"A internet é tão grande, tão poderosa e tão inútil que para algumas pessoas é um perfeito substituto à vida." (Andrew Brown)
Ele acordara. Ainda meio sonolento, levantou-se da cama e, com os olhos semiabertos, voltou-se para o lado do seu computador pessoal e apertou o botão para ligá-lo. Enquanto a máquina inicializava-se, ou dava o boot, expressão corrente entre as pessoas ligadas à informática, ele colocou os chinelos e foi ao banheiro fazer sua habitual toalete. Primeiramente, olhou-se no espelho e viu alguma coisa embaçada, disforme, que também olhava para ele, porém sem aprová-lo. Quem sou eu, pensou em voz alta. Já não se mirava mais como antes, já não era o Narciso a observar-se na lagoa.
Estava ansioso. Na noite passada, antes de ir dormir, havia postado um pensamento seu em uma das principais, senão a principal, rede social na internet. Estava inquieto, pois queria saber se seus amigos haviam “curtido” o post, se havia comentários, Deus queira que sim.
Ainda no banheiro, pensava em seus compromissos diários, talvez já estivesse atrasado. Apressou-se a escovar os dentes, tomar um banho e pentear-se e foi para o quarto vestir-se. Escolheu a roupa de sempre, não a mesma troca, evidentemente, mas o mesmo modelo, o mesmo estilo. Depois de tudo pronto, soltou um “ufa” de contentamento e foi até o computador verificar suas atualizações. Acessou, antes de qualquer coisa, o site onde havia postado sua última reflexão antes de deitar-se. Para sua surpresa, ou talvez nem tanta assim, não havia nenhum “curtir” e nada escrito embaixo. Mas no fundo ele sabia que não haveria. O hábito o consumia. E, pelo mesmo motivo, e somente pelo mesmo motivo, lembrou-se que deveria comer algo. Foi até a cozinha, pegou umas bolachas e um iogurte e voltou para o quarto.
Acessou sua caixa de e-mails e não encontrou nada novo, apenas as mesmas mensagens, já lidas anteriormente. Abriu a página de seu blog, onde escrevia algumas leviandades, que para ele eram curiosidades, e coisas de seu gosto pessoal, possuía alguns seguidores, no máximo uma dúzia, todos conhecidos seus. O blog estava como dantes: mesma cara, mesmos comentários. Intimamente decepcionado, voltou para a rede social e ficou olhando as atualizações alheias. Afinal, queria estar antenado às novidades e a tudo o que envolvia as pessoas que conhecia e as que ele não conhecia também. Já estava na hora de ir trabalhar, mas ele preferia ficar um tempinho a mais na internet e recuperar a diferença no trânsito, costurando os carros com sua moto. Eu pego um atalho, pensou. Já vira tudo que haviam escrito e, neste momento, estava olhando fixamente para a tela do computador, intacto, imóvel, inativo. Como quem espera um milagre. Como um cão faminto espera o dono dar-lhe um pouco de comida. Há algum tempo ele esperava algo, tempo esse que não existe, ponteiros invisíveis, sentimentos indizíveis. Desvenda-me ou engulo-te, é o que aquela esfinge lhe diria se pudesse. Num segundo de lucidez, despertou daquele sono de olhos abertos e foi trabalhar. No caminho, estava incomodado, pois não abrira seu comunicador instantâneo. E se alguém quisesse falar comigo logo de manhã...

Chegou no serviço, era operador de telemarketing. Trabalhava rodeado de outras pessoas, porém cada um isolado em sua cabine. Era um bom empregado, atendia e conversava bem, pelo menos via telefone. Sentou-se na cadeira, não muito confortável, e ligou o computador da empresa. Embora não fosse permitido e nem aconselhado pela chefia, automaticamente todos os programas inicializavam-se com o Windows, então foi o tempo de ele buscar um café, voltar e dar de cara com o MSN, Facebook, Twitter, Orkut, seu Blog e seu E-mail abertos e atualizados. Olhou atento e ligeiro para a tela, na esperança de contemplar alguma novidade. Havia uma. Seu coração acelerou quando ele clicou e viu que uma pessoa que ele adicionara no dia anterior havia aceitado seu convite para fazer parte dos seus amigos virtuais. Ele não a conhecia pessoalmente. Agora tinha quase mil contatos em suas redes sociais. Achava isso um máximo, um recorde, uma conquista. Ali, frente ao monitor, ele se sentia bem, à vontade, até mesmo amado algumas vezes. Seu habitat natural.
Enquanto atendia algumas ligações, navegava pelas páginas já mencionadas e agora também por um site de piadas, de modo a se distrair. Nada melhor do que trabalhar e relaxar ao mesmo tempo, pensou.
Chegara a hora do almoço. Foi almoçar num restaurante ali perto, como sempre fazia. Não porque a comida fosse ótima, mas porque já se acostumara. Pedira o mesmo prato-feito. A casa estava cheia e a sua comida estava demorando a ser servida. Então pegou o celular e acessou seu comunicador instantâneo. A modernidade nos possibilita almoçar e conversar com amigos ao mesmo tempo, mesmo que não haja ninguém sentado na sua mesa além de você mesmo. Não foi o caso. Nosso personagem olhava para a tela do pequeno aparelho, o qual ele segurava quase embaixo da mesa, sem saber com quem puxar papo, então ficou lendo as mensagens pessoais de seus amigos. A da Rafaela dizia: “Tchê tchê re re tchê tchê (8)”; a do Juninho: “Sabadão todo mundo lá galeraaaaa”; a da Andressa “A vida é um soco no estômago”, só não havia citado a autora, Clarice Lispector. Sentiu uma dor na barriga. Já não sabemos se era questão de frase ou de fome. Na vida é assim, às vezes apossamo-nos do que é alheio sem dar-nos conta.

Comeu rápido. Ainda tinha mais uma hora de horário de almoço. Não quis passear pela cidade. Não quis tomar um sorvete. Não quis tirar uma soneca. Voltou para o escritório e sentou-se na frente do computador novamente. Onde vou entrar agora, pensou. Sem inspiração e criatividade, abriu o navegador e a página inicial carregou: www.facebook.com. Queria publicar alguma mensagem significativa. Mas sobre o quê? Qual tema? O amor?! Muito clichê! Precisa ser algo atual, imaginou. Foi então que, observando as atualizações de outras pessoas, achou uma frase interessante: “Hoje em dia as pessoas optam e / ou têm a tendência a trocar as relações humanas pelas relações com as coisas". Resolveu republicá-la. Mas como não encontrara a fonte, não sabia o nome do autor, decidiu relacioná-la a um pensador célebre. Assim, acharão que ando lendo, que pesquisei, terei mais prestígio, cogitou. O pensamento passou a ser de Benjamin Franklin, pois. De iluminista, passou a vanguardista de repente e o pobre Leandro, seu colega que havia feito tão bela reflexão, perdera os créditos para alguém que, sem dúvida, não precisa de mais citações interessantes em seu currículo.
Estava feliz. Dessa vez vários amigos curtiram seu post. Até que enfim havia feito algo “legal”. Ganhei o dia, gabou-se. Trabalhou contente até o fim da tarde. Desligou o PC da firma e foi embora às seis em ponto.
Chegou em casa vinte minutos depois. Jogou a pasta em cima da cama e ligou seu computador. Queria sair, estava cansado do serviço. Apenas hoje, fisicamente, pois em geral gostava de trabalhar lá. A internet o saciava quase por completo, mas como força inata do ser humano, sentia falta de relacionar-se pessoalmente, ainda mais depois do término do seu namoro, há quase um ano. Desde então não conseguiu mais ter vínculos afetivos com outras mulheres. Não me pergunte o porquê, em geral os sentimentos das pessoas são tão profundos e obscuros que nem mesmo um bom narrador é capaz de desvendar. Acessou os comunicadores e escreveu em sua mensagem pessoal: “É hojeeee!!!”. Estava preparando seu espírito para a noite que começara. Deixou seu melhor amigo ali, claro está que falamos do computador, e foi tomar banho. Após uma ducha relaxante, ainda de toalha, voltou à máquina e trocou a mensagem atual por: “Hoje a noite é uma criança...”. E foi vestir-se.
Estou pronto, disse para si mesmo, esfregando as mãos ansioso. Olhou sua lista de contatos online. Escreveu uma mensagem modelo: “E aí, blz?! Bora tomar uma beer?”. Copiou e colou para seus amigos mais próximos. Foi à cozinha comer algo. Pegou uma fatia de bolo e preparou um café com leite. Quando voltou já havia duas respostas. O Ricardo dizia o seguinte: “Blz e vc? Então, foi mal cara, hj tenho um compromisso...”; O Ângelo: “Faaaaaala parceiro, bão e tu?! Ah, hj não vira, to de boa!”. O Danilo, o César, o Ferrari e o Japa não responderam.
Leu as mensagens e não teve coragem, força, atitude para respondê-las. Estava chateado. A medusa o petrificara. Paralisado, olhos perdidos no vago e os pensamentos distantes. De repente, como num estalar de dedos, despertou. Recuperou-se e resolveu sair mesmo assim. Acompanhado ou, como de fato seria, sozinho.
Conferiu a carteira: documentos, cartão de crédito e uns trocados. Passou seu melhor perfume, trancou a casa e saiu para a rua, onde estava a sua moto. Olhou para o céu com medo de que chovesse. Não choverá, pode ir tranquilo, a noite é, como confirma o ditado, uma criança. Mas ele parecia pressentir alguma coisa, algo o incomodava. Partiu.
Durante o caminho para o bar, já previamente escolhido, pois era o de sempre, foi imaginando como agiria, quem poderia encontrar lá, tenho quase mil amigos, com certeza haverá alguém, desejou.
Foi como um teletransporte. Uma mudança de mundos. Uma mudança de espírito. Da realidade para a ficção. Pulemos a parte em que ele ficou na fila de entrada por trinta minutos, mandando mensagens para seus amigos que não quiseram vir, vangloriando-se da qualidade feminina naquela balada. Agora ele já está lá dentro, um tanto quanto tímido, olhando para os lados enquanto bebe uma cerveja. Ficou um tempo encostado no balcão apenas observando o ambiente, as pessoas, o movimento. Resolveu dar uma volta para ver se encontrava alguém. De cara, cruzou com a Daniela Vasconcelos, a “Miss facebook”, denominação mais do que justa que ele lhe deu. Olharam-se, mas não se viram. Ou pelo menos ela não a ele. Fingiu não ter notado a indiferença da moça e seguiu andando. Contornando o bar pelo lado esquerdo, viu a Cecília de Loyola, que também o viu, oieeeeeeee, disse toda sorridente. Cumprimentaram-se e se abraçaram como se fossem velhos amigos, mas não passavam de contatos online. Ficou apenas no cumprimento. Se eu fosse ela teria escolhido uma máscara mais convincente.
Um pouco mais adiante, viu um grupo de três moças, todas bem vestidas, dançando descontraidamente e bebendo uns drinks exóticos. Conheço-as, pensou. Não se lembrava do nome delas, mas sabia que já as havia visto em algum lugar, ou melhor, em um lugar específico. Elas prenderam sua atenção. Depois de fazer um tour pelo bar e não encontrar mais ninguém conhecido, resolveu ficar numa posição em que pudesse ficar olhando para o trio. No fundo, queria ir falar com elas, mas não sabia como. Pensava em uma maneira de abordá-las. Sorrisos, bebidas, elas dançavam bem e, de certa forma, eram sensuais. Ensaiou algumas investidas: “Oi, sou o cara do facebook que sempre curte o seu status, lembra de mim?” Desistiu. “E aí, meninas...” Não! Realmente não estava seguro. Foi ao banheiro. Olhou-se no espelho, como fizera pela manhã, mas agora um pouco mais demoradamente. Quem sou eu, perguntou-se em pensamento. Ele não conhecia a história, mas no fundo desejava que aquele espelho fosse o retrato de Dorian Gray. Era um homem adulto, ainda jovem, mas a ideia de envelhecer não lhe agradava.

Saiu do banheiro, pediu mais uma cerveja e sentou-se num banco, no canto do bar, um pouco escondido, preferiu ficar ausente um pouco. Bebia e pensava, pensava e bebia. Pegou o celular para olhar que horas eram. Era tarde. Não resistiu, entrou no MSN. Quem estava online?... Música alta no bar... Já voltou, perguntou o Japa... Sorrisos, mulheres... Não respondeu... Mais uma cerveja, por favor!... Ahhhh, ela está online!... Obrigado!... Oi, flor... Nada aqui, nada lá...
Fechou o celular e resolveu ir embora. Não estava se sentindo bem, vinha de dentro pra fora, de antes para agora, queria sua casa. Pagou. Partiu.
Arrependeu-se de ter bebido tanto. Era contra qualquer tipo de vício. Em geral, tomava uma cerveja e depois tomava uma água, para equilibrar. Ficava nisso. Chegou em casa. Guardou a moto. Foi ao banheiro, não se olhou no espelho, agora não precisava mais disso. Saiu e foi diretamente ao seu quarto. Sentou-se na beirada da cama. Balançava as pernas enquanto a máquina dava o boot.
Marco Hruschka