nossas Antologias on line, desde Maio/2008;
Estrela prateada - identifica o autor que tenha ultrapassado a marca de 5.000 leituras nas nossas Antologias on line, nos últimos três meses. Nota: Não são identificados com a estrela prateada os autores que já tenham a estrela dourada.
Marco Hruschka (26/08/1986) - Maringá / PRsábado, 22 de agosto de 2009
Ressurreição

Recuso-me a versar nesse papel. Será uma pseudo-prosa, indecisa, sem aqueles cuidados com o uso da boa palavra, o habitual rebuscamento, a metáfora que abre as portas ao subjetivismo, o lirismo que trás o belo. Não sei, quero apenas dizer o que estou sentindo. Se o rumo mudar, paciência! Quem disse que meus sentimentos são constantes?!
É assim que vai ser. Como eu ainda insisto num sentimento que já não deveria mais ter forças para subsistir? Basta! Deve acabar! Como se a vida não fosse um ciclo onde tudo começa e termina, eu ainda penso nela, mesmo sabendo que nossa história já aconteceu. Por que eu ainda quero que seja? Mais e mais e mais... Chega! Sabe aquele fantasma que fica escondido à espera de uma chance para agir? Ele vem para ofuscar a minha visão, já obnubilada, com seus espectros místicos de ser indecifrável. Pois é, ela o é, mesmo sem saber e querer. Será? Já não sei, tudo é confuso, difuso, obscuro. Quero a leveza de não amar!
E se não a amasse, meus pensamentos diários teriam um rumo certo, não escreveria sobre o amor, e, consecutivamente, sobre as desilusões, as desesperanças, a tristeza, o breu de uma existência na dependência de outro ser. Quero ser-me, e só! E os pensamentos noturnos, esses não seriam sonhos nostálgicos, lembranças de um tempo acabado, ou melhor, um tempo que hoje acaba comigo. Se olho uma flor, é sua face semi-rosada, se toco essa face, é sua pele que me afaga, e minhas mãos que se arrepiam de ternura; se, por acaso, a brisa é fresca e cheirosa, sinto saudades do hálito morno de sua boca em meus ouvidos, a sussurrar seus desejos de mulher; e se, ainda...
Faz frio agora... de um gris europeu. Ali no canto, quase atrás da cortina, há um garotinho agachado, trêmulo, assustado. Olha uma sombra quase sem vida tocando um piano de cauda velho, cheio de poeira. As notas são tensas, porém melodiosas. O menino, que agora verte uma lágrima em mi-bemol, sou eu; e o que ele olha é o que me torno a cada dia.
O coração não mais bate senão por uma nesga, um sopro, um lampejo de ser-se. Assim como as estrelas abrilhantam a madrugada, seu cheiro revivifica minha alma, que já flutua para não mais voltar. Habitará agora o surreal e, de lá, destilará poesia em forma de zéfiros suaves em seus ouvidos, estarei em si enquanto ser a sonata que percorre seus anseios, suas saudades, seus sonhos. E lembrará de mim, pois serei a imagem refletida no espelho, sorrindo, admirando-a. E ser-me-á, pois se unirá ao sentido extra-vital de si mesma, a luz de meus olhos.
Mas é preciso reciclar e é por isso que vou me desprendendo aos poucos, para poder voltar completo mais adiante, assim como a natureza primaveril. Sou neste instante a folha seca que paira ao vento. Mas depois verdejarei como nunca! O sol me contemplará e beijarei a bruma fresca, cantarei o hino da liberdade de meu coração. Sorrirei para os céus e agradecerei a ressurreição. Vou caindo, deslizando em movimentos de vai-e-vem. Toco o chão e já não sou. Lá do céu, ouve-se o eco de minhas preces e Deus a abençoar a minha morte.
Marco Hruschka
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
A força do Sangue!!!
O sangue em Chiapas
By José SaramagoTodo o sangue tem a sua história. Corre sem descanso no interior labiríntico do corpo e não perde o rumo nem o sentido, enrubesce de súbito o rosto e empalidece-o fugindo dele, irrompe bruscamente de um rasgão da pele, torna-se capa protectora de uma ferida, encharca campos de batalha e lugares de tortura, transforma-se em rio sobre o asfalto de uma estrada. O sangue nos guia, o sangue nos levanta, com o sangue dormimos e com o sangue despertamos, com o sangue nos perdemos e salvamos, com o sangue vivemos, com o sangue morremos. Torna-se leite e alimenta as crianças ao colo das mães, torna-se lágrima e chora sobre os assassinados, torna-se revolta e levanta um punho fechado e uma arma. O sangue serve-se dos olhos para ver, entender e julgar, serve-se das mãos para o trabalho e para o afago, serve-se dos pés para ir aonde o dever o mandou. O sangue é homem e é mulher, cobre-se de luto ou de festa, põe uma flor na cintura, e quando toma nomes que não são os seus é porque esses nomes pertencem a todos os que são do mesmo sangue. O sangue sabe muito, o sangue sabe o sangue que tem. Às vezes o sangue monta a cavalo e fuma cachimbo, às vezes olha com olhos secos porque a dor lhos secou, às vezes sorri com uma boca de longe e um sorriso de perto, às vezes esconde a cara mas deixa que a alma se mostre, às vezes implora a misericórdia de um muro mudo e cego, às vezes é um menino sangrando que vai levado em braços, às vezes desenha figuras vigilantes nas paredes das casas, às vezes é o olhar fixo dessas figuras, às vezes atam-no, às vezes desata-se, às vezes faz-se gigante para subir às muralhas, às vezes ferve, às vezes acalma-se, às vezes é como um incêndio que tudo abrasa, às vezes é uma luz quase suave, um suspiro, um sonho, um descansar a cabeça no ombro do sangue que está ao lado. Há sangues que até quando estão frios queimam. Esses sangues são eternos como a esperança.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Gaia

Marco Hruschka
És meu porto, minha pátria, meu pai!
Um homem-pólo-oposto que sempre me atrai,
Uma selva cheia de atrativos temerosos,
Oceano vasto de quereres prazerosos...
É em tua mão forte e ágil que me realizo,
No toque firme, seguro, já não me responsabilizo,
Quero ser a pluma, o vento sulista, a ternura
Do afago que dá e que recebe, a chaga e a cura...
Em tua presença sou a terra fértil dos tempos de ouro,
A tradição do chinês, o charme francês e a força do mouro!
Madre natura, o âmago, o cio da terra em evolução,
O luar, o eclipse, a mudança repentina de estação...
Fecunda-me! Porque tu és o grão que gera a vida
E eu o vaso receptor do néctar, toda tua e embebida!
Lambuza-me! Se és o mel doce e denso agora meu,
Sorver-nos-emos lentíssimos e eternamente em apogeu...
Dar-te-ei o seio para que repouses sossegado,
Nuvem branca e de perfume natural, ó meu amado!
Às estrelas galgaremos, como duas almas a pairar,
Agora, fechemos os olhos e te mostrarei o que é amar...
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Servos

Republico um de meus contos prediletos: Servos. Espero que releiam e que comentem, se assim desejarem. Um abraço!
Marco Hruschka
Na paragem, um homem bem portado, coluna ereta, olhar soberano, feição séria, fardado e com a mão direita no bolso do casaco tricolor espera a condução. Lentamente, aproxima-se outro homem, aparentemente maltrapilho, vestindo apenas uma túnica comprida de cor clara e sandálias. Possui barba e bigode compridos. O recém-chegado avista o oficial com olhos curiosos mas ao mesmo tempo receosos. Ao perceber que está sendo analisado, o cidadão de roupa nobre indaga:
- Que queres tu?
Após um breve silêncio reflexivo, ouve-se a resposta-investigadora:
- Quem tu és?
- Mas que disparate, como ousas tratar-me por tu? Indigente!
- Perdão, expressou-se, sem entender muito bem, o “mal vestido”.
- Isso mesmo que ouviste, sabes com quem falas?
- Não, foi exatamente o que lhe perguntei.
- Ora essa, estás a falar com Napoleão Bonaparte, comandante das tropas francesas que conquistaram a Europa.
Silêncio.
Um franzir de testa foi inevitável ao ancião. Admirou-se? Assustou-se? Será que teve medo ou rir-se-ia? E se realmente fosse quem tivera dito?
Refletiu sobre aquelas palavras e respondeu:
- Desculpe-me o abuso, mas, se tendes a Europa para vós, o que fazeis aqui, na paragem? Para onde irdes?
Sem perder a postura, levanta levemente o queixo e responde:
- Vou para a Lua!
A atmosfera toda se fazia confusa com aquela conversa, e o cidadão, curioso talvez, indaga-lhe novamente:
- Mas, enfim, o que desejais na Lua?
- Olho-a todas as noites e é como se ela me convidasse a conquistá-la, conquistá-la-ei, pois! Disse-lhe com a resposta na ponta da língua o utopista. Seria utopia?
- Mas chega de conversa fiada, quem pensas que és para querer saber de meus planos futuros? Inquiriu, quase que irado, o oficial.
- Chamam-me Sócrates, o sábio, mas prefiro ser somente Sócrates.
- Ah, Sócrates, o sábio, não é?! E o que sabes que eu não sei?
- Só sei que nada sei!
- Brincas comigo, intrépido?
- Não, não sou de muitas brincadeiras, mas digo-lhe a verdade.
O ambiente, por segundos, tornou-se taciturno. Os dois se entreolhavam sem se conhecerem, sem medo nem audácia. Enfim, para cortar aquele silêncio que incomodava a autoridade ali presente, esse perguntou:
- E tu, o que fazes aqui, para onde vais?
- Vou ao encontro de mim mesmo, responde o grisalho com um leve sorriso de complacência.
- Deveras me achas um ignorante! Explica-te ou mando prender-te!
- Não há motivo para tanta raiva, serei mais claro. Viajarei para dentro do meu “eu”, em busca de minha verdade.
- E achas realmente que passará uma condução cujo destino é “eu”?
- Com todo o respeito, não me entendes. Posso conseguir o que quero aqui mesmo, logo adiante, ou, sempre de modo mais rápido, em contato com a natureza, com a solidão de si próprio, basta uma revelação, a epifania, para que possamos entender o porquê de estarmos aqui e agora.
- Não me importam essas coisas, para mim, o que vale é liderar amparado em estratégias, conquistar, expandir o império.
- E a virtude?
- A virtude está no ato de vencer e ser admirado...
Sem ser percebido, aproxima-se um homem de aparência velha e respeitável e diz-lhes, pegando-os de surpresa:
- Tolos! Em verdade, em verdade vos digo: Nem um nem outro está livre do meu domínio, sois apenas instrumentos de minha vitória.
Aquele que mantinha a mão no bolso até então, indignado, pergunta-lhe logo:
- És quem, ó atrevido?
- Bento, João, Pedro, Clemente, Paulo, tenho vários nomes, escolham um, não importa. O que importa é que do meu trono dourado conquistarei o mundo. Nem o teu batalhão, que por sinal é mais meu do que teu, e nem a tua filosofia, nem aquele cidadão de aspecto oriental que trabalha ali, sem cessar, sem ser visto, ninguém poderá mudar o rumo do que é predestinado desde os primórdios. Meu reinado não é efêmero, é eterno. Sigam-me e os perdoarei.
E a alma do pequeno Estado jubilava... desde os primórdios.
PS: Foto Napoleão Bonaparte, por Jacques-Louis David.
Conto publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 18, pela CBJE
quarta-feira, 29 de julho de 2009
O filho do Céu

Um soneto em homenagem a minha amiga Sheila Luz, que pela fé no milagre, gerou Arthur, um bebê lindo e saudável! Brindemos com poesia o seu nascimento!!!
Marco Hruschka
Um anjo do céu disse-me ao ouvido
Que a pureza é inata na criança,
Sua presença sempre traz bonança,
O tom de sua voz é colorido.
De amor o coração é embebido.
Pra ter um pequenino pago fiança,
Em minha vida quero uma mudança,
Sozinha o meu peito é sofrido.
Agora no meu ventre um bebê gera...
Vem a mim, oh, presença idolatrada!
Que se faça real esta quimera.
Rogo a ti saúde à Mãe amada,
Hão de ouvir oração da fiel mera,
Já sinto que à luz tu serás dada...
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Bailemos

Tu tens a inocência de uma criança que já sabe o que quer
A sedução de uma mulher cheia de medos e segredos
Na maciez da alma, és pluma corpórea, o querer é mister
Na pele alva e nos lábios rosáceos habitam meus desejos
Não chores, doce anjo, não temas
A vida é para aqueles que olham o futuro
Para o além, para o amor, esqueça as algemas
Que te prendem ao chão, abandone o escuro
Alto! Claro! Voe para a liberdade!
Seja céu, seja estrela, seja o luar...
Seja o espelho que cintila a tua celebridade
Seja fusão, a areia que se mistura brandamente ao mar
Baila comigo em meio às rosas escarlates
Seremos sustenidos crescentes em paixão
O amor nos guiará como bonifrates
E dançaremos amantíssimos o acorde da União
Marco Hruschka
sábado, 18 de julho de 2009
O que é Literatura?

Muitas pessoas têm dificuldade em entender o que é a Literatura. Não digo defini-la, mas compreendê-la. Contudo, ela pode ser mais simples do que parece. Recorremos, então, às palavras de Afrânio Coutinho, renomado crítico literário brasileiro:
A Literatura é um fenômeno estético. É uma arte, a arte da palavra. Não visa a informar, ensinar, doutrinar, pregar, documentar. Acidentalmente, secundariamente, ela pode fazer isso, pode conter história, filosofia, ciência, religião. O literário ou o estético inclui precisamente o social, o histórico, o religioso, etc., porém transformando esse material em estético. Às vezes ela pode servir de veículo de outros valores. Mas o seu valor e significado residem não neles, mas em outra parte, no seu aspecto estético-literário, que lhe é comunicado pelos elementos específicos, componentes de sua estrutura, e pela finalidade precisa de despertar no leitor o tipo especial de prazer, que é o sentimento estético. O que a Literatura proporciona ao leitor, só ela o faz, e esse prazer não pode ser confundido com nenhum outro, informação, documentação, crítica. Não fora isso, não fossem a natureza específica da literatura e o prazer que dela retiramos, e as obras literárias não resistiriam ao tempo e às mudanças de civilização e cultura. (COUTINHO, 2008, p. 23)
É verdade que a literatura parte dos fatos da vida ou os contém. Mas esses fatos não existem nela como tais, mas simplesmente como ponto de partida. A literatura, como toda arte, é uma transfiguração do real, é a realidade recriada através do espírito do artista e retransmitida através da língua para as formas que são os gêneros e com os quais ela toma corpo e nova realidade. Passa, então, a viver outra vida, autônoma, independente do autor e da experiência de realidade de onde proveio. Os fatos que lhe deram às vezes origem perderam a realidade primitiva e adquiriram outra, graças à imaginação do artista. São agora fatos de outra natureza, diferentes dos fatos naturais objetivados pela ciência ou pela história ou pelo social. (COUTINHO, 2008, p.24)
COUTINHO, Afrânio. Notas de teoria literária. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Devaneios

Queria escrever um poema.
Na madrugada que passa lentamente,
Não tenho inspiração surpreendente,
Foge-me a cor, falta-me o tema.
O tempo, uma invenção, já não passa,
Transfigurou-se em tormento,
Resta-me apenas o lamento,
A pena a tinta já rechaça.
Se os meus versos já não como os de outrora,
Nem líricos, nem metafóricos, vãs palavras,
Que seja o desabafo entranhoso dessas massas
Que gritam por socorro desde há muito e agora.
Suplicam por esperança, por igualdade,
O coração dói por não mais confiar
Em nada e em ninguém, querem amar
E ser amados, resta-lhes o fantasma da saudade.
Esvaio-me no fim dessa poesia,
Hei de um dia voltar a respirar,
Ser o canto da sereia em alto mar
E contemplar a natureza em maestria.
PS: Foto "Skrik" ou "O grito", de Edvard Munch
sábado, 4 de julho de 2009
Flor Tropical

Dizem as vozes de outrem que seu lábio é fruta
Polpa-mel saborosa que me incita a beber no cálice
Pomar de delícias variadas, êxtase no ápice
Textura ágil, quente, doce, fugir é labuta
Olhos de ônix forjados no fogo do Nada
Pois somente no Nada se encontra a finesse
Relíquia ocular a qual nunca se esquece
Pintura surreal pela mão do Mestre retocada
Possui um colo cor urucum-castanho
Acima se insinua o pescoço lascivo
Abaixo o contorno do seio subjetivo
O que faz o delírio-desejo ganhar tamanho
Mas se se tem conhecimento de sua alma
Mas a alma como sendo o conjunto de sua obra
Apaixona-se deveras como um Páris de outrora
Que pela bela Helena perdera toda a sua calma
Pois a inteligência se sobrepõe à perfeição do corpo-réu
Companhia excelente, o tempo se evapora como orvalho
Ser seu rei e contemplá-la no palácio, ato falho
Há que ser Deus e outorgá-la como Deusa lá no céu
Ousar-me-ei por amor

segunda-feira, 29 de junho de 2009
Anjo de Deus

Mas não de um anjo de um céu de um deus que não existe,
Mas de um anjo de meus sonhos,
E por isso mesmo é lindo,
O anjo é lindo, ela é linda, ela é o anjo,
E por falar em Deus, ó Deusa,
Vem que eu serei o teu, o que deveras existe,
E serás inocentemente feliz como uma criança a comer chocolate,
Tem razão o Poeta português, não há nada de mais verdadeiro do que isso,
Apenas esse poema, escrito com meu próprio coração,
Às vezes metido a poeta, e, quando apaixonado, artífice das palavras amorosas.
Pela inspiração que me toma, que é tu, emano poesia dos poros
E escrevo aqui uma carta de alforria, liberto nesse instante meu sentimento
Para que ele possa flutuar, leve como o teu olhar demanda,
Em direção aos teus lábios e tocá-los com a ternura que o inunda
Selar fisicamente o que espiritualmente já me toma
Sermos, por um instante que seja, a união da poesia e da paixão
Do perfeito e do sublime, da magia e do maravilhoso
Maravilhosa é a magia do teu sorriso, o brilho dos teus olhos
Aceita provar do beijo do poeta
E sentirás o coração bater mais forte
Como o cupido a lhe atingir a seta
Amar-te-ei por toda a sorte
segunda-feira, 15 de junho de 2009
Marias

Seu nome é Maria. Mas poderia ser Joana, Cidinha, Daiana ou Raimunda. É interessante quando Saramago diz que conhecemos o nome que nos deram e não o que deveras temos. Você sabe o teu nome, caro leitor?
Maria é uma moça bonita, jovem, atraente, independente. Cuida de seu corpo, pois precisa dele para se realizar. Tem estatura mediana, é morena, mas gosta de usar máscaras. As pessoas a desejam, querem tocá-la, talvez nada mais. Mas ela sabe disso.
Hoje é sábado, por isso sairá. Irá a um baile, haverá "show" de rodeio, música sertaneja, não a de raiz, que defende a tradição do sertão e a cultura do povo mais simples, porém não menos inteligente. Trata-se um novo estilo, chamado sertanejo universitário. Ver-se-á fumaça de cigarro, latas de cerveja no chão atrapalhando o movimento rústico daqueles seres, chamam de dança. Todo mundo sorrindo sem motivos concretos e outros animais sendo maltratados, a diferença básica está no chapéu, que os de cima usam. Ontem ela foi ao salão de beleza. Pintou os cabelos, fez alisamento, pois se sente mais segura assim, também fez depilação pubiana, pois tem a pretensão de transar nesse fim de semana e, claro está, precisa encantar o parceiro que ainda conhecerá.
Maria passou a semana toda pensando em como se vestiria no dia do baile, qual perfume usaria, em qual carro desfilaria pela cidade antes e depois da festa. Ela gosta das pick-ups, são grandes e espaçosas, faz com que ela se sinta mais importante, mais bem vista. Entretanto, basta-lhe uma saveiro semi-nova, o que ela quer é uma companhia motorizada.
Para chegar ao local do sacrilégio, ela convida como choffeur um amigo apaixonado, é óbvio que ele aceita. O iludido abre-lhe a porta do automóvel para que ela entre, entrega-lhe flores, ela finge que se emociona, elogia a roupa cafona do coitado e vão ouvindo acordes alienantes durante o trajeto. Quando chegam, as notas são as mesmas. O que muda é a companhia, pois ela o abandona na primeira oportunidade. Depois, alegará que se perdeu quando foi ao banheiro. Realmente se perdeu, mas foi nos braços de um bonitão de esporas.
Todavia, esse cowboy não serve para ela, pois não lhe daria o valor que ela julga merecer. Nisso o ser humano é como Deus, quer o veredicto . A nossa estrela vai para a pista e se movimenta freneticamente. De onde estamos, vê-se em uma mão um cigarro aceso, em outra, uma lata de cerveja emprestada de alguém. Sua cabeça está em outro mundo, é como uma fuga da realidade. Mas o que Maria não sabe e talvez nunca venha a saber é que foge exatamente para a verdade deplorável de sua existência.
Há um bobo da corte que comanda o festejo, ele faz graças na intenção de animar o pessoal. Mas nesse reino, devido à algazarra, ele utiliza um microfone para se comunicar com o resto, que aplaude, assobia, grita e sorri das rimas mal feitas pela figura emblemática.
Maria ainda não sabe, mas vomitará daqui a alguns instantes. O álcool já faz o devido efeito e seu estômago começa a maltratá-la. Ela disfarça, vai ao banheiro e faz o serviço. Lava-se. Aguarda alguns instantes até se recuperar um pouco. Dentro do possível, retoca o batom e volta para a multidão a mesma lady que chegara acompanhada do amigo apaixonado. Este, por sinal, encontra-se sentado num canto a olhar vagamente as coisas, desolado, bebendo sem perceber. A vida é assim, muitas vezes agimos sem dar-se conta.
A madrugada vai alta. A moça de quem falamos dançou até surgirem bolhas nos pés, bebeu a cerveja de vários colegas de noite e fumou até enjoar, pois não o faz no dia-a-dia. Já chega a hora de encontrar um bom acompanhante, aquele que vai lhe dar o derradeiro prazer e lhe dar uma carona confortável de volta. Já sabemos que esse homem não é nem o amigo apaixonado e nem o bonitão de esporas.
Ela não precisa nem procurar, os homens vêm até ela. No fim de festa costuma-se apostar todas as fichas. Nesse instante, o primeiro cidadão mais ou menos apresentável que demonstrar boas intenções usufruirá dos carinhos de Maria.
Ela olha para João, que lhe observa há alguns instantes. Ela sorri, ele se aproxima. Conversam qualquer coisa de banal e caminham em direção ao carro do indivíduo. A moça percebe que é um veículo interessante, já o fita com outros olhos, está feliz. Dançou, fumou, bebeu, divertiu-se e não gastou praticamente nada nessa noite. Quando chegar em casa esquecerá de agradecer a Deus por sua saúde, mas dormirá com o sorriso no rosto.
João é um bom rapaz. Não gosta de literatura, nem de cinema, nem de artes plásticas. Não costuma ler e nem se mantém atualizado com o mundo. Nunca ouviu falar de Vinícius de Moraes, não saberia relacionar Da Vinci a Monalisa, e acha que Freddie Mercury é só mais um cantor boiola dos anos oitenta. E ainda haverá quem diga que o narrador dessa história é que se muniu de sua pena mais preconceituosa, quando em verdade apenas delineia uma narrativa literária, e por isso mesmo artística, referente à realidade circunstante. Voltemos a João. Adora música sertaneja, a nova vertente, claro está. Veste-se com chapéu, botas e cinturão. Bebe cerveja em abundância. Sorri com facilidade. Tem bom coração. Tem um carro.
Nos arredores do circo, parece-nos zona rural, devido às vestimentas das pessoas que ali estão e pelo aspecto rústico da acústica. Porém, estamos na cidade. O casal sai ouvindo no cd player os mesmos arpejos que costumam ouvir durante a semana, iguais aos que vieram ouvindo e que ouviram durante o tempo que ali estiveram, gostam mesmo desse tipo de som.
João é um cara simples, gostou de Maria. Ele pretende levá-la embora sonhando em ganhar um beijo como recompensa e, quem sabe, sair com ela de novo.
A moça quer mais. Ela deseja saciar seus anseios de mulher. Quer sentir o prazer que lhe é de direito. Então, insinua-se para o rapaz, que fica meio constrangido, mas gosta, pois tem instintos. Ela diz, Bem que poderíamos ficar num lugar mais confortável, só eu e você, o que acha. Ele apenas sorriu e se endereçou ao motel mais próximo com o coração acelerado. Transaram. Magia para um, cotidiano para a outra. Ela dominou os gestos, a palavra, pois João é tímido. A única atitude deveras ativa do rapaz foi pagar a conta, como manda a cartilha do bom cavalheiro.
Foram embora. Ele a deixou em casa, com cara de bobo, pois não esperava tanto de sua amada. Conseguiu seu telefone, por isso irradia felicidade.
Agora, a donzela dorme relaxada em si mesma. A noite foi como programara. Sonhará com animais pulando e vozes dispersas, mas não se lembrará disso no dia seguinte, assim como também não se lembrará de João.
Conto publicado pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores no livro "Novos Talentos do Conto Brasileiro", em julho de 2009.
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Fantoches

Não posso mais olhar para aquela dama,
Cada vida é por si só aquela ilha inabitada que já diziam,
Se penso em um futuro ao seu lado, engano-me,
Peço-me perdão por mentir a mim mesmo,
A inocência me domina às vezes,
Almejo uma união, ser apenas um com ela,
Mas, na impossibilidade natural das coisas,
Devo me arrepender e voltar à realidade,
Doída, impiedosa, um vírus que se alastra
Pelos tecidos nos infectando mais e mais,
Preciso de uma injeção de sonho,
Quem sabe eu possa sorrir sem medo,
Sem o carma de ter que viver o que deveras é,
Mas... será que isso que chamamos de real
Existe de verdade, será que não somos pura metafísica?
Fantoches de um ser maior que brinca de manipular-nos?
Cobaias de um experimento não perfeitamente sucedido?
Não precisaria ser dito, pois é claro que somos um robô defeituoso,
Portador de uma bateria chamada coração,
Abastecida pela energia que vem do amor,
E quando a fonte seca, essa peça se desregula,
Desprevenida, o resto da sucata se confunde,
E, não sabendo o que fazer, como lidar sem o néctar,
Agoniza pela eternidade de seus dias,
Nessa abominável invenção que é a vida.
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Monólogo Mundo Moderno - Chico Anysio
Mundo moderno, marco malévolo, mesclado mentiras, modificando maneiras, mascarando maracutáias, majestoso manicômio.
Meu monólogo, mostra mentiras, mazelas, misérias, massacres, miscigenação, morticínio maior, maldade mundial.
Madrugada… matuto magro, macrocéfalo, mastiga média morna, monta matumbo malhado, munido machado, martelo… mochila mucha, margeia mata maior.
Manhãzinha move moinho moendo macaxeira, mandioca.
Meio dia mata marreco… manjar melhorzinho.
Meia noite mima mulherzinha mimosa, Maria morena, momento maravilha, motivação mútua mas monocórdia, mesmice.
Muitos migram mascilentos, maltrapilhos, morarão modestamente: malocas metropolitanas; mocambos miseráveis, menos moral, menos mantimentos, mais menosprezo.
Metade morre… mundo maligno, misturando mendigos maltratados… menores metralhados, militares mandões, meretrizes marafonas, mocinhas, mera meninas… mariposas, mortificando-se moralmente, modestas moças maculadas, mercenárias mulheres marcadas… mundo medíocre.
Milionários montam mansões magníficas, melhor mármore, mobília mirabolante, máxima megalomania, mordomo, Mercedes, motorista, mãos magnatas manobrando milhões mas maioria morre minguando.
Moradia meia-água, menos, marquise.
Mundo maluco, máquina mortífera, mundo moderno melhore, melhore mais, melhore muito, melhore mesmo. Merecemos… maldito mundo moderno, mundinho merda.
sexta-feira, 15 de maio de 2009
Efêmero deleite

quinta-feira, 14 de maio de 2009
Eu e elas

Meu amigo e professor de francês, Fábio, ao ler o meu texto "Efêmero Deleite", teve a idéia de reescrevê-lo com um pouco mais de ousadia, deixando de lado a subjetividade, priorizando a realidade, a vida como ela é. Na minha opinião, um ótimo texto para retratar a atualidade, em que a maioria das mulheres se mostra fútil, em que o amor não tem vez, em que o que conta é o que você tem, e não o que realmente é. Um brinde às avessas às máscaras de cada um! Boa leitura.
Fábio Lucas Pierini
(para Marco Hruschka)
Vou e volto, levo e trago. Quem me vê em meu traje impecável e minha postura rígida não faz idéia do que escondo por trás deste sorriso hipócrita. Fantasio com todas elas, com cada uma delas ou com uma que seja todas elas, transando loucamente comigo. Sonho com sua pele de pêssego tratada com produtos caros, seus cabelos cuidados por mãos de profissionais conhecidos na cidade, seus corpos esculpidos nas academias mais badaladas e com o dia em que eu me sentarei com elas, fumarei com elas, beijarei suas bocas vermelhas e bêbadas e, após uma noite de muito sexo num motel de luxo, sairei de suas vidas como se nunca tivesse entrado, levando comigo talvez as marcas de um esmalte escarlate nas costas.
Mas eu nunca entro. Talvez porque não lhes valha a pena deixar entrar um homem que não queria voltar. Elas são vaidosas, querem nos ter a seus pés, pedindo, chorando, implorando. Eu só queria dar uma entradinha nesse mundinho apertado, limpinho e cheirosinho delas. Olhar bem de perto e gravar na memória o que faz delas tão elas mesmas.
Por volta das 6 da manhã a noite acaba e eu tenho de aguentar os últimos bacanas que ainda choram. Vou puxando a mesa e digo que passem no caixa. Babacas. Me emprestem essas porras dessas caminhonetes que eu mudo tudo isso. Chego aqui vestido feito um caubói pagando Amarula para aquelas me pagarem um pau e levo para dar uma volta. Conto umas piadas para fazê-las rir e vou embicando para o motel. Se disserem que não, trago de volta e espero outras. A noite é curta, mas tem sempre alguém que não se importa
Mas ninguém me empresta uma caminhonete e tenho de voltar para casa no meu semi-novo. Contemplo-o. Meu único amigo. Quantas vezes não fiquei aí dentro lamentando minha má sorte, minha condição de escravo desse bando de bundas brancas? Quando comprei disseram: “Nessa cor é ruim passar para a frente”. Respondi: “Se eu comprasse um carro pensando na venda, seria revendedor”. As coisas às vezes se parecem com seus donos. Sou vermelho por dentro, e ele, por fora.
Até que ele chama a atenção. Toda semana dou um brilho. Acho que elas até olham para ele, mas quando veem que aqui dentro está um falido, ou melhor, aquele falido do barzinho, devem ficar com nojo. Será que elas se imaginam fazendo sexo comigo? Nem que fosse para deixar os bacanas com raiva, dizendo assim: “Saí com o garçom sim, e ele tem o pinto maior que o seu”. Mas elas não fazem isso. Dizem que fazem, mas não fazem, senão eu já teria descoberto o segredo de todas elas.
Passo pelo museu e vejo que já está aberto. Olho o relógio, verifico meu sono... Por que não? Entro lá como se entrasse numa igreja, com medo de encostar nessas coisas que devem ter um valor inestimável. Passo pelas galerias e não consigo entender quase nada. Mas muitas das pinturas, esculturas, gravuras, estátuas, tapeçarias e demais objetos têm algo em comum: homens e mulheres se dando bem uns com os outros.
Um objeto vermelho chama minha atenção. Um vaso ilustrando um homem e uma mulher usando trajes orientais, olhinhos puxados. O cara oferece uma flor para a moça ao mesmo tempo que beija a mão dela. E ela retribui, toda encantada. De repente, uma tristeza me invade. Uma angústia. E pela primeira vez em anos, eu consigo chorar. Reconheço. Eu queria amor. Mas elas não querem me dar. Tudo o que elas querem é uma Silverado, lençois de seda e um cartão de crédito. Se eu tivesse isso... Quem sabe... Quem sabe depois da primeira noite, elas... Não! Elas não me amam. Não posso amá-las.
Saio de lá chorando ainda, pensando na dor de estar sempre só. De elas darem aos bacanas o que pertence aos homens de verdade. Porque um bacana faz para elas tudo o que elas querem. E um homem de verdade... Um homem de verdade ama. Um homem de verdade nada mais tem a dar para sua mulher senão amor. Mas elas não querem amor. Talvez porque... Não sejam mulheres de verdade.
Entro no meu semi-novo vermelho e saio. Chego a uma esquina sem semáforo e vejo alguém tentando atravessar. Tem faixa de pedestre e eu paro. Sorrio simpaticamente para convencer o transeunte de que não passarei por cima dele enquanto ele atravessa. Mas não é ele, é ela. E ela agradece, com um sorriso tímido e baixa a cabeça enquanto passa diante de mim. Vejo que seus olhos ficam inquietos nas órbitas querendo saber se eu a contemplo. Claro que sim. Pele de pêssego, cabelos cuidados, corpo esculpido. Assim que ela chega ao outro lado da calçada, recolhe os cabelos, gira um pouco o pescocinho tatuado e discretamente aponta os olhos na minha direção, cravando em nós um lindo sorriso de satisfação.
Maringá, 14 de maio de 2009.
terça-feira, 12 de maio de 2009
Don Juan

No galanteio elegante da madrugada
Sai o jovem filho do Amor a conquistar
E a seduzir a natureza; perito em artimanha,
Flerta com o vento, sorri para o luar,
Aura mística, o limite é o topo da montanha.
Segue seu destino todo soberano no olhar,
Porte sublimemente encantador,
Percorre as trilhas em ribeirão,
Acenando às relvas reluzentes em verdor,
E acariciando a semi-escuridão com lábios de varão.
Encontra o deleite quando menos se esperava,
A Noite, toda personificada em bela donna,
Coberta e ornada nos magníficos véus crepusculares,
Por isso mesmo lírica e reluzentemente barona,
Envolve-o em sua fantasia de rituais salutares.
Unem-se numa junção oniricamente comedida
Ambos a desenvolver um jogo de carícias variadas
Toques, sussurros, o casal já paira em meio à brisa,
Seres distintos, mas pelos quereres almas amadas,
Saboreiam-se tão furtivamente que não mais se divisa.
Após o gozo infinito e desmedido,
Ela se esvai na aurora que precede o beijo derradeiro
E ele, o galã viril, retorna a casa revigorado,
Para aguardar o turno de mais um dia rotineiro
E então, ao raiar da lua, renascer para amar e ser amado.
Marco Hruschka
sexta-feira, 8 de maio de 2009
Soneto de saudade

E no cálido botão rosáceo, intumescido de prazer,
Habitam os meus desejos de cintilante devaneio,
O toque macio e a pele alva me fazem enlouquecer.
Dá-me, ó musa, alimenta-me com teu seio
Como uma mãe que sacia o filho faminto,
Mas saibas que a minha fome é de anseio,
Quero perecer em ti, curvas em labirinto.
Ao colocá-lo em meus lábios, como outrora e infinitamente,
Umedeço-o com a seiva da paixão e tu padeces,
No fechar dos olhos, desfrutas do deleite, imensamente...
No profundo suspirar, deixa-te levar pelo que queres,
Cederás sempre ao nosso amor, paixão incandescente,
E alhures, nossos lêmures se unirão num banquete de prazeres.
quinta-feira, 7 de maio de 2009
Soneto de fidelidade / Soneto de separação / Soneto do amor total

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.
Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.
quarta-feira, 6 de maio de 2009
Ternura - Vinícius de Moraes

Posto agora um de meus poemas favoritos de Vinícius de Moraes, Ternura. A nossa literatura e música atuais devem muito a esse grande compositor, músico e poeta. Um brinde ao conquistador!
Ternura
Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora.
Texto extraído da antologia "Vinicius de Moraes - Poesia completa e prosa", Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1998, pág. 259.
sábado, 2 de maio de 2009
Vers Dieu

No levíssimo estar de alma,
Toda contorcida pelo espasmo cor de sonho,
Ela, riacho, pêndulo, mistério, miragem, desejo,
Se despede de si por um instante atemporal,
Momento este em que o ar é poesia,
Em sua mente, o nada em déjà-vu, pois já flutua
Um vazio suavemente carregado de futuro,
Sobe, se emana, se aflora, se espera,
As estrelas e seus astros observam-na passar levíssima
Os lábios exclamando o deleite subjetivo
E o respectivo corpo se retransfigurando
Em sua androgeneidade personal, mulher-anjo,
Respectivamente simples como as trevas e a luz;
E se Deus existe, estica a mão para reconhecê-la
E ao tocar-lhe a pele, ela já-se-é novamente,
E regride transgredindo...
Agora em seu leito de início, abre os olhos,
Seu gêmeo a sorrir-lhe, também voluptuoso,
Aguardando o seu completo retorno
Desta viagem brevemente eterna em direção a Deus.
Foto: Imagem de Lúcifer na catedral Saint-Paul de Liège, Bélgica.
O que um homem quer? Fabrício Carpinejar

O que uma mulher quer? Fabrício Carpinejar

sexta-feira, 1 de maio de 2009
Quando a gente ama - Oswaldo Montenegro
Uma letra simples, mas que reflete claramente a nossa alma...
Composição: Marcelo Barbosa Barreti / Nil Bernardes / Fábio Caetano
Quem vai dizer ao coração,
Que a paixão não é loucura
Mesmo que pareça
Insano acreditar
Me apaixonei por um olhar
Por um gesto de ternura
Mesmo sem palavra
Alguma pra falar
Meu amor, a vida passa num instante
E um instante é muito pouco pra sonhar
Quando a gente ama,
Simplesmente ama
É impossível explicar
Quando a gente ama
Simplesmente ama!
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Arnaldo Jabor - Deusas do sexo
quinta-feira, 9 de abril de 2009
O Evangelho Segundo Jesus Cristo - José Saramago

Vocês já terminaram de ler um livro e tiveram arrepios de prazer? Foi o que aconteceu comigo quando terminei de ler "O Evangelho segundo Jesus Cristo" de Saramago. Fiquei em transe por alguns segundos tentando adaptar a mensagem. Não me arrependo de tê-lo escolhido como tema de minha monografia, será um prazer escrever algo a respeito. Eis as citações que mais me tocaram. Leitura recomendada, independente de crenças.
"[...] pois o Bem e o Mal não existem em si mesmos, cada um deles é somente a ausência do outro." P. 18
“[...] mas os anjos, mesmo podendo muito, como se tem visto, levam consigo as suas limitações de nascença, nisso são como Deus, não podem evitar a morte.” P 126
“Os escravos vivem para servir-nos, talvez devêssemos abri-los para sabermos se levam escravos dentro, e depois abrir um rei para ver se tem outro rei na barriga, e olha que se encontrássemos o Diabo e ele deixasse que o abríssemos, talvez tivéssemos a surpresa de ver saltar Deus lá de dentro.” P 241, 242
“[...] o problema de Deus é esse, ninguém tem o nome que ele tem.” P 330
“[...] pois já se sabe que as palavras proferidas pelo coração não têm língua que as articule, retém-nas um nó na garganta e só nos olhos é que se podem ler.” P 331
"A verdade e a mentira passam pela mesma boca e não deixam rasto, o Diabo não deixa de ser Diabo por alguma vez ter falado a verdade." P 357
"Que coisas que nós não sabemos haverá entre o Diabo e Deus" P 359
"[...] clamou para o céu onde Deus sorria, Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez." P 444
sexta-feira, 27 de março de 2009
Traição celeste
Olá meus amigos! Posto agora um texto meu de minha época de sonetista, hehe! Mais um texto que explora a natureza, espero que gostem!Solitário em meu quarto olho pr´o céu
Vejo um teatro de estrelas cintilantes
Contemplo tal beleza meio aréu
Nunca vira magia tal qual dantes
A mais brilhante delas fez-me réu
Semente do amor quero que plantes
Nesse peito que chora rios de mel
Estão de prova os astros circunstantes
Mas a protagonista surgiu clara
Segou-me os olhos ávidos de amor
Esplendor de rainha, não há máscara
Pedi vossa presença sem pudor
Será sempre avis rara, avis cara
Termino a peça amante com louvor
quarta-feira, 18 de março de 2009
A Dama de Preto

Como o tempo passa rápido, meu amor. Estamos completando um ano juntos, mesmo sabendo que tu sempre estiveste me esperando, lamento não ter olhado com os olhos límpidos pra ti antes. Parece que foi ontem que beijei teus lábios esvaecidos, pela primeira vez. Será que não foi ontem mesmo que nos debruçamos sobre a relva e gozamos de um silêncio que tu nos proporcionaste?! Ah, quanta tranqüilidade na alma... estar na tua presença é um prazer indescritível, contigo faltam-me as palavras!
Lembro-me bem do nosso primeiro encontro, quando estava sentado no alto de uma montanha, lendo um livro que falava da tua beleza, e percebi que tu começavas a te aproximar, caráter altivo, misterioso... dominando-me na tua amplitude de sombras...
Esperei que tu chegasses até mim completamente e me envolvesse com teu manto de névoa, abraço lúgubre deleitoso... toque gélido escaldante...
Foi no inverno que nos enamoramos por quase doze horas ininterruptas... tu me envolveste com teu véu em aura e não deixou que eu sentisse frio, passei o tempo todo olhando para ti, admirando a tua infinita beleza, algo muito além da minha compreensão.
Há quem queira difamar a tua imagem perante o mundo, mas não temo as histórias que contam sobre ti, não temo as vozes que ouço quando estou contigo, não temo sequer as imagens que você me mostra, não a temo, temo perdê-la, mesmo sabendo que isso é impossível, pois posso achá-la em qualquer lugar...
Meu corpo é um mar de sentimentos quando o crepúsculo se aproxima, excito-me, definho-me... saúdo-te, despeço-me... é o fado de minha vida, carregá-lo-ei com beneplácito.
Será que na outra vida poderemos passar todas as nossas horas juntos? É um preço que estou disposto a pagar para tê-la ao meu lado por todo o sempre...
Sinto o vento da despedida tocar minha face...
Hoje você me surpreendeu, por fim, deixou-me o orvalho da manhã como beijo...
Ah! Já expiro de saudades... não suportarei esperar o turno de mais um dia para vê-la, oh, doce e bela Noite, dona dos meus sonhos diurnos, encontro-te em ti mesma...
Adeus...
quarta-feira, 4 de março de 2009
Je rêve de toi

Marco Hruschka
Un petit peu de miel pour bonne et douce saveur
Le vin fait réveiller une très grande folie
Une rose charmante s’offre à la belle nuit
Le son de la guitare touche notre coeur
C´est pourtant le premier rejoint des professeurs
À son avis, ce qui marque sont les sourires
Je suggère: Aimez tout, jouissez de la vie
Entre nous il n´y a qu´une immensité de moeurs
Mon esprit ment, hélas, la lune est seule à moi
Je hurle son nom, je crie à Dieu par la vrai
La chimère est finie, je comprends bien cela
Et malheureusement, ce qui règne c´est loi
Deux fous ne vivent pas ensemble, je rêvais
Elle ne viendra plus, mais j´ai beaucoup de foi.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
A Tonalidade do Uníssono

Olá "blogueiros" de plantão! Muito obrigado pela visita. Segue abaixo um texto diferente dos demais, uma nova proposta de trabalho, gostaria de ver mais comentários, elogios ou críticas, uma palavra é bem-vinda! Um grande abraço! ;)
Marco Hruschka
O ar está em si bemol. A tendência é que a nota continue a mesma, embora possa semitonar dependendo da brisa. Contudo, os bemóis predominarão por aqui. O que há em um cômodo sem janelas nem portas, além de você? Transpiração e mais o quê? Silêncio e mais o quê? Silêncio em si bemol... preciso de janelas.
Eu queria ser aquele arco-íris que se exibe perto da cachoeira, pois trás esperança pós-tempestade, aquarela de fé... fé em quê?Independe! Mesmo assim seria ótimo sê-lo, desta forma apareceria sempre em horas notáveis e seria admirado como um desejo de um sonho, seria paisagem, também a lenda dos avós aos netos, a própria natureza, sendo assim o próprio Deus de alguns pagãos, como é o nome daquela religião mesmo? São tantas que nem me lembro mais. Ah, ser Deus! Mas... é bom ser Deus? Já tenho problemas demais como humano, Deus deve ser o problema personificado... ou melhor, espiritualizado. Não, não quero sê-lo!
Hoje o ar está amargo. Caretas de desprezo. Por quê? Não há resposta para tudo, pois se a vida é uma constante interrogação, ou não? Há quem diga que ela é a resposta de si mesma. Prefiro acreditar que a vida apenas é.
........................................................................................................................................................................................................ o seu olhar cheira a vinho, embebedar-me-ia? Provavelmente já esteja fora de mim. Pois estou em quem? Quem está em mim? Por favor, mais uma dose do olhar daquela dama! Como é excitante! Um olhar é o ato mais íntimo de um ser humano. Donna, olhe-me a mim, amém!
No alto de um precipício é o melhor lugar para se refletir sobre a vida como um todo. Eis-me aqui, no Portão do Cárcere, porque é assim que se chama esse lugar agora, meio inclinado a estibordo, tendo a proa como uma guilhotina a minha frente, à esquerda um campo magnificamente verde, à direita... o futuro. Não, cansei-me dessa posição, um passo para a direita e vejo tudo! Que vontade insanamente prazerosa de saltar, estico a mão e sinto o vento acre a balançar-me para frente e para trás, para frente e para trás... queria alcançar aquela nuvem, ela parece tão macia, abraçá-la-ia contra o peito até que ela se desmanchasse em pó, ou em fumaça, ou em cheiro de céu, quem sabe? Eu tenho opção, a guilhotina é mais rápida, mas eu ainda posso voar se quiser...
Ultimamente, a madrugada me faz carícias amorosas, deita-se comigo. Seu cheiro é místico e intenso, agrada-me senti-lo. O toque é fresco e firme, faz-me companhia enquanto fecho os olhos, ela assobia uma nota que não se encontra na escala musical de nossos antepassados, trata-se de algo lírico e novo, o som é tenor, e não importa o sexo, o deleite dos acordes é assexuado. A única pena é a sua partida à chegada crepuscular, tão cedo!
O defeito do ser humano é pensar demais. Hoje eu tive vontade de tocar uma pessoa, beijar essa pessoa, transformar-me nela por um segundo. E assim foi. Fundimo-nos em carne e
Este escrito é incognoscível a mim. Se eu conseguisse me lembrar...
Tic-tac, tic-tac, morte-morte, morte-morte, tic-tac...
Por favor, me leve embora daqui... não agüento mais esse cheiro de espectro, esse som de mar, não suporto mais me ser. Eu sei que você está aí! Por que não aparece logo? Me tira daqui!
A mulher é uma domadora profissional de homens apaixonados, o que há dentro do ser masculino que se deixa ser influenciado tão facilmente pelas fêmeas? O “fogo que arde sem se ver”? Basta uma expressão facial... e pronto! O jogo termina vencido pelas damas. Cavalheiros, não vos rendam aos caprichos da serpente!
O absurdo resolveu agir por aqui, o tempo todo, estamos imersos nele. Uma lava espessa e colorida, mas são tons sombrios, macabros. Parece noite. Ouço uivos, gritos, ventos esparsos e ciprestes... sinto que o luto está a sobrevoar o povoado. Quanto mais eu corro, mais perto está o que me persegue, o que são essas coisas? De onde elas vêm? Acho que a pergunta correta seria “O que sou eu?”. Ousar-me-ia demandá-la a mim? É como overdose de absinto.
Despedir-me-ei daqueles que ficam. Vou procurar o frescor, algo como a aragem da geada; procurarei também o eco de minha voz que se perdeu por entre os meandros labirínticos da vida, um som rouco de tanto viajar pelas intempéries da realidade; buscarei o agridoce, mel demais acaba por enjoar-me; ah, já sei o que quero! Que impere o silêncio, arpeje! Voilà! Zéfiros em si bemol...
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Aquário de delícias

Como me agrada o movimento vertical da chuva. Por vezes, não tão nesse sentido, mas diagonal, levada pelo vento. À janela, posso sentir tocar-me a face quando oblíqua. A água... milagre divino, pureza magistral, como é bom tê-la em abundância! O pluvial me presenteia a alma com leveza. Sinto-me, como um vivente de outra encarnação, um ser aquático, usufruindo deleitosamente da vastidão silenciosa do oceano. Agridoce ilusão. Há o mel do sonho e o amargo da realidade. Crio existências dentro de meu coração as quais fantasio vivê-las. Nelas, não haveria paradoxos sentimentais, oscilações psicológicas, apenas o neutro, um neutro levemente prazeroso e eterno.
Um novo quadro se descortina, a brisa mansa toma conta da atmosfera, o céu no azul tipicamente dominical, a paisagem repleta de lagos com água cristalina onde os pássaros se harmonizam com os peixes e com os homens. Há um alimento perfeito, completo e eterno em comum às espécies: a ambrosia celeste. Voltamos à idade de Ouro. Tudo é preservado e repartido igualitariamente. A Água predomina como rainha soberana.
Banhamo-nos nas cachoeiras em meio à relva oculta. Relacionamo-nos com tudo e com todos, sem egoísmos, sem ciúmes, sem invejas, sem preconceitos. Caminhamos pelos vales, observamos os ribeirões repletos de preciosidades, escutamos o silêncio natural das coisas. O lema de minha tribo: “Sorria com a alma e a natureza o recompensará”. Não há sequer a hierarquia Olímpica de outrora. As noites, convidativas. Celebramos a vida, a saúde, a união das raças de todas as sortes. A Natureza evolui junto ao novo Homem. A Vida tem a transparência e a sobriedade de um aquário. Regozijo...
A chuva cessou. Assustei-me com uma porta que bateu com o vento e, de sobre-salto, afastei-me da janela, ensopado da cintura para cima. A água caída do céu expurgara-me os pensamentos e o orbe sonhado. Senti profundamente estar ali, naquilo que existe de verdade. O suco de Deus, ao mesmo tempo em que trouxe, levou consigo todas as minhas esperanças de continuar em mim mesmo. Definho ao pensar que não poderei usufruir, nos cinco sentidos, de toda a amplidão da natureza virgem, noiva casta e cândida que me seduz com rios de mel e montanhas de dádivas. Não há solução. A fuga no sonho é irrealizável, acaba-se ao abrir dos olhos. Despeço-me, subterfugir-me-ei àquela cujo abraço é mortal, cuja casa é fria e eternal, cujo cântico troante soa-me madrigal, que o caminho seja o Nilo ou o Senegal.
OBS: Conto publicado pela CBJE em janeiro de 2009 no livro Contos Selecionados de Autores Premiados - Edição Especial 2008
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
VULVA-FLOR

Que no início tudo são lírios,
Monocromia na pele e nos odores,
Essências originais, alvores,
Imaginação acesa em delírios...
Mas com um leve toque
O sangue ferve e lateja,
Novo tom, rosa-rosa, que assim seja,
Coloração que nos relembra a belle époque.
A mão febril é substituída no seu tempo,
Que entre a língua, do relento a rainha,
Estimulante natural, trabalha sozinha,
Orquídea verte lágrimas de contento.
Já é flor desabrochada, pólen abundante.
Tremores invisíveis de prazer alado
Transformam em violeta o sexo requintado,
Desenho ornamental, odor inebriante.
Os cálices explodem em coloração,
O deleite não tarda, graça suprema,
As corolas brilham como estrelas de cinema,
E no conjunto, o perianto pulsa de excitação.
Ah, o ápice do gozo que se espera!
Do miolo floral vê-se o néctar a escorrer...
Violeta... Orquídea... rosa... lírio.
Nova flor em broto, nova primavera!
sábado, 31 de janeiro de 2009
Ser-em-si

Sem mais palavras, com vocês... "Ser-em-si"!
Marco Hruschka
Do louvor à verdade, o próprio hino
Deserto inabitado, sol a pino
Insistir na crença de um deus sempre ausente
Sou dos outros o inferno inconsciente
Flor em broto, mas asfixiada, crua e cega
De Jesus aquele que o nega
Entrelinhas do além sonial
O vício salgado, imundo e banal
Quando choro, verto líquido escarlate
Quando grito, o timbre é de abate
Quando rio, a gargalhada é muda
Quando deveras enxergo, poesia desnuda
Será que mereço o teu céu de nuvens
Com anjos alados de penugens
A entoar cantos àquelas virgens santas
Que por debaixo das saias fogueiras tantas?
Por que não? Sou humano-animal-irracional
Como toda a minha raça feral
Em verdade, em verdade vos digo
Da alienação mental serei sempre inimigo
PS: Foto "O êxtase de Santa Teresa", de Bernini.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Assim na Terra como no Céu

Quem leu atentamente "Dom Casmurro" de Machado de Assis se lembrará de dois versos desse poema. Não ousaria plagiar o Mestre, sinto-me honrado em poder fazer uma brincadeira com um dos maiores escritores já visto no Brasil. Eis o aval: "Mas, como eu creio que os sonetos existem feitos, como as odes e os dramas, e as demais obras de arte, por uma razão de ordem metafísica, dou esses dous versos ao primeiro desocupado que os quiser". Certamente não fui o primeiro, mas o soneto perfeito saiu, como ele queria que fosse!
Oh! Flor do céu! Oh! Flor cândida e pura!
Capaz de negros e alvos conciliar,
De bíblia e alcorão unificar,
Os filhos do Senhor reclamam cura!
Cultiva esse povo com brandura!
Tens o mero dever de apaziguar,
Traga da estrela a luz a abençoar
Esses pobres que cá têm vida dura.
Ceda-me o papel de caridade,
Oh! Pai celeste! Faça-se igualha,
Que se extinga na Terra a pravidade!
Serei teu anjo, não quero medalha.
Pregar-Te-ei, fruirá a posteridade,
Perde-se a vida, ganha-se a batalha.
Marco Hruschka
Machado de Assis
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
Eu, Blimunda
Olá amigos! Posto agora um poema recém-escrito, chama-se "Eu, Blimunda". Sei que o texto deveria falar por si só, porém seria de grande valia para o entendimento desse poema que se conhecesse o livro "Memorial do Convento", de José Saramago, pois a intertextualidade é clara. Mas se conseguirem ver beleza por aqui, já fico feliz! Espero que gostem...
Marco Hruschka
Mirava nossas fotos, quimera?
E percebi o quanto éramos lindos juntos, voltasse pudera
O quanto éramos felizes juntos, chuva de estrelas


















