SEJAM BEM-VINDOS !!!

"Gostaria de desejar-lhes as boas-vindas ao meu blog. Fiquem à vontade para ler e comentar meus textos. Um obrigado desde já àqueles que elogiam e que acompanham de perto o meu trabalho. Um abraço cordial!"

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Caim


Terminada a leitura do mais novo romance de José Saramago, Caim de seu nome, percebemos um narrador no ápice da ironia e da aversão para com a imagem de deus (gravado com letra minúscula, como no romance). Caim é o protagonista e o novo herói saramaguiano. O filho primogênito de adão e eva mostra-se indignado com as atitudes divinas para com os seres humanos e, ao viajar no tempo e visitar os episódios de sodoma e gomorra, da torre de babel, de jericó e do dilúvio, por exemplo, entra em contato com a tirania de deus. Não se pode confundir literatura com crença, pois, claro está, a intenção aqui é difundir o conhecimento, o texto literário, a ficção, a reflexão filosófica. Leitura recomendada!


Marco Hruschka



"A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele" Saramago, 2009, p.88



"O sangue corria entre as tendas como uma inundação que brotasse do interior da própria terra, como se ela própria estivesse a sangrar, os corpos degolados, esventrados, rachados de meio a meio, jaziam por toda a parte, os gritos das mulheres e das crianças eram tais que deviam chegar ao cimo do monte sinai onde o senhor se estaria regozijando com a sua vingança." Saramago, 2009, p. 101


"Eu não fiz mais que matar um irmão e o senhor castigou-me, quero ver agora quem vai castigar o senhor por estas mortes, pensou caim, e logo continuou, Lúcifer sabia bem o que fazia quando se rebelou contra deus, há quem diga que o fez por inveja e não é certo, o que ele conhecia era a maligna natureza do sujeito" [...] "Havia uma nuvem escura no alto do monte sinai, ali estava o senhor" Saramago, 2009, p. 101



"O problema do unicórnio é que não se lhe conhece fêmea, portanto não há maneira de que possa reproduzir-se pelas vias normais da fecundação e da gestação, ainda que, pensando melhor, talvez não o necessite, afinal, a continuidade biológica não é tudo, já basta que a mente humana crie e recrie aquilo em que obscuramente acredita." Saramago, 2009, p.156


"Dentro da arca, a família noé dava graças a deus e, para festejar o êxito da operação e exprimir o seu reconhecimento, sacrificou um cordeiro ao senhor, a quem a oferenda, como é natural, conhecidos os antecedentes, deliciou." Saramago, 2009, p. 163


PS: Foto Caim conduzindo Abel à morte, quadro de James Tissot.


segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Máscara (a)temporal


Quero viver a clandestinidade do instante
O momento estrangeiro
A androgeneidade do tempo
O que resta de mim e o seu montante


Agarro-me ao último tic-tac do ponteiro
E já padeço, não há réplica, não há nada
Vã esperança dos desejos vis
Agulha da morte, traiçoeira, passo ligeiro


O vácuo de onde venho já se esvai
Intermitências constantes de inconstantes sentimentos
Enquanto a areia escorre a esperança cresce
Pai gentil de toda sorte, ó tempo, agonia que não sai


Ciclo completo e nada muda
Mas mudam os segundos, a realidade não
Tic-tac, tic-morte, morte-tac, morte-morte
No verso derradeiro a farsa é moribunda


Marco Hruschka

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Esperança oblíqua






Uns chamam de fé, outros de sonho, ou de desejo
A minha tem cheiro de verde, olhos de eterna ternura
Exalo de cada poro a vera vontade, alada brandura
Ao mirá-la, ela me domina, vento, brisa, frescura e ensejo

Quero niná-la em meus braços, enchê-la de mimo
Acariciar seu sorriso com meus lábios apaixonados
Tocar-lhe a pele e sentir eriçar a alma, cais de embargos
Pois sou a maré alta devorando tudo, até que toque o sino

Madrugada de luar esfumaçado, branco, beijo de bruma
Ela aparece flutuando sobre as águas e iluminada de esplendor
Uma rosa imaculada no cabelo, um vestido todo alvor
Chorarei e sorrirei num misto de sentimentos até que ela suma

Então paro e as chagas reaparecem, coração agora místico
Sou a areia encharcada que ficou na despedida do mar
Pesada, dura, e que depois secará e fragmentar-se-á pelo ar
Dissimulo situações para aliviar a dor, a simbólica e a do físico

Preciso do oráculo para poder me livrar da angústia de não saber
Mas ele habita o topo da montanha, posição privilegiada dos videntes
Então serei o condor que alcançará as verdades onipotentes
E se o tema é o amor, os deuses ecoarão a eterna dúvida do nosso ser



Marco Hruschka

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Mulher de aroma e céu


Que o véu transparente e luminoso do teu rosto
Continue a musicalizar o teu verso sensuoso
Pois tua aura alva repleta de bordados
Transparece a verdade em teus olhos esmeraldados


Sonhe, flutue, galgue, emane poesia
Que teu sorriso é samba-fantasia
És sublime no teu júbilo felino
A teu louvor dedicamos este hino.


A Raquel Fregadolli, por Marco Hruschka e Luigi Ricciardi


Trata-se de um poema inusitado, escrito num guardanapo de papel num barzinho, enquanto comemorávamos a boa apresentação de nossos trabalhos no CELLIP, em Cascavel. Uma amiga especial estava em uma mesa próxima, então resolvemos homenageá-la da melhor maneira que podíamos, com a nossa arte. Um viva aos poetas de bar! ;)

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Que assim seja



Espero que você possa voltar a sentir dentro do teu coração um amor verdadeiro, sem mágoa, sem medo, sem dúvida, sem erros. Aquele amor que dizia que sentia por mim, que eu acreditava. Aquele amor que nos faz esquecer que somos medíocres, este que sinto agora, mas quando estou contigo. Aquele amor que nos faz sorrir ao lado da pessoa amada, mesmo quando tudo está errado, só a companhia que não. Aquele amor, sem descrições, sem palavras possíveis... o nosso amor!


Marco Hruschka

Angústia


Insisto enquanto houver amor...
E quando ele me tortura insisto
Se tu és a minha glória e meu louvor
Sou teu céu e teu inferno, exato misto

Marco Hruschka

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Sentido às avessas


Sentimentos transfigurados
Transtornos oblíquos
Amores salgados
Verbos ventríloquos

Paixões absurdas
E absurdos temores
Amiúde, miúdas e mudas
Típicos pavores

Chuva de espasmos
Negro-coração-vil
Sou todo orgasmos
De seda, de aroma, febril

Sentido em luto
Pois a morte jaz-em-mim
E de mim um dissoluto
Que comece o festim

O banquete é mel escarlate
O de beber e o de comer
Um ótimo abate
Brindemos sem saber!

Chegaram os cretinos
E os seus lugares ocuparam
Já cantaram o mal-hino
E aos deuses já louvaram

Dissertarão fogo-fátuo de asneira
A quem estão querendo enganar?
De vós pior acúmulo de besteira
Dê-me a corda, pois o melhor é se matar


PS: Foto "A última Ceia", Leonardo Da Vinci

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Epitáfio Lírico


Suicidou-se dentro de mim
Arrancou o que havia de mais belo
Pra retirar a seta chamei o Querubim
Que se foi em lágrimas, quebrou-se o elo

Havia muito amor, muita esperança
Vontade de tornar tudo perfeito
Tudo era perfeito, tudo era nuança
Mas minhas promessas perderam o efeito

Em meu coração já não podes habitar
Pois tu me negas, foges, te escondes
Então vá e sigas teu orgulho insalutar
E busque amor mais puro em outras fontes

Se achares, ganharás a vida eterna
Se não, lamentarás por todo o sempre
Pois estarei na noite, na boemia, na taberna
Ou quem sabe no coração de uma donzela


Marco Hruschka

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Caim, de José Saramago


Eis que o escritor português José Saramago lança seu novo livro, Caim. Há muito esperava um livro dele seguindo a temática d'O evangelho Segundo Jesus Cristo, obra na qual se baseia a minha monografia. Estou ansioso para lê-lo, pretendo utilizá-lo como dissertação de mestrado, espero que valha a pena. Segue abaixo, trecho do livro:


Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que a adão e eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outros animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de mugidos e rugidos, outros por roncos, chilreios, assobios e cacarejos, desfrutavam já de voz própria. Num acesso de ira, surpreendente em quem tudo poderia ter solucionado com outro rápido fiat, correu para o casal e, um após outro, sem contemplações, sem meias-medidas, enfiou-lhes a língua pela garganta abaixo. Dos escritos em que, ao longo dos tempos, vieram sendo consignados um pouco ao acaso os acontecimentos destas remotas épocas, quer de possível certificação canónica futura ou fruto de imaginações apócrifas e irremediavelmente heréticas, não se aclara a dúvida sobre que língua terá sido aquela, se o músculo flexível e húmido que se mexe e remexe na cavidade bucal e às vezes fora dela, ou a fala, também chamada idioma, de que o senhor lamentavelmente se havia esquecido e que ignoramos qual fosse, uma vez que dela não ficou o menor vestígio, nem ao menos um coração gravado na casca de uma árvore com uma legenda sentimental, qualquer coisa no género amo-te, eva. Como uma coisa, em princípio, não deveria ir sem a outra, é provável que um outro objectivo do violento empurrão dado pelo senhor às mudas línguas dos seus rebentos fosse pô-las em contacto com os mais profundos interiores do ser corporal, as chamadas incomodidades do ser, para que, no porvir, já com algum conhecimento de causa, pudessem falar da sua escura e labiríntica confusão a cuja janela, a boca, já começavam elas a assomar. Tudo pode ser. Evidentemente, por um escrúpulo de bom artífice que só lhe ficava bem, além de compensar com a devida humildade a anterior negligência, o senhor quis comprovar que o seu erro havia sido corrigido, e assim perguntou a adão, Tu, como te chamas, e o homem respondeu, Sou adão, teu primogénito, senhor. Depois, o criador virou-se para a mulher, E tu, como te chamas tu, Sou eva, senhor, a primeira dama, respondeu ela desnecessariamente, uma vez que não havia outra. Deu-se o senhor por satisfeito, despediu-se com um paternal Até logo, e foi à sua vida. Então, pela primeira vez, adão disse para eva, Vamos para a cama. 

Set, o filho terceiro da família, só virá ao mundo cento e trinta anos depois, não porque a gravidez materna precisasse de tanto tempo para rematar a fabricação de um novo descendente, mas porque as gónadas do pai e da mãe, os testículos e o útero respectivamente, haviam tardado mais de um século a amadurecer e a desenvolver suficiente potência generativa. Há que dizer aos apressados que o fiat foi uma vez e nunca mais, que um homem e uma mulher não são máquinas de encher chouriços, as hormonas são coisa muito complicada, não se produzem assim do pé para a mão, não se encontram nas farmácias nem nos supermercados, há que dar tempo ao tempo. Antes de set tinham vindo ao mundo, com escassa diferença de tempo entre eles, primeiro caim e depois abel. O que não pode ser deixado sem imediata referência é o profundo aborrecimento que foram tantos anos sem vizinhos, sem distracções, sem uma criança gatinhando entre a cozinha e o salão, sem outras visitas que as do senhor, e mesmo essas pouquíssimas e breves, espaçadas por longos períodos de ausência, dez, quinze, vinte, cinquenta anos, imaginamos que pouco haverá faltado para que os solitários ocupantes do paraíso terrestre se vissem a si mesmos como uns pobres órfãos abandonados na floresta do universo, ainda que não tivessem sido capazes de explicar o que fosse isso de órfãos e abandonos. É verdade que dia sim, dia não, e este não com altíssima frequência também sim, adão dizia a eva, Vamos para a cama, mas a rotina conjugal, agravada, no caso destes dois, pela nula variedade nas posturas por falta de experiência, já então se demonstrou tão destrutiva como uma invasão de carunchos a roer a trave da casa. Por fora, salvo alguns pozinhos que vão escorrendo aqui e ali de minúsculos orifícios, o atentado mal se percebe, mas lá por dentro a procissão é outra, não tardará muito que venha por aí abaixo o que tão firme havia parecido. Em situações como esta, há quem defenda que o nascimento de um filho pode ter efeitos reanimadores, senão da libido, que é obra de químicas muito mais complexas que aprender a mudar uma fralda, ao menos dos sentimentos, o que, reconheça-se, já não é pequeno ganho. Quanto ao senhor e às suas esporádicas visitas, a primeira foi para ver se adão e eva haviam tido problemas com a instalação doméstica, a segunda para saber se tinham beneficiado alguma coisa da experiência da vida campestre e a terceira para avisar que tão cedo não esperava voltar, pois tinha de fazer a ronda pelos outros paraísos existentes no espaço celeste.








Marco Hruschka

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Prece


Ontem, antes de dormir, senti vontade de escrever isso. Escrevi no celular, deitado no escuro. Mas não quis fazer um poema, e sim registrar o que estava sentindo. Poucas palavras. São versos esparsos, talvez sem poeticidade. Mas são o puro sentimento que me habitava naquela hora. Chamei de "Prece".

Dormirei abraçado ao teu cheiro
Sonhando com a tua pele
E rezando o teu amor de volta


És o anjo de minha vida
Vivo o amor desconexo
Aposto na minha verdade sentimental


Quero-te aqui
Toda e minha
Te amo

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Arnaldo Jabor: a realidade nua e crua!



- Brasileiro é um povo solidário. Mentira. Brasileiro é babaca.
Eleger para o cargo mais importante do Estado um sujeito que não tem escolaridade e preparo nem para ser gari, só porque tem uma história de vida sofrida;
Pagar 40% de sua renda em tributos e ainda dar esmola para pobre na rua ao invés de cobrar do governo uma solução para pobreza;
Aceitar que ONG's de direitos humanos fiquem dando pitaco na forma como tratamos nossa criminalidade.
Não protestar cada vez que o governo compra colchões para presidiários que queimaram os deles de propósito, não é coisa de gente solidária.
É coisa de gente otária. 
- Brasileiro é um povo alegre. Mentira. Brasileiro é bobalhão.
Fazer piadinha com as imundices que acompanhamos todo dia é o mesmo que tomar bofetada na cara e dar risada.
Depois de um massacre que durou quatro dias  em São Paulo, ouvir o José Simão fazer piadinha a respeito e achar graça, é o mesmo que contar piada no enterro do pai.
Brasileiro tem um sério problema.
Quando surge um escândalo, ao invés de protestar e tomar providências como cidadão, ri feito bobo.
- Brasileiro é um povo trabalhador. Mentira.
Brasileiro é vagabundo por excelência.
O brasileiro tenta se enganar, fingindo que os políticos que ocupam cargos públicos no país, surgiram de Marte e pousaram em seus cargos, quando na verdade, são oriundos do povo.
O brasileiro, ao mesmo tempo em que fica indignado ao ver um deputado receber 20 mil por mês, para trabalhar 3 dias e coçar o saco o resto da semana, também sente inveja e sabe lá no fundo que se estivesse no lugar dele faria o mesmo.
Um povo que se conforma em receber uma esmola do governo de 90 reais mensais para não fazer nada e não aproveita isso para alavancar sua vida (realidade da brutal maioria dos beneficiários do bolsa família) não pode ser adjetivado de outra coisa que não de vagabundo.
- Brasileiro é um povo honesto. Mentira.
Já foi; hoje é uma qualidade  em baixa.
Se  você oferecer 50 Euros a um policial europeu para ele não te autuar, provavelmente irá preso.
Não por medo de ser pego, mas porque ele sabe ser errado aceitar propinas.
O brasileiro, ao mesmo tempo em que fica indignado com o mensalão, pensa intimamente o que faria se arrumasse uma boquinha dessas, quando na realidade isso sequer deveria passar por sua cabeça.
- 90% de quem vive na favela é gente honesta e trabalhadora. Mentira.
Já foi.
Historicamente, as favelas se iniciaram nos morros cariocas quando os negros e mulatos retornando da Guerra do Paraguai ali se instalaram.
Naquela época quem morava lá era gente honesta, que não tinha outra alternativa e não concordava com o crime.
Hoje a realidade é diferente.
Muito pai de família sonha que o filho seja aceito como 'aviãozinho' do tráfico para ganhar uma grana legal.
Se a maioria da favela fosse honesta, já teriam existido condições de se tocar os bandidos de lá para fora, porque podem matar 2 ou 3 mas não milhares de pessoas.
Além disso, cooperariam com a polícia na identificação de criminosos, inibindo-os de montar suas bases de operação nas favelas.
- O Brasil é um pais democrático. Mentira.
Num país democrático a vontade da maioria é Lei.
A maioria do povo acha que bandido bom é bandido morto, mas sucumbe a uma minoria barulhenta que se apressa em dizer que um bandido que foi morto numa troca de tiros, foi executado friamente.
Num país onde todos têm direitos mas ninguém tem obrigações, não existe democracia e sim, anarquia.
Num país em que a maioria sucumbe bovinamente ante uma minoria barulhenta, não existe democracia, mas um simulacro hipócrita.
Se tirarmos o pano do politicamente correto, veremos que vivemos numa sociedade feudal: um rei que detém o poder central (presidente e suas MPs), seguido de duques, condes, arquiduques e senhores feudais (ministros, senadores, deputados, prefeitos, vereadores).
Todos sustentados pelo povo que paga tributos que têm como único fim, o pagamento dos privilégios do poder. E ainda somos obrigados a votar.
Democracia isso? Pense !
O famoso jeitinho brasileiro.
Na minha opinião, um dos maiores responsáveis pelo caos que se tornou a política brasileira.
Brasileiro se acha malandro, muito esperto.
Faz um 'gato' puxando a TV a cabo do vizinho e acha que está botando pra quebrar.
No outro dia o caixa da padaria erra no troco e devolve 6 reais a mais, caramba, silenciosamente ele sai de lá com a felicidade de ter ganhado na loto... malandrões, esquecem que pagam a maior taxa de juros do planeta e o retorno é zero. Zero saúde, zero emprego, zero educação, mas e daí?
Afinal somos penta campeões do mundo né???
Grande coisa...
O Brasil é o país do futuro. Caramba , meu avô dizia isso em 1950. Muitas vezes cheguei a imaginar em como seria a indignação e revolta dos meus avôs se ainda estivessem vivos.
Dessa vergonha eles se safaram...
Brasil, o país do futuro !?
Hoje o futuro chegou e tivemos uma das piores taxas de crescimento do mundo.
Deus é brasileiro.
Puxa, essa eu não vou nem comentar...
O que me deixa mais triste e inconformado é ver todos os dias nos jornais a manchete da vitória do governo mais sujo já visto em toda a história brasileira.
Para finalizar tiro minha conclusão:
 brasileiro merece! Como diz o ditado popular, é igual mulher de malandro, gosta de apanhar. Se você não é como o exemplo de brasileiro citado nesse e-mail, meus sentimentos amigo, continue fazendo sua parte, e que um dia pessoas de bem assumam o controle do país novamente.
Aí sim, teremos todas as chances de ser a maior potência do planeta.
Afinal aqui não tem terremoto, tsunami nem furacão.
Temos petróleo, álcool, bio-diesel, e sem dúvida nenhuma o mais importante: Água doce!
Só falta boa vontade, será que é tão difícil assim?

domingo, 4 de outubro de 2009

Ampulheta-em-gula




Eis o monstro que vem de lá pra cá todo faminto, cheio de si mesmo
Cheio de nós, invisível, irredutível, infalível, repleto de rápida ira
Ponteiros alegóricos, números carnívoros, dum silêncio mortal
O tempo transfigura-se o tempo todo,  e o futuro já é agora
E agora?  O agora esvai-se! O contrário do eco que resta
Enquanto estás, és engolido sutilmente, não há chaga
Aparente, mas os sinais são inegáveis, o espelho é
Fiel e não mente: és tu, devorado, não mais flor
Desabrochada, mas o acúmulo experimentado
E agora inutilizado, disfarce de ser humano
Cobaia intrínseca e desavisada, pois saiba
Que o fim se aproxima e de si não passa
A morte, estação derradeira; não há
Nada depois dela e da madeira, eis
A morada dos mortais, criaturas
Já moribundas no nascimento
Dizem que Deus é o tempo
Tirano do falso - arbítrio
A areia escorre ligeira
O sino toca alto e só
Já não posso mais
O que temos?
Segundos
Nada

.


Marco Hruschka

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

PIBIC


Venho através deste post informar aos amigos sobre minha última realização literária: a conclusão de meu projeto de iniciação científica - A exploração da Noite: o Romantismo na Modernidade e na Pós-Modernidade.
Depois de um ano de pesquisas, da publicação de 3 artigos referentes ao tema em congressos de Letras, de entregar o relatório final, ontem realizei a última etapa do projeto: apresentar no EAIC - Encontro Anual de Iniciação Científica, que esse ano foi na UEL.
Estou muito feliz, pois creio que a experiência adquirida com o contato com a pesquisa científica vai me ajudar muito para entrar no mestrado e continuar minha carreira acadêmica.
Abaixo, meus agradecimentos especiais, assim como está registrado no artigo nos ANAIS do evento:


"O primeiro agradecimento dá-se ao professor Ricardo Soler, pela indicação ao orientador para a participação no projeto, pela confiança depositada no meu trabalho.
Agradeço também o professor Adalberto de Oliveira Souza, meu orientador, que com muita atenção e esmero soube conduzir o caminho deste trabalho. Uma felicitação às indicações, conselhos e correções feitas. Um profissional que em muito engrandeceu essa pesquisa.
Um muito obrigado à professora Marisa Corrêa Silva, co-orientadora, que, sempre que solicitada, participou com muito entusiasmo e talento nos apontamentos referentes a este estudo.
Um reconhecimento especial ao CNPq pelo incentivo e subsídio financeiro para o desenvolvimento do projeto.
Digo obrigado ao meu amigo Luís Cláudio devido às leituras de meus artigos e pelo companheirismo demonstrado nessa jornada como pesquisadores iniciantes.
Por fim, grato a minha família e demais amigos pelo apoio simbólico e de fé, que muito me incentivaram a investir na pesquisa científica."


PS: Foto La liberté guidant le peuple, de Delacroix. Obra de arte romântica.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Versos para um olhar


O olhar é de brisa de primavera
Zéfiro da paz marcando a nova Era
Favos de águas inabitadas
O próprio oceano de sereias encantadas

Dossel de constelações fulgurantes
Licor de sabores inebriantes
Gotas de chuva aromática, estrela diluída
Aura onipresente rainha da vida

Então são olhos de divina esperança
Seiva cristalina em sua própria nuança
Alameda silvestre de espectros diagonais
O famoso olhar de ressaca, querendo sempre mais

Pintura inacabada de traços inexistentes
Cores arco-íris ao paraíso pertencentes
Se as pupilas sibilassem, apolínica seria a harmonia
Íris ofuscantes, o sol a sair da moradia

As lágrimas seriam o maná, bebida sagrada
Bouvelard parisiense de utopia desejada
Fite-me mais uma vez e a paixão fluirá
Seremos fusão de poeta e musa iemanjá

Marco Hruschka

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Citações


"Não era amor, era uma sorte. Não era amor, era uma travessura. Não era amor, era sacanagem. Não era amor, eram dois travesseiros. Não era amor, eram dois celulares desligados. Não era amor, era de tarde. Não era amor, era inverno. Não era amor, era sem medo. Não era amor, era melhor." Martha Medeiros (Divã)


"Olharei a tua sombra se não quiseres que te olhe a ti, disse-lhe, e ele respondeu, Quero estar aonde a minha sombra estiver, se lá é que estiverem os teus olhos..." José Saramago (O Evangelho Segundo Jesus Cristo)

"Um homem de verdade ama. Um homem de verdade nada mais tem a dar para sua mulher senão amor. Mas elas não querem amor. Talvez porque... Não sejam mulheres de verdade."
Fábio Lucas Pierini (Eu e Elas)

"Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida. Viver é uma espécie de loucura que a morte faz. Vivam os mortos porque neles vivemos."
Clarice Lispector (Um sopro de vida)

"O presente contém o passado e se auto-elimina a cada instante tornando-se futuro. O que é, era, será. Em que momento o que é foi? Quando foi passa a ser? Quando o que está sendo torna-se será?"
Ignácio de Loyola Brandão (O homem que odiava a segunda-feira)

"Mas, se procuro desse modo aflições fingidas, em compensação encontro, nesse mundo imaginário, virtude, bondade e desinteresse como ainda não achei reunidos no mundo real em que existo. – Aí encontro uma mulher com desejo, sem caprichos, sem leviandade, sem malícia: de beleza não digo nada; pode-se confiar na minha imaginação: faço-a tão formosa que não há mais nada que se possa dizer. Depois, fechando o livro, que já não corresponde às minhas idéias, pego-a pela mão, e percorremos juntos um país mil vezes mais delicioso do que o Éden. "
Xavier de Maistre (Viagem ao redor do meu quarto)

"Em profunda escuridão se procuraram, nus, sôfrego entrou nela, ela o recebeu ansiosa, depois a sofreguidão dela, a ânsia dele, enfim os corpos encontrados, os movimentos, a voz que vem do ser profundo, aquele que não tem voz, o grito nascido, prolongado, interrompido, o soluço seco, a lágrima inesperada, e a máquina a tremer, a vibrar, porventura não está já na terra, rasgou a cortina de silvas e enleios, pairou no alto da noite, entre as nuvens, pesa o corpo dele sobre o dela, e ambos pesam sobre a terra, afinal estão aqui, foram e voltaram."
José Saramago (Memorial do Convento)

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Suicídio


Olho para os lados, pedregulho sobre pedregulho
Tento esquivar-me, mais pedras e entulho
Dessa evolução desarmônica não me orgulho
Ahhhh! Não suporto mais esse barulho!

Marretas, martelos, cimento e tormento
Ganha-se um edifício, perde-se um momento
De sossego, ruídos doloridos, já não aguento
Vida insalubre! A natureza chora, lamento!

O ar já não é transparente como outrora
Gris! Onde foi parar toda aquela flora?
Sufoco! Quero sumir, preciso ir embora
Fujam, abriram a caixa de Pandora...

E o mal primeiro é o ser humano
Egoísta, cego de dois olhos, profano
Faz da alienação um pseudo-bom-cotidiano
Cerca-se de muros, é de si o próprio engano

Uma, duas, três construções de pé
Três, duas, uma árvore se quer
O homem vai construindo sua vida de ilusão
E diminuindo o tempo entre si e o caixão


Marco Hruschka

domingo, 13 de setembro de 2009

Citação - Pablo Neruda

Quero apenas cinco coisas... Primeiro é o amor sem fim. A segunda é ver o outono. A terceira é o grave inverno. Em quarto lugar o verão. A quinta coisa são teus olhos. Não quero dormir sem teus olhos. Não quero ser… sem que me olhes. Abro mão da primavera para que continues me olhando. 



sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Sou uma pergunta - Clarice Lispector



Quem fez a primeira pergunta?
Quem fez o mundo?
Se foi Deus, quem fez Deus?
Por que dois e dois são quatro?
Quem disse a primeira palavra?
Quem chorou pela primeira vez?
Por que o Sol é quente?
Por que a Lua é fria?
Por que o pulmão respira?
Por que se morre?
Por que se ama?
Por que se odeia?
Quem fez a primeira cadeira?
Por que se lava roupa?
Por que se tem seios?
Por que se tem leite?
Por que há o som?
Por que há o silêncio?
Por que há o tempo?
Por que há o espaço?
Por que há o infinito?
Por que eu existo?
Por que você existe?
Por que há o esperma?
Por que há o óvulo?
Por que a pantera tem olhos?
Por que há o erro?
Por que se lê?
Por que há a raiz quadrada?
Por que há flores?
Por que há o elemento terra?
Por que a gente quer dormir?
Por que acendi o cigarro?
Por que há o elemento fogo?
Por que há o rio?
Por que há a gravidade?
Por que e quem inventou os óculos?
Por que há doenças?
Por que há saúde?
Por que faço perguntas?
Por que não há respostas?
Por que quem me lê está perplexo?
Por que a língua sueca é tão macia?
Por que fui a um coquetel na casa do Embaixador da Suécia?
Por que a adida cultural sueca tem como primeiro nome Si?
Por que estou viva?
Por que quem me lê está vivo?
Por que estou com sono?
Por que se dão prêmios aos homens?
Por que a mulher quer o homem?
Por que o homem tem força de querer a mulher?
Por que há o cálculo integral?
Por que escrevo?
Por que Cristo morreu na cruz?
Por que minto?
Por que digo a verdade?
Por que existe a galinha?
Por que existem editoras?
Por que há o dinheiro?
Por que pintei um jarro de vidro de preto opaco?
Por que há o ato sexual?
Por que procuro as coisas e não encontro?
Por que existe o anonimato?
Por que existem os santos?
Por que se reza?
Por que se envelhece?
Por que existe câncer?
Por que as pessoas se reúnem para jantar?
Por que a língua italiana é tão amorosa?
Por que a pessoa canta?
Por que existe a raça negra?
Por que é que eu não sou negra?
Por que um homem mata outro?
Por que neste mesmo instante está nascendo uma criança?
Por que o judeu é raça eleita?
Por que Cristo era judeu?
Por que meu segundo nome parece duro como um diamante?
Por que hoje é sábado?
Por que tenho dois filhos?
Por que eu poderia perguntar indefinidamente por quê?
Por que o fígado tem gosto de fígado?
Por que a minha empregada tem um namorado?
Por que a Parapsicologia é ciência?
Por que vou estudar matemática?
Por que há coisas moles e coisas duras?
Por que tenho fome?
Por que no Nordeste há fome?
Por que uma palavra puxa a outra?
Por que os políticos fazem discurso?
Por que a máquina está ficando tão importante?
Por que tenho de parar de fazer perguntas?
Por que existe a cor verde-escuro?
Por quê?
É porque.
Mas por que não me disseram antes?
Por que adeus?
Por que até o outro sábado?
Por quê?

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Estrela Dourada



Olá meus amigos! Um post especial! Compartilho com vocês uma alegria! Obrigados a todos que me lêem, pois é graças a vocês que minha literatura se realiza! Segue abaixo a notícia da Câmara Brasileira de Jovens Escritores...





"Autores estrelados"
A partir das edições de Agosto/2009, a CBJE passou a identificar alguns autores nas listas dos selecionados para cada antologia, com dois tipos de estrelas:
 Estrela dourada - identifica o autor que já ultrapassou a marca de 50.000 leituras nas nossas Antologias on line, desde Maio/2008;
 Estrela prateada - identifica o autor que tenha ultrapassado a marca de 5.000 leituras nas nossas Antologias on line, nos últimos três meses. Nota: Não são identificados com a estrela prateada os autores que já tenham a estrela dourada.




 Marco Hruschka (26/08/1986) - Maringá / PR

sábado, 22 de agosto de 2009

Ressurreição


Recuso-me a versar nesse papel. Será uma pseudo-prosa, indecisa, sem aqueles cuidados com o uso da boa palavra, o habitual rebuscamento, a metáfora que abre as portas ao subjetivismo, o lirismo que trás o belo. Não sei, quero apenas dizer o que estou sentindo. Se o rumo mudar, paciência! Quem disse que meus sentimentos são constantes?!

É assim que vai ser. Como eu ainda insisto num sentimento que já não deveria mais ter forças para subsistir? Basta! Deve acabar! Como se a vida não fosse um ciclo onde tudo começa e termina, eu ainda penso nela, mesmo sabendo que nossa história já aconteceu. Por que eu ainda quero que seja? Mais e mais e mais... Chega! Sabe aquele fantasma que fica escondido à espera de uma chance para agir? Ele vem para ofuscar a minha visão, já obnubilada, com seus espectros místicos de ser indecifrável. Pois é, ela o é, mesmo sem saber e querer. Será? Já não sei, tudo é confuso, difuso, obscuro. Quero a leveza de não amar!

E se não a amasse, meus pensamentos diários teriam um rumo certo, não escreveria sobre o amor, e, consecutivamente, sobre as desilusões, as desesperanças, a tristeza, o breu de uma existência na dependência de outro ser. Quero ser-me, e só! E os pensamentos noturnos, esses não seriam sonhos nostálgicos, lembranças de um tempo acabado, ou melhor, um tempo que hoje acaba comigo. Se olho uma flor, é sua face semi-rosada, se toco essa face, é sua pele que me afaga, e minhas mãos que se arrepiam de ternura; se, por acaso, a brisa é fresca e cheirosa, sinto saudades do hálito morno de sua boca em meus ouvidos, a sussurrar seus desejos de mulher; e se, ainda...

Faz frio agora... de um gris europeu. Ali no canto, quase atrás da cortina, há um garotinho agachado, trêmulo, assustado. Olha uma sombra quase sem vida tocando um piano de cauda velho, cheio de poeira. As notas são tensas, porém melodiosas. O menino, que agora verte uma lágrima em mi-bemol, sou eu; e o que ele olha é o que me torno a cada dia.

O coração não mais bate senão por uma nesga, um sopro, um lampejo de ser-se. Assim como as estrelas abrilhantam a madrugada, seu cheiro revivifica minha alma, que já flutua para não mais voltar. Habitará agora o surreal e, de lá, destilará poesia em forma de zéfiros suaves em seus ouvidos, estarei em si enquanto ser a sonata que percorre seus anseios, suas saudades, seus sonhos. E lembrará de mim, pois serei a imagem refletida no espelho, sorrindo, admirando-a. E ser-me-á, pois se unirá ao sentido extra-vital de si mesma, a luz de meus olhos.

Mas é preciso reciclar e é por isso que vou me desprendendo aos poucos, para poder voltar completo mais adiante, assim como a natureza primaveril. Sou neste instante a folha seca que paira ao vento. Mas depois verdejarei como nunca! O sol me contemplará e beijarei a bruma fresca, cantarei o hino da liberdade de meu coração. Sorrirei para os céus e agradecerei a ressurreição. Vou caindo, deslizando em movimentos de vai-e-vem. Toco o chão e já não sou. Lá do céu, ouve-se o eco de minhas preces e Deus a abençoar a minha morte.


Marco Hruschka


quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A força do Sangue!!!

O sangue em Chiapas

By José Saramago

Todo o sangue tem a sua história. Corre sem descanso no interior labiríntico do corpo e não perde o rumo nem o sentido, enrubesce de súbito o rosto e empalidece-o fugindo dele, irrompe bruscamente de um rasgão da pele, torna-se capa protectora de uma ferida, encharca campos de batalha e lugares de tortura, transforma-se em rio sobre o asfalto de uma estrada. O sangue nos guia, o sangue nos levanta, com o sangue dormimos e com o sangue despertamos, com o sangue nos perdemos e salvamos, com o sangue vivemos, com o sangue morremos. Torna-se leite e alimenta as crianças ao colo das mães, torna-se lágrima e chora sobre os assassinados, torna-se revolta e levanta um punho fechado e uma arma. O sangue serve-se dos olhos para ver, entender e julgar, serve-se das mãos para o trabalho e para o afago, serve-se dos pés para ir aonde o dever o mandou. O sangue é homem e é mulher, cobre-se de luto ou de festa, põe uma flor na cintura, e quando toma nomes que não são os seus é porque esses nomes pertencem a todos os que são do mesmo sangue. O sangue sabe muito, o sangue sabe o sangue que tem. Às vezes o sangue monta a cavalo e fuma cachimbo, às vezes olha com olhos secos porque a dor lhos secou, às vezes sorri com uma boca de longe e um sorriso de perto, às vezes esconde a cara mas deixa que a alma se mostre, às vezes implora a misericórdia de um muro mudo e cego, às vezes é um menino sangrando que vai levado em braços, às vezes desenha figuras vigilantes nas paredes das casas, às vezes é o olhar fixo dessas figuras, às vezes atam-no, às vezes desata-se, às vezes faz-se gigante para subir às muralhas, às vezes ferve, às vezes acalma-se, às vezes é como um incêndio que tudo abrasa, às vezes é uma luz quase suave, um suspiro, um sonho, um descansar a cabeça no ombro do sangue que está ao lado. Há sangues que até quando estão frios queimam. Esses sangues são eternos como a esperança.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Gaia


Arrisco-me em mais um desafio poético: o eu-lírico feminino! Trata-se de uma influência de Chico Buarque que sabe muito bem transpor para sua arte os desejos e sentimentos da mulher. Falo de uma influência com relação ao ato de escrever com voz feminina, pois o Chico possui um estilo característico, o qual muito me apetece, mas que não consigo seguir por já possuir, eu também, um estilo próprio. Além disso, a letra musical e o poema utilizam de penas diferentes, cada um com sua intencionalidade. Espero que gostem!

Marco Hruschka




És meu porto, minha pátria, meu pai!

Um homem-pólo-oposto que sempre me atrai,

Uma selva cheia de atrativos temerosos,

Oceano vasto de quereres prazerosos...


É em tua mão forte e ágil que me realizo,

No toque firme, seguro, já não me responsabilizo,

Quero ser a pluma, o vento sulista, a ternura

Do afago que dá e que recebe, a chaga e a cura...


Em tua presença sou a terra fértil dos tempos de ouro,

A tradição do chinês, o charme francês e a força do mouro!

Madre natura, o âmago, o cio da terra em evolução,

O luar, o eclipse, a mudança repentina de estação...


Fecunda-me! Porque tu és o grão que gera a vida

E eu o vaso receptor do néctar, toda tua e embebida!

Lambuza-me! Se és o mel doce e denso agora meu,

Sorver-nos-emos lentíssimos e eternamente em apogeu...


Dar-te-ei o seio para que repouses sossegado,

Nuvem branca e de perfume natural, ó meu amado!

Às estrelas galgaremos, como duas almas a pairar,

Agora, fechemos os olhos e te mostrarei o que é amar...

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Servos


Republico um de meus contos prediletos: Servos. Espero que releiam e que comentem, se assim desejarem. Um abraço!

Marco Hruschka


Na paragem, um homem bem portado, coluna ereta, olhar soberano, feição séria, fardado e com a mão direita no bolso do casaco tricolor espera a condução. Lentamente, aproxima-se outro homem, aparentemente maltrapilho, vestindo apenas uma túnica comprida de cor clara e sandálias. Possui barba e bigode compridos. O recém-chegado avista o oficial com olhos curiosos mas ao mesmo tempo receosos. Ao perceber que está sendo analisado, o cidadão de roupa nobre indaga:

- Que queres tu?

Após um breve silêncio reflexivo, ouve-se a resposta-investigadora:

- Quem tu és?

- Mas que disparate, como ousas tratar-me por tu? Indigente!

- Perdão, expressou-se, sem entender muito bem, o “mal vestido”.

- Isso mesmo que ouviste, sabes com quem falas?

- Não, foi exatamente o que lhe perguntei.

- Ora essa, estás a falar com Napoleão Bonaparte, comandante das tropas francesas que conquistaram a Europa.

Silêncio.

Um franzir de testa foi inevitável ao ancião. Admirou-se? Assustou-se? Será que teve medo ou rir-se-ia? E se realmente fosse quem tivera dito?

Refletiu sobre aquelas palavras e respondeu:

- Desculpe-me o abuso, mas, se tendes a Europa para vós, o que fazeis aqui, na paragem? Para onde irdes?

Sem perder a postura, levanta levemente o queixo e responde:

- Vou para a Lua!

A atmosfera toda se fazia confusa com aquela conversa, e o cidadão, curioso talvez, indaga-lhe novamente:

- Mas, enfim, o que desejais na Lua?

- Olho-a todas as noites e é como se ela me convidasse a conquistá-la, conquistá-la-ei, pois! Disse-lhe com a resposta na ponta da língua o utopista. Seria utopia?

- Mas chega de conversa fiada, quem pensas que és para querer saber de meus planos futuros? Inquiriu, quase que irado, o oficial.

- Chamam-me Sócrates, o sábio, mas prefiro ser somente Sócrates.

- Ah, Sócrates, o sábio, não é?! E o que sabes que eu não sei?

- Só sei que nada sei!

- Brincas comigo, intrépido?

- Não, não sou de muitas brincadeiras, mas digo-lhe a verdade.

O ambiente, por segundos, tornou-se taciturno. Os dois se entreolhavam sem se conhecerem, sem medo nem audácia. Enfim, para cortar aquele silêncio que incomodava a autoridade ali presente, esse perguntou:

- E tu, o que fazes aqui, para onde vais?

- Vou ao encontro de mim mesmo, responde o grisalho com um leve sorriso de complacência.

- Deveras me achas um ignorante! Explica-te ou mando prender-te!

- Não há motivo para tanta raiva, serei mais claro. Viajarei para dentro do meu “eu”, em busca de minha verdade.

- E achas realmente que passará uma condução cujo destino é “eu”?

- Com todo o respeito, não me entendes. Posso conseguir o que quero aqui mesmo, logo adiante, ou, sempre de modo mais rápido, em contato com a natureza, com a solidão de si próprio, basta uma revelação, a epifania, para que possamos entender o porquê de estarmos aqui e agora.

- Não me importam essas coisas, para mim, o que vale é liderar amparado em estratégias, conquistar, expandir o império.

- E a virtude?

- A virtude está no ato de vencer e ser admirado...

Sem ser percebido, aproxima-se um homem de aparência velha e respeitável e diz-lhes, pegando-os de surpresa:

- Tolos! Em verdade, em verdade vos digo: Nem um nem outro está livre do meu domínio, sois apenas instrumentos de minha vitória.

Aquele que mantinha a mão no bolso até então, indignado, pergunta-lhe logo:

- És quem, ó atrevido?

- Bento, João, Pedro, Clemente, Paulo, tenho vários nomes, escolham um, não importa. O que importa é que do meu trono dourado conquistarei o mundo. Nem o teu batalhão, que por sinal é mais meu do que teu, e nem a tua filosofia, nem aquele cidadão de aspecto oriental que trabalha ali, sem cessar, sem ser visto, ninguém poderá mudar o rumo do que é predestinado desde os primórdios. Meu reinado não é efêmero, é eterno. Sigam-me e os perdoarei.

E a alma do pequeno Estado jubilava... desde os primórdios.


PS: Foto Napoleão Bonaparte, por Jacques-Louis David.

Conto publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 18, pela CBJE

quarta-feira, 29 de julho de 2009

O filho do Céu


Um soneto em homenagem a minha amiga Sheila Luz, que pela fé no milagre, gerou Arthur, um bebê lindo e saudável! Brindemos com poesia o seu nascimento!!!

Marco Hruschka



Um anjo do céu disse-me ao ouvido
Que a pureza é inata na criança,
Sua presença sempre traz bonança,
O tom de sua voz é colorido.


De amor o coração é embebido.
Pra ter um pequenino pago fiança,
Em minha vida quero uma mudança,
Sozinha o meu peito é sofrido.

Agora no meu ventre um bebê gera...
Vem a mim, oh, presença idolatrada!
Que se faça real esta quimera.

Rogo a ti saúde à Mãe amada,
Hão de ouvir oração da fiel mera,
Já sinto que à luz tu serás dada...

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Bailemos

Tu tens a inocência de uma criança que já sabe o que quer

A sedução de uma mulher cheia de medos e segredos

Na maciez da alma, és pluma corpórea, o querer é mister

Na pele alva e nos lábios rosáceos habitam meus desejos


Não chores, doce anjo, não temas

A vida é para aqueles que olham o futuro

Para o além, para o amor, esqueça as algemas

Que te prendem ao chão, abandone o escuro


Alto! Claro! Voe para a liberdade!

Seja céu, seja estrela, seja o luar...

Seja o espelho que cintila a tua celebridade

Seja fusão, a areia que se mistura brandamente ao mar


Baila comigo em meio às rosas escarlates

Seremos sustenidos crescentes em paixão

O amor nos guiará como bonifrates

E dançaremos amantíssimos o acorde da União


Marco Hruschka

sábado, 18 de julho de 2009

O que é Literatura?

Muitas pessoas têm dificuldade em entender o que é a Literatura. Não digo defini-la, mas compreendê-la. Contudo, ela pode ser mais simples do que parece. Recorremos, então, às palavras de Afrânio Coutinho, renomado crítico literário brasileiro:

A Literatura é um fenômeno estético. É uma arte, a arte da palavra. Não visa a informar, ensinar, doutrinar, pregar, documentar. Acidentalmente, secundariamente, ela pode fazer isso, pode conter história, filosofia, ciência, religião. O literário ou o estético inclui precisamente o social, o histórico, o religioso, etc., porém transformando esse material em estético. Às vezes ela pode servir de veículo de outros valores. Mas o seu valor e significado residem não neles, mas em outra parte, no seu aspecto estético-literário, que lhe é comunicado pelos elementos específicos, componentes de sua estrutura, e pela finalidade precisa de despertar no leitor o tipo especial de prazer, que é o sentimento estético. O que a Literatura proporciona ao leitor, só ela o faz, e esse prazer não pode ser confundido com nenhum outro, informação, documentação, crítica. Não fora isso, não fossem a natureza específica da literatura e o prazer que dela retiramos, e as obras literárias não resistiriam ao tempo e às mudanças de civilização e cultura. (COUTINHO, 2008, p. 23)

É verdade que a literatura parte dos fatos da vida ou os contém. Mas esses fatos não existem nela como tais, mas simplesmente como ponto de partida. A literatura, como toda arte, é uma transfiguração do real, é a realidade recriada através do espírito do artista e retransmitida através da língua para as formas que são os gêneros e com os quais ela toma corpo e nova realidade. Passa, então, a viver outra vida, autônoma, independente do autor e da experiência de realidade de onde proveio. Os fatos que lhe deram às vezes origem perderam a realidade primitiva e adquiriram outra, graças à imaginação do artista. São agora fatos de outra natureza, diferentes dos fatos naturais objetivados pela ciência ou pela história ou pelo social. (COUTINHO, 2008, p.24)


COUTINHO, Afrânio. Notas de teoria literária. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Devaneios

Marco Hruschka

Queria escrever um poema.
Na madrugada que passa lentamente,
Não tenho inspiração surpreendente,
Foge-me a cor, falta-me o tema.

O tempo, uma invenção, já não passa,
Transfigurou-se em tormento,
Resta-me apenas o lamento,

A pena a tinta já rechaça.

Se os meus versos já não como os de outrora,
Nem líricos, nem metafóricos, vãs palavras,
Que seja o desabafo entranhoso dessas massas
Que gritam por socorro desde há muito e agora.

Suplicam por esperança, por igualdade,
O coração dói por não mais confiar
Em nada e em ninguém, querem amar
E ser amados, resta-lhes o fantasma da saudade.

Esvaio-me no fim dessa poesia,
Hei de um dia voltar a respirar,
Ser o canto da sereia em alto mar
E contemplar a natureza em maestria.


PS: Foto "Skrik" ou "O grito", de Edvard Munch

sábado, 4 de julho de 2009

Flor Tropical

Marco Hruschka

Dizem as vozes de outrem que seu lábio é fruta
Polpa-mel saborosa que me incita a beber no cálice
Pomar de delícias variadas, êxtase no ápice
Textura ágil, quente, doce, fugir é labuta

Olhos de ônix forjados no fogo do Nada
Pois somente no Nada se encontra a finesse
Relíquia ocular a qual nunca se esquece
Pintura surreal pela mão do Mestre retocada

Possui um colo cor urucum-castanho
Acima se insinua o pescoço lascivo
Abaixo o contorno do seio subjetivo
O que faz o delírio-desejo ganhar tamanho

Mas se se tem conhecimento de sua alma
Mas a alma como sendo o conjunto de sua obra
Apaixona-se deveras como um Páris de outrora
Que pela bela Helena perdera toda a sua calma

Pois a inteligência se sobrepõe à perfeição do corpo-réu
Companhia excelente, o tempo se evapora como orvalho
Ser seu rei e contemplá-la no palácio, ato falho
Há que ser Deus e outorgá-la como Deusa lá no céu

Ousar-me-ei por amor

Eis mais um soneto italiano. Eu sempre fui muito fã de mitologia, principalmente a greco-romana. Outrossim, mesclar temas pagãos e cristãos também sempre me agradou. Juntando tudo isso com com o tema predileto e universal, o amor, surgiu esse poema intitulado "Ousar-me-ei por amor". Espero que gostem.





Marco Hruschka


Apolo desafina à sua chegada,
Sua beleza supera a de Afrodite,
Tétis cedeu as águas acredite,
Páris entregou o pomo à nova amada.

Sua imagem se aproxima a de uma fada,
Continuo exaltando-a, se permite.
Minha vida a elogiar o anjo consiste,
Foi a Deusa a encantar predestinada.

Gostaria de ser seu preferido
Fazendo história em Bíblia ou Alcorão,
Viver eternamente em sua presença.

Roubarei uma flecha do Cupido
E atingirei certeiro o coração.
Juntos eternamente eis a sentença.

Foto: Cupido encordoando seu arco. Museus Capitolinos, Roma

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Anjo de Deus

Marco Hruschka



De um sorriso angelical,

Mas não de um anjo de um céu de um deus que não existe,
Mas de um anjo de meus sonhos,
E por isso mesmo é lindo,
O anjo é lindo, ela é linda, ela é o anjo,
E por falar em Deus, ó Deusa,
Vem que eu serei o teu, o que deveras existe,
E serás inocentemente feliz como uma criança a comer chocolate,
Tem razão o Poeta português, não há nada de mais verdadeiro do que isso,
Apenas esse poema, escrito com meu próprio coração,
Às vezes metido a poeta, e, quando apaixonado, artífice das palavras amorosas.
Pela inspiração que me toma, que é tu, emano poesia dos poros
E escrevo aqui uma carta de alforria, liberto nesse instante meu sentimento
Para que ele possa flutuar, leve como o teu olhar demanda,
Em direção aos teus lábios e tocá-los com a ternura que o inunda
Selar fisicamente o que espiritualmente já me toma
Sermos, por um instante que seja, a união da poesia e da paixão
Do perfeito e do sublime, da magia e do maravilhoso
Maravilhosa é a magia do teu sorriso, o brilho dos teus olhos
Aceita provar do beijo do poeta
E sentirás o coração bater mais forte
Como o cupido a lhe atingir a seta
Amar-te-ei por toda a sorte

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Marias

Marco Hruschka



Seu nome é Maria. Mas poderia ser Joana, Cidinha, Daiana ou Raimunda. É interessante quando Saramago diz que conhecemos o nome que nos deram e não o que deveras temos. Você sabe o teu nome, caro leitor?

Maria é uma moça bonita, jovem, atraente, independente. Cuida de seu corpo, pois precisa dele para se realizar. Tem estatura mediana, é morena, mas gosta de usar máscaras. As pessoas a desejam, querem tocá-la, talvez nada mais. Mas ela sabe disso.

Hoje é sábado, por isso sairá. Irá a um baile, haverá "show" de rodeio, música sertaneja, não a de raiz, que defende a tradição do sertão e a cultura do povo mais simples, porém não menos inteligente. Trata-se um novo estilo, chamado sertanejo universitário. Ver-se-á fumaça de cigarro, latas de cerveja no chão atrapalhando o movimento rústico daqueles seres, chamam de dança. Todo mundo sorrindo sem motivos concretos e outros animais sendo maltratados, a diferença básica está no chapéu, que os de cima usam. Ontem ela foi ao salão de beleza. Pintou os cabelos, fez alisamento, pois se sente mais segura assim, também fez depilação pubiana, pois tem a pretensão de transar nesse fim de semana e, claro está, precisa encantar o parceiro que ainda conhecerá.

Maria passou a semana toda pensando em como se vestiria no dia do baile, qual perfume usaria, em qual carro desfilaria pela cidade antes e depois da festa. Ela gosta das pick-ups, são grandes e espaçosas, faz com que ela se sinta mais importante, mais bem vista. Entretanto, basta-lhe uma saveiro semi-nova, o que ela quer é uma companhia motorizada.

Para chegar ao local do sacrilégio, ela convida como choffeur um amigo apaixonado, é óbvio que ele aceita. O iludido abre-lhe a porta do automóvel para que ela entre, entrega-lhe flores, ela finge que se emociona, elogia a roupa cafona do coitado e vão ouvindo acordes alienantes durante o trajeto. Quando chegam, as notas são as mesmas. O que muda é a companhia, pois ela o abandona na primeira oportunidade. Depois, alegará que se perdeu quando foi ao banheiro. Realmente se perdeu, mas foi nos braços de um bonitão de esporas.

Todavia, esse cowboy não serve para ela, pois não lhe daria o valor que ela julga merecer. Nisso o ser humano é como Deus, quer o veredicto . A nossa estrela vai para a pista e se movimenta freneticamente. De onde estamos, vê-se em uma mão um cigarro aceso, em outra, uma lata de cerveja emprestada de alguém. Sua cabeça está em outro mundo, é como uma fuga da realidade. Mas o que Maria não sabe e talvez nunca venha a saber é que foge exatamente para a verdade deplorável de sua existência.

Há um bobo da corte que comanda o festejo, ele faz graças na intenção de animar o pessoal. Mas nesse reino, devido à algazarra, ele utiliza um microfone para se comunicar com o resto, que aplaude, assobia, grita e sorri das rimas mal feitas pela figura emblemática.

Maria ainda não sabe, mas vomitará daqui a alguns instantes. O álcool já faz o devido efeito e seu estômago começa a maltratá-la. Ela disfarça, vai ao banheiro e faz o serviço. Lava-se. Aguarda alguns instantes até se recuperar um pouco. Dentro do possível, retoca o batom e volta para a multidão a mesma lady que chegara acompanhada do amigo apaixonado. Este, por sinal, encontra-se sentado num canto a olhar vagamente as coisas, desolado, bebendo sem perceber. A vida é assim, muitas vezes agimos sem dar-se conta.

A madrugada vai alta. A moça de quem falamos dançou até surgirem bolhas nos pés, bebeu a cerveja de vários colegas de noite e fumou até enjoar, pois não o faz no dia-a-dia. Já chega a hora de encontrar um bom acompanhante, aquele que vai lhe dar o derradeiro prazer e lhe dar uma carona confortável de volta. Já sabemos que esse homem não é nem o amigo apaixonado e nem o bonitão de esporas.

Ela não precisa nem procurar, os homens vêm até ela. No fim de festa costuma-se apostar todas as fichas. Nesse instante, o primeiro cidadão mais ou menos apresentável que demonstrar boas intenções usufruirá dos carinhos de Maria.

Ela olha para João, que lhe observa há alguns instantes. Ela sorri, ele se aproxima. Conversam qualquer coisa de banal e caminham em direção ao carro do indivíduo. A moça percebe que é um veículo interessante, já o fita com outros olhos, está feliz. Dançou, fumou, bebeu, divertiu-se e não gastou praticamente nada nessa noite. Quando chegar em casa esquecerá de agradecer a Deus por sua saúde, mas dormirá com o sorriso no rosto.

João é um bom rapaz. Não gosta de literatura, nem de cinema, nem de artes plásticas. Não costuma ler e nem se mantém atualizado com o mundo. Nunca ouviu falar de Vinícius de Moraes, não saberia relacionar Da Vinci a Monalisa, e acha que Freddie Mercury é só mais um cantor boiola dos anos oitenta. E ainda haverá quem diga que o narrador dessa história é que se muniu de sua pena mais preconceituosa, quando em verdade apenas delineia uma narrativa literária, e por isso mesmo artística, referente à realidade circunstante. Voltemos a João. Adora música sertaneja, a nova vertente, claro está. Veste-se com chapéu, botas e cinturão. Bebe cerveja em abundância. Sorri com facilidade. Tem bom coração. Tem um carro.

Nos arredores do circo, parece-nos zona rural, devido às vestimentas das pessoas que ali estão e pelo aspecto rústico da acústica. Porém, estamos na cidade. O casal sai ouvindo no cd player os mesmos arpejos que costumam ouvir durante a semana, iguais aos que vieram ouvindo e que ouviram durante o tempo que ali estiveram, gostam mesmo desse tipo de som.

João é um cara simples, gostou de Maria. Ele pretende levá-la embora sonhando em ganhar um beijo como recompensa e, quem sabe, sair com ela de novo.

A moça quer mais. Ela deseja saciar seus anseios de mulher. Quer sentir o prazer que lhe é de direito. Então, insinua-se para o rapaz, que fica meio constrangido, mas gosta, pois tem instintos. Ela diz, Bem que poderíamos ficar num lugar mais confortável, só eu e você, o que acha. Ele apenas sorriu e se endereçou ao motel mais próximo com o coração acelerado. Transaram. Magia para um, cotidiano para a outra. Ela dominou os gestos, a palavra, pois João é tímido. A única atitude deveras ativa do rapaz foi pagar a conta, como manda a cartilha do bom cavalheiro.

Foram embora. Ele a deixou em casa, com cara de bobo, pois não esperava tanto de sua amada. Conseguiu seu telefone, por isso irradia felicidade.

Agora, a donzela dorme relaxada em si mesma. A noite foi como programara. Sonhará com animais pulando e vozes dispersas, mas não se lembrará disso no dia seguinte, assim como também não se lembrará de João.


Conto publicado pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores no livro "Novos Talentos do Conto Brasileiro", em julho de 2009.


segunda-feira, 1 de junho de 2009

Fantoches


Não posso mais olhar para aquela dama,
Cada vida é por si só aquela ilha inabitada que já diziam,
Se penso em um futuro ao seu lado, engano-me,
Peço-me perdão por mentir a mim mesmo,
A inocência me domina às vezes,
Almejo uma união, ser apenas um com ela,
Mas, na impossibilidade natural das coisas,
Devo me arrepender e voltar à realidade,
Doída, impiedosa, um vírus que se alastra
Pelos tecidos nos infectando mais e mais,
Preciso de uma injeção de sonho, 
Quem sabe eu possa sorrir sem medo,
Sem o carma de ter que viver o que deveras é,
Mas... será que isso que chamamos de real
Existe de verdade, será que não somos pura metafísica?
Fantoches de um ser maior que brinca de manipular-nos?
Cobaias de um experimento não perfeitamente sucedido?
Não precisaria ser dito, pois é claro que somos um robô defeituoso,
Portador de uma bateria chamada coração,
Abastecida pela energia que vem do amor,
E quando a fonte seca, essa peça se desregula, 
Desprevenida, o resto da sucata se confunde,
E, não sabendo o que fazer, como lidar sem o néctar,
Agoniza pela eternidade de seus dias, 
Nessa abominável invenção que é a vida.

Marco Hruschka

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Monólogo Mundo Moderno - Chico Anysio

Monólogo Mundo Moderno, por Chico Anysio

Mundo moderno, marco malévolo, mesclado mentiras, modificando maneiras, mascarando maracutáias, majestoso manicômio.
Meu monólogo, mostra mentiras, mazelas, misérias, massacres, miscigenação, morticínio maior, maldade mundial.
Madrugada… matuto magro, macrocéfalo, mastiga média morna, monta matumbo malhado, munido machado, martelo… mochila mucha, margeia mata maior.
Manhãzinha move moinho moendo macaxeira, mandioca.
Meio dia mata marreco… manjar melhorzinho.
Meia noite mima mulherzinha mimosa, Maria morena, momento maravilha, motivação mútua mas monocórdia, mesmice.
Muitos migram mascilentos, maltrapilhos, morarão modestamente: malocas metropolitanas; mocambos miseráveis, menos moral, menos mantimentos, mais menosprezo.
Metade morre… mundo maligno, misturando mendigos maltratados… menores metralhados, militares mandões, meretrizes marafonas, mocinhas, mera meninas… mariposas, mortificando-se moralmente, modestas moças maculadas, mercenárias mulheres marcadas… mundo medíocre.
Milionários montam mansões magníficas, melhor mármore, mobília mirabolante, máxima megalomania, mordomo, Mercedes, motorista, mãos magnatas manobrando milhões mas maioria morre minguando.
Moradia meia-água, menos, marquise.
Mundo maluco, máquina mortífera, mundo moderno melhore, melhore mais, melhore muito, melhore mesmo. Merecemos… maldito mundo moderno, mundinho merda.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Efêmero deleite

Sempre tive problemas com mulheres. Ou melhor, nunca os tive porque nunca me aproximei o bastante de uma pessoa do sexo feminino que me permitisse a intimidade, sempre fui evitado e repelido. Confesso-lhes logo, esse é o meu segredo.

Não posso ser hipócrita e lhes dizer que sou um garçon bonito, seria pura e simplesmente para elevar o meu ego a um patamar ao qual nunca esteve e nunca estará. Sou o tipo de indivíduo que não possui dotes físicos notáveis, nem mesmo posso afirmar que sou simpático o bastante para convencer uma mulher a ficar comigo. Nunca tive namoradas... apenas algumas garotas que não me suportaram por mais de uma semana. C'est la vie, como dizem os franceses! Mas vá lá, vou contar-lhes um fato que não acontece todos os dias, muito menos com pessoas como eu.

Como nem sempre o diabo está atrás da porta, cuidando para que tudo seja uma desgraça, tratando de fazer com que a vida não tenha sentido algum, eis um dia em que a minha vida, há tempos sem propósito, passou a ter cabimento em si mesma.

Obviamente e de acordo com o pensamento de vocês, o tal cabimento só poderia ser o amor a uma mulher. Mas não a uma donna propriamente dita, pois a moça deveria ter a metade da idade da mulher perfeita e madura para Balzac, mas para mim, o convite ao pecado que nunca possuí.

Era um domingo, o céu estava nublado, porém, o sol conseguia penetrar às nuvens e propagar a sua cor formando uma aquarela. O vento não passava de uma brisa suave, clima e paisagem agradabilíssimos.

Eu acabara de sair do Museu de Antiguidades, zona norte da cidade. Sou apaixonado por objetos antigos, acredito que cada objeto possui uma história e que cada história deve ser respeitada e valorizada. Havia um vaso chinês de formato balaústre que me chamou a atenção. Não pelo formato, mas pela pintura. Havia um casal, o homem entregando uma rosa à mulher, que por sua vez beijava-lhe a outra mão. Escusado seria dizer que as lágrimas me vieram aos olhos, meu coração despedaçou como aquele vaso o faria se caísse ao chão. Lamentei não ter um amor, uma confidente, uma companheira, alguém para quem eu pudesse colher uma rosa e lhe dar como demonstração de afeto.

Saí do museu e, enxugando os olhos, entrei no meu carro, que por acaso consegui comprar com o suor do meu trabalho e com muita economia. Era um carro bonito, novo, não era dos mais caros, mas chamava a atenção por ser vermelho, a mesma cor da rosa do vaso, quanta ironia! Enquanto me preparava psicologicamente para poder dirigir o carro, depois da oscilação sentimental, avistei a tal graça saindo da portaria de um prédio bem à frente de onde eu estava estacionado. Resolvi esperar que ela passasse, pois era extremamente linda. Como sou um cidadão que não tem mais nada a perder quando o assunto é relacionamento heterossexual, resolvi não perder aquela imagem nem um segundo sequer e a encarei direto nos olhos. Uns olhos de cor mediana entre verde e azul, uma cor de riacho desconhecido. Sua pele era bronzeada, puxada para a cor indígena, só que com mais brilho. Seus cabelos não eram nem loiros nem castanhos, tinha a cor do mel virgem, virgem como ela também deveria ser. Era uma mestiça, nasceu de uma mistura racial da qual só lhe foi dada as características mais honradas de cada linhagem. Exuberante! Seu corpo, ainda em desenvolvimento, modelado pela roupa justa, já latejava prazer e euforia, não sou tão piegas a ponto de dizer que era uma miragem, mas, só de vê-la, meu coração arfava.

Repentinamente, vindo pela calçada que passaria ao lado do meu carro, a pequena travou seu olhar no meu e não havia nada que pudesse quebrar aquela linha imaginária e retilínea que se formou entre nós, sagrados segundos... Ela abaixou a cabeça como quem está acanhada e, logo em seguida, levantou-a e abriu um pequeno sorriso, leve, quase que malicioso, sensual, e ao mesmo tempo misterioso... 

Ela passou... E eu fiquei. Fiquei com o coração na mão, com a cabeça tumultuada, com a alma deliciada. Ela passou... para sempre... e eu fiquei. Fiquei sozinho... fiquei o mesmo... efêmero deleite.


PS: Conto Publicado na Antologia "Contos Selecionados de Novos Autores Brasileiros", pela CBJE.

Foto: "Le penseur", Auguste Rodin

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Eu e elas

Meu amigo e professor de francês, Fábio, ao ler o meu texto "Efêmero Deleite", teve a idéia de reescrevê-lo com um pouco mais de ousadia, deixando de lado a subjetividade, priorizando a realidade, a vida como ela é. Na minha opinião, um ótimo texto para retratar a atualidade, em que a maioria das mulheres se mostra fútil, em que o amor não tem vez, em que o que conta é o que você tem, e não o que realmente é. Um brinde às avessas às máscaras de cada um! Boa leitura.

EU E ELAS

Fábio Lucas Pierini

(para Marco Hruschka)

Elas vêm e vão. Sentam, cruzam suas pernas, acendem seus cigarros, fumam, riem, bebem, reclamam, choram, beijam. Tudo numa noite. Tudo numa mesa. As companhias variam, mas a história é sempre a mesma: hoje amam, amanhã dispensam. Simples assim. Se esse é o destino dos bacanas em seus carrões, imaginem o meu, que suo para pagar o financiamento de um semi-novo.

Vou e volto, levo e trago. Quem me vê em meu traje impecável e minha postura rígida não faz idéia do que escondo por trás deste sorriso hipócrita. Fantasio com todas elas, com cada uma delas ou com uma que seja todas elas, transando loucamente comigo. Sonho com sua pele de pêssego tratada com produtos caros, seus cabelos cuidados por mãos de profissionais conhecidos na cidade, seus corpos esculpidos nas academias mais badaladas e com o dia em que eu me sentarei com elas, fumarei com elas, beijarei suas bocas vermelhas e bêbadas e, após uma noite de muito sexo num motel de luxo, sairei de suas vidas como se nunca tivesse entrado, levando comigo talvez as marcas de um esmalte escarlate nas costas.

Mas eu nunca entro. Talvez porque não lhes valha a pena deixar entrar um homem que não queria voltar. Elas são vaidosas, querem nos ter a seus pés, pedindo, chorando, implorando. Eu só queria dar uma entradinha nesse mundinho apertado, limpinho e cheirosinho delas. Olhar bem de perto e gravar na memória o que faz delas tão elas mesmas.

Por volta das 6 da manhã a noite acaba e eu tenho de aguentar os últimos bacanas que ainda choram. Vou puxando a mesa e digo que passem no caixa. Babacas. Me emprestem essas porras dessas caminhonetes que eu mudo tudo isso. Chego aqui vestido feito um caubói pagando Amarula para aquelas me pagarem um pau e levo para dar uma volta. Conto umas piadas para fazê-las rir e vou embicando para o motel. Se disserem que não, trago de volta e espero outras. A noite é curta, mas tem sempre alguém que não se importa em curtir. Para quem tem grana e tempo, a paciência é obrigatória.

Mas ninguém me empresta uma caminhonete e tenho de voltar para casa no meu semi-novo. Contemplo-o. Meu único amigo. Quantas vezes não fiquei aí dentro lamentando minha má sorte, minha condição de escravo desse bando de bundas brancas? Quando comprei disseram: “Nessa cor é ruim passar para a frente”. Respondi: “Se eu comprasse um carro pensando na venda, seria revendedor”. As coisas às vezes se parecem com seus donos. Sou vermelho por dentro, e ele, por fora.

Até que ele chama a atenção. Toda semana dou um brilho. Acho que elas até olham para ele, mas quando veem que aqui dentro está um falido, ou melhor, aquele falido do barzinho, devem ficar com nojo. Será que elas se imaginam fazendo sexo comigo? Nem que fosse para deixar os bacanas com raiva, dizendo assim: “Saí com o garçom sim, e ele tem o pinto maior que o seu”. Mas elas não fazem isso. Dizem que fazem, mas não fazem, senão eu já teria descoberto o segredo de todas elas.

Passo pelo museu e vejo que já está aberto. Olho o relógio, verifico meu sono... Por que não? Entro lá como se entrasse numa igreja, com medo de encostar nessas coisas que devem ter um valor inestimável. Passo pelas galerias e não consigo entender quase nada. Mas muitas das pinturas, esculturas, gravuras, estátuas, tapeçarias e demais objetos têm algo em comum: homens e mulheres se dando bem uns com os outros.

Um objeto vermelho chama minha atenção. Um vaso ilustrando um homem e uma mulher usando trajes orientais, olhinhos puxados. O cara oferece uma flor para a moça ao mesmo tempo que beija a mão dela. E ela retribui, toda encantada. De repente, uma tristeza me invade. Uma angústia. E pela primeira vez em anos, eu consigo chorar. Reconheço. Eu queria amor. Mas elas não querem me dar. Tudo o que elas querem é uma Silverado, lençois de seda e um cartão de crédito. Se eu tivesse isso... Quem sabe... Quem sabe depois da primeira noite, elas... Não! Elas não me amam. Não posso amá-las.

Saio de lá chorando ainda, pensando na dor de estar sempre só. De elas darem aos bacanas o que pertence aos homens de verdade. Porque um bacana faz para elas tudo o que elas querem. E um homem de verdade... Um homem de verdade ama. Um homem de verdade nada mais tem a dar para sua mulher senão amor. Mas elas não querem amor. Talvez porque... Não sejam mulheres de verdade.

Entro no meu semi-novo vermelho e saio. Chego a uma esquina sem semáforo e vejo alguém tentando atravessar. Tem faixa de pedestre e eu paro. Sorrio simpaticamente para convencer o transeunte de que não passarei por cima dele enquanto ele atravessa. Mas não é ele, é ela. E ela agradece, com um sorriso tímido e baixa a cabeça enquanto passa diante de mim. Vejo que seus olhos ficam inquietos nas órbitas querendo saber se eu a contemplo. Claro que sim. Pele de pêssego, cabelos cuidados, corpo esculpido. Assim que ela chega ao outro lado da calçada, recolhe os cabelos, gira um pouco o pescocinho tatuado e discretamente aponta os olhos na minha direção, cravando em nós um lindo sorriso de satisfação.

Maringá, 14 de maio de 2009.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Don Juan

No galanteio elegante da madrugada

Sai o jovem filho do Amor a conquistar

E a seduzir a natureza; perito em artimanha,

Flerta com o vento, sorri para o luar,

Aura mística, o limite é o topo da montanha.

 

Segue seu destino todo soberano no olhar,

Porte sublimemente encantador,

Percorre as trilhas em ribeirão,

Acenando às relvas reluzentes em verdor,

E acariciando a semi-escuridão com lábios de varão.

 

Encontra o deleite quando menos se esperava,

A Noite, toda personificada em bela donna,

Coberta e ornada nos magníficos véus crepusculares,

Por isso mesmo lírica e reluzentemente barona,

Envolve-o em sua fantasia de rituais salutares.

 

Unem-se numa junção oniricamente comedida

Ambos a desenvolver um jogo de carícias variadas

Toques, sussurros, o casal já paira em meio à brisa,

Seres distintos, mas pelos quereres almas amadas,

Saboreiam-se tão furtivamente que não mais se divisa.

 

Após o gozo infinito e desmedido,

Ela se esvai na aurora que precede o beijo derradeiro

E ele, o galã viril, retorna a casa revigorado,

Para aguardar o turno de mais um dia rotineiro

E então, ao raiar da lua, renascer para amar e ser amado.


Marco Hruschka

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Soneto de saudade


Depois de ler muito e homenagear Vinícius de Moraes, resolvi escrever um novo soneto, ao seu estilo, mas, claro está, sem a sua elegância que o diferencia dos outros poetas.
Trata-se de um eu-lírico carregado de nostalgia, relembrando sua relação com um amor já passado, um sentimento forte, mistura de sensualidade e ternura. Enfim, que a análise e os comentários fiquem para vocês, meus queridos leitores! Espero que apreciem! Um abraço!

O teu seio é como a aurora de uma manhã em veraneio,

E no cálido botão rosáceo, intumescido de prazer,

Habitam os meus desejos de cintilante devaneio,

O toque macio e a pele alva me fazem enlouquecer.

 

Dá-me, ó musa, alimenta-me com teu seio

Como uma mãe que sacia o filho faminto,

Mas saibas que a minha fome é de anseio,

Quero perecer em ti, curvas em labirinto.

 

Ao colocá-lo em meus lábios, como outrora e infinitamente,

Umedeço-o com a seiva da paixão e tu padeces,

No fechar dos olhos, desfrutas do deleite, imensamente...

 

No profundo suspirar, deixa-te levar pelo que queres,

Cederás sempre ao nosso amor, paixão incandescente,

E alhures, nossos lêmures se unirão num banquete de prazeres.


quinta-feira, 7 de maio de 2009

Soneto de fidelidade / Soneto de separação / Soneto do amor total



Continuando a homenagem a Vinícius de Moraes, poeta maior da literatura brasileira, seguem-se 3 sonetos escolhidos por mim para representá-lo aqui. Seus poemas costumam acalentar a alma, tantas vezes magoada pelas intempéries da vida.


Soneto de fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Soneto de separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.



Soneto do amor total

Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.




quarta-feira, 6 de maio de 2009

Ternura - Vinícius de Moraes

Posto agora um de meus poemas favoritos de Vinícius de Moraes, Ternura. A nossa literatura e música atuais devem muito a esse grande compositor, músico e poeta. Um brinde ao conquistador!


Ternura

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicament
e.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora.


Texto extraído da antologia "Vinicius de Moraes - Poesia completa e prosa", Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1998, pág. 259.

sábado, 2 de maio de 2009

Vers Dieu


No levíssimo estar de alma,

Toda contorcida pelo espasmo cor de sonho,

Ela, riacho, pêndulo, mistério, miragem, desejo,

Se despede de si por um instante atemporal,

Momento este em que o ar é poesia,

Em sua mente, o nada em déjà-vu, pois já flutua

Um vazio suavemente carregado de futuro,

Sobe, se emana, se aflora, se espera,

As estrelas e seus astros observam-na passar levíssima

Os lábios exclamando o deleite subjetivo

E o respectivo corpo se retransfigurando

Em sua androgeneidade personal, mulher-anjo,

Respectivamente simples como as trevas e a luz;

E se Deus existe, estica a mão para reconhecê-la

E ao tocar-lhe a pele, ela já-se-é novamente,

E regride transgredindo...

Agora em seu leito de início, abre os olhos,

Seu gêmeo a sorrir-lhe, também voluptuoso,

Aguardando o seu completo retorno

Desta viagem brevemente eterna em direção a Deus.


Foto: Imagem de Lúcifer na catedral Saint-Paul de Liège, Bélgica.

O que um homem quer? Fabrício Carpinejar


Nós homens, reconhecemo-nos em muitas dessas frases, enxergamo-nos exatamente nesses atos ou maneiras de pensar. Um parabéns ao Carpinejar que, com tanta poesia e felicidade, conseguiu também dizer um pouco sobre essa "caverna obscura" que, às vezes, é o homem.


O homem não quer nada, quer descobrir o que quer no meio do caminho. O homem não quer ser elogiado em excesso, senão pensa que é deboche. Quer dormir por nocaute, não por escolha. Quer viajar o suficiente para não voltar a ser ele mesmo. O homem quer chamar atenção em público, ficar quieto a dois. Não quer o meio-termo. Quer falar mais do que devia, calar mais do que podia. Não quer se explicar quando está errado. Quer ser explicado quando está certo. Quer magoar sua mulher criticando a sogra. Quer se magoar provocando ofensas. Quer concordar para resolver depois. Quer surpreender com o número errado. Quer ter a razão quando falta o desejo. Quer jantar com calma, almoçar rápido. Quer o passado perto como um abajur. Não quer mistérios, quer segredos para contar aos amigos. O homem quer um violão para esconder suas dores. Quer sair para poder voltar. Quer conversar de noite para diminuir a culpa. Quer uma gaveta para amontoar a infância. Quer mostrar disposição quando está cansado. Quer consolar para evitar o choro. Quer sexo quando fala em amizade, quer amizade quando fala em sexo. Quer se duvidar ao extremo para se confirmar em seguida. Quer pescar para mostrar paciência. Quer o emprego do outro, o prato da outra mesa. Quer fingir que sabe o que não entende. Quer entender durante a conversa. Quer fazer sofrer o que ainda não sofreu. Quer chorar e soluça. Quer amar sem começo. Quer casar sem papel.Quer ter um confidente para não se trair. Quer rir alto sem trocar a marcha. Quer usar suas roupas até gastar. Quer ter seus lugares prediletos. Quer privacidade em banheiros públicos. Não quer ser convidado a carregar peso.Quer dançar sem comentários. Quer beber sozinho sua ressaca. Quer escutar seu nome para voltar ao papo. Quer jogar futebol para diminuir a idade. Quer se contestar quando não há dissidências. Quer a última palavra. Quer ser desejado por vaidade. Quer a fama ainda que seja mentira. Quer chegar atrasado para não ficar esperando. Quer esperar na porta para não se arrumar. Quer fingir pressa para não desabafar. Quer pular o domingo. Quer se arrepender do que não fez. Quer ser esquecido do que ser vagamente lembrado. Quer que a mãe não conte suas manias e apelidos no jantar de família. Quer iniciar o que não terminou. Quer interrogar o próprio ciúme. Quer desistir das expectativas. Quer expectativas para não desistir. Quer receber visitas na hora errada. Quer telefonar para não dizer nada. Quer amar os filhos como se fosse um filho. Quer ser pai de seu pai. Quer orar nos ouvidos do mar. Quer ser ilegível para deixar dúvidas. Quer morrer de mãos dadas. Quer viver sem trégua. Quer adivinhar sua mulher pela respiração. Quer a aparência de uma aventura. Quer disciplinar a chuva. Quer ter uma árvore para atravessar o rio. Quer transformar seu dever em direito. Quer enganar sua fome. Quer escrever para não publicar. Quer arrancar os dentes do relógio. Quer esticar o elástico da terra.Quer reservar os olhos como uma mesa. Quer ser a paisagem da cidade durante o dia. Quer dominar seus impulsos. Quer se reconhecer na neblina. Quer seguir o rio que secou. Quer se aquecer no que não tem significado. Quer se sentir inteiro ao desfazer a bagagem. Quer dobrar o sol como uma carta. Quer que a água continue seu cabelo. Quer recuar para se repartir. Quer avançar para se repetir.

Foto: "A criação de Adão", de Michelangelo 

O que uma mulher quer? Fabrício Carpinejar


Mais um dos poucos que conseguem, mesmo que em partes, compreender o ser feminino. Belas frases acertadas, outras nem tanto, mas um texto que merece ser lido, apreciado, refletido e, sobretudo, sentido.

Uma mulher não quer que o homem fique perguntando toda hora o que ela quer. Ela não quer ser definida, mas compreendida. Não pretende discutir relacionamentos no fim da noite, mas os filmes que ainda vai assistir, as expressões que ainda vai aprender. Uma mulher escolhe inúmeras vezes a roupa não porque é volúvel ou tem dificuldades de decisão, mas para ver seu corpo em seqüência. As roupas são o espelho, o espelho não é o espelho. O que a mulher quer está longe de significar um controle remoto, ela deseja que seus ouvidos sejam rezados com insistência, em voz e vela baixas. Ela deseja que o homem adivinhe seu desejo. Que fale palavras rudes com ternura, que fale palavras ternas com violência. Que a paixão seja inventada, não datilografada em sinais e segunda via. Porque quando uma mulher goza sai de seu corpo, o homem fica em seu corpo a assistindo. O que um mulher quer é visitar a mãe sem medo da mãe. Falar com o pai sem medo do pai. A mulher quer a inocência do medo da infância. O que uma mulher quer é uma piada que a faça rir bonita, não uma piada que a faça rir de qualquer jeito. O que uma mulher quer é que o homem feche a porta de noite para ela abrir de manhã. Ela quer ter um filho para não se matar de amor por uma única pessoa. Uma mulher quer a esperança de não ser ela, ao menos mensalmente. Ela quer falar com as amigas o que um homem não sabe ouvir. Ela não quer que o homem mude de assunto porque não o interessa. Quer que o homem entenda que nem sempre ele é seu assunto preferido. Ela quer dançar para outros homens para chamar o seu para perto. Ela quer dançar sem pensar que dança. Uma mulher quer ser restituída de seus erros, quer que acreditem nela quando mente, que duvidem dela quando fala a verdade. Uma mulher quer percorrer a saudade e não se abandonar. Uma mulher quer Deus estendido como uma praia vazia.Uma mulher quer ser perfeita dentro de suas imperfeições, detalhista em suas expedições pelas sobrancelhas. Uma mulher quer conversar para se perseguir.Quer ser olhada nos olhos, na cintura dos olhos. Quer que a janela se incline como um girassol. Quer ser a paisagem de sua cidade à noite. Quer ir vivendo o que não entende. Quer dizer o que sofre para não sofrer do mesmo jeito. Uma mulher quer descer do mundo em movimento. Ter sonhos eróticos para embaralhar as lembranças da semana anterior. Criar uma outra mulher dentro de si que a contraponha. Que seja legível como um pássaro no escuro, um rio no escuro, uma fruta na água. Uma mulher quer se sentir pressentida ao andar de costas, nunca chamada ou assobiada. Uma mulher quer descansar com afeto, sem intenções outras, ter os cabelos alisados e um colo, para perdoar o dia. Ela quer que o homem a ajude a enterrar o passado com direito a uma cruz e um nome. Que a ajude a desenterrar o futuro. Ela quer andar no mistério, mas de mãos dadas. Ela quer ser surpreendida com um beijo nos ombros, agradecer um espanto. Ela quer que a felicidade não seja permissão. Ela quer conferir se tudo vai dar certo para errar com vontade. Ela quer descobrir o que a vida quer dela nem tarde ou cedo demais. Ela quer que o homem feche as antigas relações e os frascos do banheiro. Uma mulher não quer que o homem fale por ela, como eu tentei fazer. 

Foto: "O nascimento de Vênus", de Botticeli.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Quando a gente ama - Oswaldo Montenegro

Uma letra simples, mas que reflete claramente a nossa alma...


Composição: Marcelo Barbosa Barreti / Nil Bernardes / Fábio Caetano


Quem vai dizer ao coração,
Que a paixão não é loucura
Mesmo que pareça 
Insano acreditar

Me apaixonei por um olhar
Por um gesto de ternura
Mesmo sem palavra
Alguma pra falar

Meu amor, a vida passa num instante
E um instante é muito pouco pra sonhar

Quando a gente ama,
Simplesmente ama
É impossível explicar
Quando a gente ama
Simplesmente ama!

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Arnaldo Jabor - Deusas do sexo

Brindemos às mulheres intelectualmente capazes, que possuem uma visão de mundo avançada, aquelas que nos atraem pela inteligência, pelo bom gosto. Um viva às gentilizes e seu reconhecimento, apostamos ainda nos valores morais, não falamos daqueles deturpados e impregnados na sociedade, claro está, mas daqueles que nos remetem ao clássico, à saúde mental da população.

Marco Hruschka




A política está tão repulsiva que vou falar de sexo.

Outro dia, a Adriane Galisteu deu uma entrevista dizendo que os homens não querem namorar as mulheres que são símbolos sexuais. É isto mesmo. Quem ousa namorar a Feiticeira ou a Tiazinha? As mulheres não são mais para amar; nem para comer. São para "ver". Que nos prometem elas,com suas formas perfeitas por anabolizantes e silicones? Prometem-nos um prazer impossível, um orgasmo metafísico, para o qual os homens não estão preparados... As mulheres dançam frenéticas na TV, com bundas cada vez mais malhadas, com seios imensos, girando em cima de garrafas, enquanto os pênis-espectadores se sentem apavorados e murchos diante de tanta gostosura. Os machos estão com medo das "mulheres-liqüidificador".

O modelo da mulher de hoje, que nossas filhas almejam ser, é a prostituta transcendental, a mulher-robô, a "valentina", a "barbarela", a máquina-de-prazer sem alma, turbinas de amor com um hiperatômico tesão. Que parceiros estão sendo criados para estas pós-mulheres? Não os há.

Os "malhados", os "turbinados" geralmente são bofes-gay, filhos do mesmo narcisismo de mercado que as criou. Ou, então, reprodutores como o Szafir, para o Robô-Xuxa. A atual "revolução da vulgaridade", regada a pagode, parece "libertar" as mulheres. Ilusão a toa. A "libertação da mulher" numa sociedade escravista como a nossa deu nisso: super-objetos.

Se pensando livres, mas aprisionadas numa exterioridade corporal que apenas esconde pobres meninas famintas de amor e dinheiro. São escravas aparentemente alforriadas numa grande senzala sem grades. Mas, diante delas, o homem normal tem medo. Elas são areia demais para qualquer caminhão. Por outro lado, o sistema que as criou enfraquece os homens que rabalham mais e ganham menos, tem medo de perder o emprego, vivem nervosos e fragilizados com seus pintinhos trêmulos, decadentes, a meia-bomba, ejaculando precocemente, puxando o sacos, lambendo botas,engolindo sapos, sem o antigo harme "jamesbondiano" dos anos 60. 

Não há mais o grande "conquistador". Temos apenas os "fazendeiros de bundas" como o Huck, enquanto a maioria virou uma multidão de voyeurs, babando por deusas impossíveis. Ah, que saudades dos tempos das bundinhas e peitinhos" normais" e "disponíveis"... Pois bem. Com certeza a televisão tem criado "sonhos de consumo" descritos tão bem pela língua ferrenha do Jabor. Mas ainda existem mulheres de verdade. Mulheres que sabem valorizar o que tem "dentro de casa". E, acima de tudo, mulheres com quem se possa discutir uma música do Paulinho Moska ou de Ravel sem medo de parecer um "tio" ou "aquele cara metido a intelectual". Mulheres que sabem valorizar uma simples atitude, rara nos homens de hoje, como abrir a porta do carro para elas. Cartas (ou e- mails) românticos. Escutar no som do carro aquela fitinha velha dos Carpenters ou o Cd dos Carpenters (Kenny G já chega a ser meio breguinha... mas é bom !!), namorar escutando estas musiquinhas tranquilas. Penso que hoje, num encontro de um "Turbinado" com uma "Saradona" papo deve ser do tipo "meu professor falou que posso disputar o Iron Man que vou ganhar fácil.

Ah querido ... o meu personal Trainner disse que estou com os glúteos bem em forma e que nem vou precisar de plástica".

Para bom entendedor ... meia. E a música ?? Se não for o "último" "sucesso (????)" dos Travessos ou Chama-Chuva ... é BONDE DO TIGRÃO mulheres do meu Brasil Varonil!!! Não deixe que criem estereótipos!!

Não comprem o cinto de modelar da Feiticeira. A mulher brasileira é linda por natureza !! Silicone é para as americanas que não possuem a felicidade de ter um corpo esculpido por Deus e bonito por natureza. E se os seus namorados pedirem para vocês ficarem igual a feiticeira, fiquem ... a Feiticeira dos seriados de Tv. Façam-os sumirem !!!

quinta-feira, 9 de abril de 2009

O Evangelho Segundo Jesus Cristo - José Saramago


Vocês já terminaram de ler um livro e tiveram arrepios de prazer? Foi o que aconteceu comigo quando terminei de ler "O Evangelho segundo Jesus Cristo" de Saramago. Fiquei em transe por alguns segundos tentando adaptar a mensagem. Não me arrependo de tê-lo escolhido como tema de minha monografia, será um prazer escrever algo a respeito. Eis as citações que mais me tocaram. Leitura recomendada, independente de crenças.


"[...] pois o Bem e o Mal não existem em si mesmos, cada um deles é somente a ausência do outro." P. 18

“Mas também há quem afirme que este é o próprio crânio de Adão, subido do negrume profundo das camadas geológicas arcaicas, e agora, porque a elas não pode voltar, condenado eternamente a ter diante dos olhos a terra, seu único paraíso possível e para sempre perdido.” P.19

“Deus, que está em toda a parte, estava ali, mas, sendo aquilo que é, um puro espírito, não podia ver como a pele de um tocava a pele do outro, como a carne dele penetrou a carne dela, criadas uma e outra para isso mesmo, e, provavelmente, já nem lá se encontraria quando a semente sagrada de José se derramou no sagrado interior de Maria, sagrados ambos por serem a fonte e a taça da vida, em verdade há coisas que o próprio Deus não entende, embora as tivesse criado.” P. 27

"O espelho e os sonhos são coisas semelhantes, é como a imagem do homem diante de si próprio" P 38

“Em verdade, em verdade vos digo, não há limites para a malícia das mulheres, sobretudo as mais inocentes.” P 39 

“[...] mas os anjos, mesmo podendo muito, como se tem visto, levam consigo as suas limitações de nascença, nisso são como Deus, não podem evitar a morte.” P 126

 “[...] é uma indignidade a que se sujeita o ser humano, tratá-lo com um cãozito ensinado a reagir a um estímulo sonoro, voz, assobio, ou estalo de chicote.” P 128

“[...] afinal a ausência é também uma morte, a única e importante diferença é a esperança.” P 195

“Os escravos vivem para servir-nos, talvez devêssemos abri-los para sabermos se levam escravos dentro, e depois abrir um rei para ver se tem outro rei na barriga, e olha que se encontrássemos o Diabo e ele deixasse que o abríssemos, talvez tivéssemos a surpresa de ver saltar Deus lá de dentro.” P 241, 242

“[...] e Deus, se está em toda a parte, como se diz, não escolheu uma coluna de fumo para mostrar-se, talvez esteja naquela água que corre, a mesma onde se banha a mulher.” P 270 

“[...] o problema de Deus é esse, ninguém tem o nome que ele tem.” P 330 

“[...] pois já se sabe que as palavras proferidas pelo coração não têm língua que as articule, retém-nas um nó na garganta e só nos olhos é que se podem ler.” P 331

"A verdade e a mentira passam pela mesma boca e não deixam rasto, o Diabo não deixa de ser Diabo por alguma vez ter falado a verdade." P 357

"Que coisas que nós não sabemos haverá entre o Diabo e Deus" P 359

“[...] Estás curado, murmurou Jesus docemente, tomando-lhe a mão. No mesmo instante Lázaro sentiu que o mal lhe fugia do corpo como uma água escura devorada pelo sol” P 413

“Lázaro, levanta-te, e Lázaro levantar-se-á porque Deus o quis, mas é neste instante, em verdade último e derradeiro, que Maria de Magdala põe uma mão no ombro de Jesus e diz, Ninguém na vida teve tantos pecados que mereça morrer duas vezes, então Jesus deixou cair os braços e saiu para chorar.” P 428

"[...] clamou para o céu onde Deus sorria, Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez." P 444


sexta-feira, 27 de março de 2009

Traição celeste

Olá meus amigos! Posto agora um texto meu de minha época de sonetista, hehe! Mais um texto que explora a natureza, espero que gostem!








Solitário em meu quarto olho pr´o céu

Vejo um teatro de estrelas cintilantes

Contemplo tal beleza meio aréu

Nunca vira magia tal qual dantes

 

A mais brilhante delas fez-me réu

Semente do amor quero que plantes

Nesse peito que chora rios de mel

Estão de prova os astros circunstantes

 

Mas a protagonista surgiu clara

Segou-me os olhos ávidos de amor

Esplendor de rainha, não há máscara

 

Pedi vossa presença sem pudor

Será sempre avis rara, avis cara

Termino a peça amante com louvor


quarta-feira, 18 de março de 2009

A Dama de Preto

E numa época em que gozo dessa aprazível companhia, uma homenagem...



Marco Hruschka

Como o tempo passa rápido, meu amor. Estamos completando um ano juntos, mesmo sabendo que tu sempre estiveste me esperando, lamento não ter olhado com os olhos límpidos pra ti antes. Parece que foi ontem que beijei teus lábios esvaecidos, pela primeira vez. Será que não foi ontem mesmo que nos debruçamos sobre a relva e gozamos de um silêncio que tu nos proporcionaste?! Ah, quanta tranqüilidade na alma... estar na tua presença é um prazer indescritível, contigo faltam-me as palavras!

Lembro-me bem do nosso primeiro encontro, quando estava sentado no alto de uma montanha, lendo um livro que falava da tua beleza, e percebi que tu começavas a te aproximar, caráter altivo, misterioso... dominando-me na tua amplitude de sombras...

 Esperei que tu chegasses até mim completamente e me envolvesse com teu manto de névoa, abraço lúgubre deleitoso... toque gélido escaldante...

Foi no inverno que nos enamoramos por quase doze horas ininterruptas...  tu me envolveste com teu véu em aura e não deixou que eu sentisse frio, passei o tempo todo olhando para ti, admirando a tua infinita beleza, algo muito além da minha compreensão.

Há quem queira difamar a tua imagem perante o mundo, mas não temo as histórias que contam sobre ti, não temo as vozes que ouço quando estou contigo, não temo sequer as imagens que você me mostra, não a temo, temo perdê-la, mesmo sabendo que isso é impossível, pois posso achá-la em qualquer lugar...

Meu corpo é um mar de sentimentos quando o crepúsculo se aproxima, excito-me, definho-me... saúdo-te, despeço-me... é o fado de minha vida, carregá-lo-ei com beneplácito.

Será que na outra vida poderemos passar todas as nossas horas juntos? É um preço que estou disposto a pagar para tê-la ao meu lado por todo o sempre...

Sinto o vento da despedida tocar minha face...

Hoje você me surpreendeu, por fim, deixou-me o orvalho da manhã como beijo...

Ah! Já expiro de saudades... não suportarei esperar o turno de mais um dia para vê-la, oh, doce e bela Noite, dona dos meus sonhos diurnos, encontro-te em ti mesma...

Adeus...

quarta-feira, 4 de março de 2009

Je rêve de toi

Bonjour mes amis!

Trata-se de um soneto alexandrino que escrevi em 2008, meu primeiro texto registrado em língua francesa, a língua amada...
A tradução ficará em forma de comentário, espero que gostem!

Marco Hruschka


Un petit peu de miel pour bonne et douce saveur

Le vin fait réveiller une très grande folie

Une rose charmante s’offre à la belle nuit

Le son de la guitare touche notre coeur

 

C´est pourtant le premier rejoint des professeurs

À son avis, ce qui marque sont les sourires

Je suggère: Aimez tout, jouissez de la vie

Entre nous il n´y a qu´une immensité de moeurs

 

Mon esprit ment, hélas, la lune est seule à moi

Je hurle son nom, je crie à Dieu par la vrai

La chimère est finie, je comprends bien cela

 

Et malheureusement, ce qui règne c´est loi

Deux fous ne vivent pas ensemble, je rêvais 

Elle ne viendra plus, mais j´ai beaucoup de foi.


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

A Tonalidade do Uníssono

Olá "blogueiros" de plantão! Muito obrigado pela visita. Segue abaixo um texto diferente dos demais, uma nova proposta de trabalho, gostaria de ver mais comentários, elogios ou críticas, uma palavra é bem-vinda! Um grande abraço! ;)

Marco Hruschka

O ar está em si bemol. A tendência é que a nota continue a mesma, embora possa semitonar dependendo da brisa. Contudo, os bemóis predominarão por aqui. O que há em um cômodo sem janelas nem portas, além de você? Transpiração e mais o quê? Silêncio e mais o quê? Silêncio em si bemol... preciso de janelas.

Eu queria ser aquele arco-íris que se exibe perto da cachoeira, pois trás esperança pós-tempestade, aquarela de fé... fé em quê?Independe! Mesmo assim seria ótimo sê-lo, desta forma apareceria sempre em horas notáveis e seria admirado como um desejo de um sonho, seria paisagem, também a lenda dos avós aos netos, a própria natureza, sendo assim o próprio Deus de alguns pagãos, como é o nome daquela religião mesmo? São tantas que nem me lembro mais. Ah, ser Deus! Mas... é bom ser Deus? Já tenho problemas demais como humano, Deus deve ser o problema personificado... ou melhor, espiritualizado. Não, não quero sê-lo!

Hoje o ar está amargo. Caretas de desprezo. Por quê? Não há resposta para tudo, pois se a vida é uma constante interrogação, ou não? Há quem diga que ela é a resposta de si mesma. Prefiro acreditar que a vida apenas é.

........................................................................................................................................................................................................ o seu olhar cheira a vinho, embebedar-me-ia? Provavelmente já esteja fora de mim. Pois estou em quem? Quem está em mim? Por favor, mais uma dose do olhar daquela dama! Como é excitante! Um olhar é o ato mais íntimo de um ser humano. Donna, olhe-me a mim, amém!

No alto de um precipício é o melhor lugar para se refletir sobre a vida como um todo. Eis-me aqui, no Portão do Cárcere, porque é assim que se chama esse lugar agora, meio inclinado a estibordo, tendo a proa como uma guilhotina a minha frente, à esquerda um campo magnificamente verde, à direita... o futuro. Não, cansei-me dessa posição, um passo para a direita e vejo tudo! Que vontade insanamente prazerosa de saltar, estico a mão e sinto o vento acre a balançar-me para frente e para trás, para frente e para trás... queria alcançar aquela nuvem, ela parece tão macia, abraçá-la-ia contra o peito até que ela se desmanchasse em pó, ou em fumaça, ou em cheiro de céu, quem sabe? Eu tenho opção, a guilhotina é mais rápida, mas eu ainda posso voar se quiser...

Ultimamente, a madrugada me faz carícias amorosas, deita-se comigo. Seu cheiro é místico e intenso, agrada-me senti-lo. O toque é fresco e firme, faz-me companhia enquanto fecho os olhos, ela assobia uma nota que não se encontra na escala musical de nossos antepassados, trata-se de algo lírico e novo, o som é tenor, e não importa o sexo, o deleite dos acordes é assexuado. A única pena é a sua partida à chegada crepuscular, tão cedo!

O defeito do ser humano é pensar demais. Hoje eu tive vontade de tocar uma pessoa, beijar essa pessoa, transformar-me nela por um segundo. E assim foi. Fundimo-nos em carne e em pensamentos. Costumam dizer que isso que fiz é traição, mas eu não vejo dessa forma. A doação de energias é válida quando recíproca. As forças astrais, teosoficamente falando, emanavam de nós e se redistribuíam ao redor de nossas auras, infiltravam-se pelas nossas peles e enrijeciam nossos músculos, relaxavam nossas almas... desta vez a noite foi apenas uma voyeuse. Qual a diferença da natureza e do ser humano? Talvez o ser humano pense demais!

Este escrito é incognoscível a mim. Se eu conseguisse me lembrar...

Tic-tac, tic-tac, morte-morte, morte-morte, tic-tac...

Por favor, me leve embora daqui... não agüento mais esse cheiro de espectro, esse som de mar, não suporto mais me ser. Eu sei que você está aí! Por que não aparece logo? Me tira daqui!

A mulher é uma domadora profissional de homens apaixonados, o que há dentro do ser masculino que se deixa ser influenciado tão facilmente pelas fêmeas? O “fogo que arde sem se ver”? Basta uma expressão facial... e pronto! O jogo termina vencido pelas damas. Cavalheiros, não vos rendam aos caprichos da serpente!

 O absurdo resolveu agir por aqui, o tempo todo, estamos imersos nele. Uma lava espessa e colorida, mas são tons sombrios, macabros. Parece noite. Ouço uivos, gritos, ventos esparsos e ciprestes... sinto que o luto está a sobrevoar o povoado. Quanto mais eu corro, mais perto está o que me persegue, o que são essas coisas? De onde elas vêm? Acho que a pergunta correta seria “O que sou eu?”. Ousar-me-ia demandá-la a mim? É como overdose de absinto.

            Despedir-me-ei daqueles que ficam. Vou procurar o frescor, algo como a aragem da geada; procurarei também o eco de minha voz que se perdeu por entre os meandros labirínticos da vida, um som rouco de tanto viajar pelas intempéries da realidade; buscarei o agridoce, mel demais acaba por enjoar-me; ah, já sei o que quero! Que impere o silêncio, arpeje! Voilà! Zéfiros em si bemol...


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Aquário de delícias

Marco Hruschka

Como me agrada o movimento vertical da chuva. Por vezes, não tão nesse sentido, mas diagonal, levada pelo vento. À janela, posso sentir tocar-me a face quando oblíqua. A água... milagre divino, pureza magistral, como é bom tê-la em abundância! O pluvial me presenteia a alma com leveza. Sinto-me, como um vivente de outra encarnação, um ser aquático, usufruindo deleitosamente da vastidão silenciosa do oceano. Agridoce ilusão. Há o mel do sonho e o amargo da realidade. Crio existências dentro de meu coração as quais fantasio vivê-las. Nelas, não haveria paradoxos sentimentais, oscilações psicológicas, apenas o neutro, um neutro levemente prazeroso e eterno.

Um novo quadro se descortina, a brisa mansa toma conta da atmosfera, o céu no azul tipicamente dominical, a paisagem repleta de lagos com água cristalina onde os pássaros se harmonizam com os peixes e com os homens. Há um alimento perfeito, completo e eterno em comum às espécies: a ambrosia celeste. Voltamos à idade de Ouro. Tudo é preservado e repartido igualitariamente. A Água predomina como rainha soberana.

Banhamo-nos nas cachoeiras em meio à relva oculta. Relacionamo-nos com tudo e com todos, sem egoísmos, sem ciúmes, sem invejas, sem preconceitos. Caminhamos pelos vales, observamos os ribeirões repletos de preciosidades, escutamos o silêncio natural das coisas. O lema de minha tribo: “Sorria com a alma e a natureza o recompensará”. Não há sequer a hierarquia Olímpica de outrora. As noites, convidativas. Celebramos a vida, a saúde, a união das raças de todas as sortes. A Natureza evolui junto ao novo Homem. A Vida tem a transparência e a sobriedade de um aquário. Regozijo...

A chuva cessou. Assustei-me com uma porta que bateu com o vento e, de sobre-salto, afastei-me da janela, ensopado da cintura para cima. A água caída do céu expurgara-me os pensamentos e o orbe sonhado. Senti profundamente estar ali, naquilo que existe de verdade. O suco de Deus, ao mesmo tempo em que trouxe, levou consigo todas as minhas esperanças de continuar em mim mesmo. Definho ao pensar que não poderei usufruir, nos cinco sentidos, de toda a amplidão da natureza virgem, noiva casta e cândida que me seduz com rios de mel e montanhas de dádivas. Não há solução. A fuga no sonho é irrealizável, acaba-se ao abrir dos olhos. Despeço-me, subterfugir-me-ei àquela cujo abraço é mortal, cuja casa é fria e eternal, cujo cântico troante soa-me madrigal, que o caminho seja o Nilo ou o Senegal.


OBS: Conto publicado pela CBJE em janeiro de 2009 no livro Contos Selecionados de Autores Premiados - Edição Especial 2008


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

VULVA-FLOR

Marco Hruschka

Que no início tudo são lírios,

Monocromia na pele e nos odores,

Essências originais, alvores,

Imaginação acesa em delírios...

 

Mas com um leve toque

O sangue ferve e lateja,

Novo tom, rosa-rosa, que assim seja,

Coloração que nos relembra a belle époque.

 

A mão febril é substituída no seu tempo,

Que entre a língua, do relento a rainha,

Estimulante natural, trabalha sozinha,

Orquídea verte lágrimas de contento.

 

Já é flor desabrochada, pólen abundante.

Tremores invisíveis de prazer alado

Transformam em violeta o sexo requintado,

Desenho ornamental, odor inebriante.

 

Os cálices explodem em coloração,

O deleite não tarda, graça suprema,

As corolas brilham como estrelas de cinema,

E no conjunto, o perianto pulsa de excitação.

 

Ah, o ápice do gozo que se espera!

Do miolo floral vê-se o néctar a escorrer...

Violeta... Orquídea... rosa... lírio.

Nova flor em broto, nova primavera!

sábado, 31 de janeiro de 2009

Ser-em-si

Sem mais palavras, com vocês... "Ser-em-si"!

Marco Hruschka


Do louvor à verdade, o próprio hino

Deserto inabitado, sol a pino

Insistir na crença de um deus sempre ausente

Sou dos outros o inferno inconsciente

 

Flor em broto, mas asfixiada, crua e cega

De Jesus aquele que o nega

Entrelinhas do além sonial

O vício salgado, imundo e banal

 

Quando choro, verto líquido escarlate

Quando grito, o timbre é de abate

Quando rio, a gargalhada é muda

Quando deveras enxergo, poesia desnuda

 

Será que mereço o teu céu de nuvens

Com anjos alados de penugens

A entoar cantos àquelas virgens santas

Que por debaixo das saias fogueiras tantas?

 

Por que não? Sou humano-animal-irracional

Como toda a minha raça feral

Em verdade, em verdade vos digo

Da alienação mental serei sempre inimigo


PS: Foto "O êxtase de Santa Teresa", de Bernini.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Assim na Terra como no Céu


Quem leu atentamente "Dom Casmurro" de Machado de Assis se lembrará de dois versos desse poema. Não ousaria plagiar o Mestre, sinto-me honrado em poder fazer uma brincadeira com um dos maiores escritores já visto no Brasil. Eis o aval: "Mas, como eu creio que os sonetos existem feitos, como as odes e os dramas, e as demais obras de arte, por uma razão de ordem metafísica, dou esses dous versos ao primeiro desocupado que os quiser". Certamente não fui o primeiro, mas o soneto perfeito saiu, como ele queria que fosse!


Oh! Flor do céu! Oh! Flor cândida e pura!

Capaz de negros e alvos conciliar,

De bíblia e alcorão unificar,

Os filhos do Senhor reclamam cura!

 

Cultiva esse povo com brandura!

Tens o mero dever de apaziguar,

Traga da estrela a luz a abençoar

Esses pobres que cá têm vida dura.

 

Ceda-me o papel de caridade,

Oh! Pai celeste! Faça-se igualha,

Que se extinga na Terra a pravidade!

 

Serei teu anjo, não quero medalha.

Pregar-Te-ei, fruirá a posteridade,

Perde-se a vida, ganha-se a batalha.


Marco Hruschka

Machado de Assis


terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Eu, Blimunda

Olá amigos! Posto agora um poema recém-escrito, chama-se "Eu, Blimunda". Sei que o texto deveria falar por si só, porém seria de grande valia para o entendimento desse poema que se conhecesse o livro "Memorial do Convento", de José Saramago, pois a intertextualidade é clara. Mas se conseguirem ver beleza por aqui, já fico feliz! Espero que gostem...


Marco Hruschka


Mirava nossas fotos, quimera?

E percebi o quanto éramos lindos juntos, voltasse pudera

O quanto éramos felizes juntos, chuva de estrelas