sexta-feira, 15 de maio de 2009

Efêmero deleite

Sempre tive problemas com mulheres. Ou melhor, nunca os tive porque nunca me aproximei o bastante de uma pessoa do sexo feminino que me permitisse a intimidade, sempre fui evitado e repelido. Confesso-lhes logo, esse é o meu segredo.

Não posso ser hipócrita e lhes dizer que sou um garçon bonito, seria pura e simplesmente para elevar o meu ego a um patamar ao qual nunca esteve e nunca estará. Sou o tipo de indivíduo que não possui dotes físicos notáveis, nem mesmo posso afirmar que sou simpático o bastante para convencer uma mulher a ficar comigo. Nunca tive namoradas... apenas algumas garotas que não me suportaram por mais de uma semana. C'est la vie, como dizem os franceses! Mas vá lá, vou contar-lhes um fato que não acontece todos os dias, muito menos com pessoas como eu.

Como nem sempre o diabo está atrás da porta, cuidando para que tudo seja uma desgraça, tratando de fazer com que a vida não tenha sentido algum, eis um dia em que a minha vida, há tempos sem propósito, passou a ter cabimento em si mesma.

Obviamente e de acordo com o pensamento de vocês, o tal cabimento só poderia ser o amor a uma mulher. Mas não a uma donna propriamente dita, pois a moça deveria ter a metade da idade da mulher perfeita e madura para Balzac, mas para mim, o convite ao pecado que nunca possuí.

Era um domingo, o céu estava nublado, porém, o sol conseguia penetrar às nuvens e propagar a sua cor formando uma aquarela. O vento não passava de uma brisa suave, clima e paisagem agradabilíssimos.

Eu acabara de sair do Museu de Antiguidades, zona norte da cidade. Sou apaixonado por objetos antigos, acredito que cada objeto possui uma história e que cada história deve ser respeitada e valorizada. Havia um vaso chinês de formato balaústre que me chamou a atenção. Não pelo formato, mas pela pintura. Havia um casal, o homem entregando uma rosa à mulher, que por sua vez beijava-lhe a outra mão. Escusado seria dizer que as lágrimas me vieram aos olhos, meu coração despedaçou como aquele vaso o faria se caísse ao chão. Lamentei não ter um amor, uma confidente, uma companheira, alguém para quem eu pudesse colher uma rosa e lhe dar como demonstração de afeto.

Saí do museu e, enxugando os olhos, entrei no meu carro, que por acaso consegui comprar com o suor do meu trabalho e com muita economia. Era um carro bonito, novo, não era dos mais caros, mas chamava a atenção por ser vermelho, a mesma cor da rosa do vaso, quanta ironia! Enquanto me preparava psicologicamente para poder dirigir o carro, depois da oscilação sentimental, avistei a tal graça saindo da portaria de um prédio bem à frente de onde eu estava estacionado. Resolvi esperar que ela passasse, pois era extremamente linda. Como sou um cidadão que não tem mais nada a perder quando o assunto é relacionamento heterossexual, resolvi não perder aquela imagem nem um segundo sequer e a encarei direto nos olhos. Uns olhos de cor mediana entre verde e azul, uma cor de riacho desconhecido. Sua pele era bronzeada, puxada para a cor indígena, só que com mais brilho. Seus cabelos não eram nem loiros nem castanhos, tinha a cor do mel virgem, virgem como ela também deveria ser. Era uma mestiça, nasceu de uma mistura racial da qual só lhe foi dada as características mais honradas de cada linhagem. Exuberante! Seu corpo, ainda em desenvolvimento, modelado pela roupa justa, já latejava prazer e euforia, não sou tão piegas a ponto de dizer que era uma miragem, mas, só de vê-la, meu coração arfava.

Repentinamente, vindo pela calçada que passaria ao lado do meu carro, a pequena travou seu olhar no meu e não havia nada que pudesse quebrar aquela linha imaginária e retilínea que se formou entre nós, sagrados segundos... Ela abaixou a cabeça como quem está acanhada e, logo em seguida, levantou-a e abriu um pequeno sorriso, leve, quase que malicioso, sensual, e ao mesmo tempo misterioso... 

Ela passou... E eu fiquei. Fiquei com o coração na mão, com a cabeça tumultuada, com a alma deliciada. Ela passou... para sempre... e eu fiquei. Fiquei sozinho... fiquei o mesmo... efêmero deleite.


PS: Conto Publicado na Antologia "Contos Selecionados de Novos Autores Brasileiros", pela CBJE.

Foto: "Le penseur", Auguste Rodin

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Eu e elas

Meu amigo e professor de francês, Fábio, ao ler o meu texto "Efêmero Deleite", teve a idéia de reescrevê-lo com um pouco mais de ousadia, deixando de lado a subjetividade, priorizando a realidade, a vida como ela é. Na minha opinião, um ótimo texto para retratar a atualidade, em que a maioria das mulheres se mostra fútil, em que o amor não tem vez, em que o que conta é o que você tem, e não o que realmente é. Um brinde às avessas às máscaras de cada um! Boa leitura.

EU E ELAS

Fábio Lucas Pierini

(para Marco Hruschka)

Elas vêm e vão. Sentam, cruzam suas pernas, acendem seus cigarros, fumam, riem, bebem, reclamam, choram, beijam. Tudo numa noite. Tudo numa mesa. As companhias variam, mas a história é sempre a mesma: hoje amam, amanhã dispensam. Simples assim. Se esse é o destino dos bacanas em seus carrões, imaginem o meu, que suo para pagar o financiamento de um semi-novo.

Vou e volto, levo e trago. Quem me vê em meu traje impecável e minha postura rígida não faz idéia do que escondo por trás deste sorriso hipócrita. Fantasio com todas elas, com cada uma delas ou com uma que seja todas elas, transando loucamente comigo. Sonho com sua pele de pêssego tratada com produtos caros, seus cabelos cuidados por mãos de profissionais conhecidos na cidade, seus corpos esculpidos nas academias mais badaladas e com o dia em que eu me sentarei com elas, fumarei com elas, beijarei suas bocas vermelhas e bêbadas e, após uma noite de muito sexo num motel de luxo, sairei de suas vidas como se nunca tivesse entrado, levando comigo talvez as marcas de um esmalte escarlate nas costas.

Mas eu nunca entro. Talvez porque não lhes valha a pena deixar entrar um homem que não queria voltar. Elas são vaidosas, querem nos ter a seus pés, pedindo, chorando, implorando. Eu só queria dar uma entradinha nesse mundinho apertado, limpinho e cheirosinho delas. Olhar bem de perto e gravar na memória o que faz delas tão elas mesmas.

Por volta das 6 da manhã a noite acaba e eu tenho de aguentar os últimos bacanas que ainda choram. Vou puxando a mesa e digo que passem no caixa. Babacas. Me emprestem essas porras dessas caminhonetes que eu mudo tudo isso. Chego aqui vestido feito um caubói pagando Amarula para aquelas me pagarem um pau e levo para dar uma volta. Conto umas piadas para fazê-las rir e vou embicando para o motel. Se disserem que não, trago de volta e espero outras. A noite é curta, mas tem sempre alguém que não se importa em curtir. Para quem tem grana e tempo, a paciência é obrigatória.

Mas ninguém me empresta uma caminhonete e tenho de voltar para casa no meu semi-novo. Contemplo-o. Meu único amigo. Quantas vezes não fiquei aí dentro lamentando minha má sorte, minha condição de escravo desse bando de bundas brancas? Quando comprei disseram: “Nessa cor é ruim passar para a frente”. Respondi: “Se eu comprasse um carro pensando na venda, seria revendedor”. As coisas às vezes se parecem com seus donos. Sou vermelho por dentro, e ele, por fora.

Até que ele chama a atenção. Toda semana dou um brilho. Acho que elas até olham para ele, mas quando veem que aqui dentro está um falido, ou melhor, aquele falido do barzinho, devem ficar com nojo. Será que elas se imaginam fazendo sexo comigo? Nem que fosse para deixar os bacanas com raiva, dizendo assim: “Saí com o garçom sim, e ele tem o pinto maior que o seu”. Mas elas não fazem isso. Dizem que fazem, mas não fazem, senão eu já teria descoberto o segredo de todas elas.

Passo pelo museu e vejo que já está aberto. Olho o relógio, verifico meu sono... Por que não? Entro lá como se entrasse numa igreja, com medo de encostar nessas coisas que devem ter um valor inestimável. Passo pelas galerias e não consigo entender quase nada. Mas muitas das pinturas, esculturas, gravuras, estátuas, tapeçarias e demais objetos têm algo em comum: homens e mulheres se dando bem uns com os outros.

Um objeto vermelho chama minha atenção. Um vaso ilustrando um homem e uma mulher usando trajes orientais, olhinhos puxados. O cara oferece uma flor para a moça ao mesmo tempo que beija a mão dela. E ela retribui, toda encantada. De repente, uma tristeza me invade. Uma angústia. E pela primeira vez em anos, eu consigo chorar. Reconheço. Eu queria amor. Mas elas não querem me dar. Tudo o que elas querem é uma Silverado, lençois de seda e um cartão de crédito. Se eu tivesse isso... Quem sabe... Quem sabe depois da primeira noite, elas... Não! Elas não me amam. Não posso amá-las.

Saio de lá chorando ainda, pensando na dor de estar sempre só. De elas darem aos bacanas o que pertence aos homens de verdade. Porque um bacana faz para elas tudo o que elas querem. E um homem de verdade... Um homem de verdade ama. Um homem de verdade nada mais tem a dar para sua mulher senão amor. Mas elas não querem amor. Talvez porque... Não sejam mulheres de verdade.

Entro no meu semi-novo vermelho e saio. Chego a uma esquina sem semáforo e vejo alguém tentando atravessar. Tem faixa de pedestre e eu paro. Sorrio simpaticamente para convencer o transeunte de que não passarei por cima dele enquanto ele atravessa. Mas não é ele, é ela. E ela agradece, com um sorriso tímido e baixa a cabeça enquanto passa diante de mim. Vejo que seus olhos ficam inquietos nas órbitas querendo saber se eu a contemplo. Claro que sim. Pele de pêssego, cabelos cuidados, corpo esculpido. Assim que ela chega ao outro lado da calçada, recolhe os cabelos, gira um pouco o pescocinho tatuado e discretamente aponta os olhos na minha direção, cravando em nós um lindo sorriso de satisfação.

Maringá, 14 de maio de 2009.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Don Juan

No galanteio elegante da madrugada

Sai o jovem filho do Amor a conquistar

E a seduzir a natureza; perito em artimanha,

Flerta com o vento, sorri para o luar,

Aura mística, o limite é o topo da montanha.

 

Segue seu destino todo soberano no olhar,

Porte sublimemente encantador,

Percorre as trilhas em ribeirão,

Acenando às relvas reluzentes em verdor,

E acariciando a semi-escuridão com lábios de varão.

 

Encontra o deleite quando menos se esperava,

A Noite, toda personificada em bela donna,

Coberta e ornada nos magníficos véus crepusculares,

Por isso mesmo lírica e reluzentemente barona,

Envolve-o em sua fantasia de rituais salutares.

 

Unem-se numa junção oniricamente comedida

Ambos a desenvolver um jogo de carícias variadas

Toques, sussurros, o casal já paira em meio à brisa,

Seres distintos, mas pelos quereres almas amadas,

Saboreiam-se tão furtivamente que não mais se divisa.

 

Após o gozo infinito e desmedido,

Ela se esvai na aurora que precede o beijo derradeiro

E ele, o galã viril, retorna a casa revigorado,

Para aguardar o turno de mais um dia rotineiro

E então, ao raiar da lua, renascer para amar e ser amado.


Marco Hruschka

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Soneto de saudade


Depois de ler muito e homenagear Vinícius de Moraes, resolvi escrever um novo soneto, ao seu estilo, mas, claro está, sem a sua elegância que o diferencia dos outros poetas.
Trata-se de um eu-lírico carregado de nostalgia, relembrando sua relação com um amor já passado, um sentimento forte, mistura de sensualidade e ternura. Enfim, que a análise e os comentários fiquem para vocês, meus queridos leitores! Espero que apreciem! Um abraço!

O teu seio é como a aurora de uma manhã em veraneio,

E no cálido botão rosáceo, intumescido de prazer,

Habitam os meus desejos de cintilante devaneio,

O toque macio e a pele alva me fazem enlouquecer.

 

Dá-me, ó musa, alimenta-me com teu seio

Como uma mãe que sacia o filho faminto,

Mas saibas que a minha fome é de anseio,

Quero perecer em ti, curvas em labirinto.

 

Ao colocá-lo em meus lábios, como outrora e infinitamente,

Umedeço-o com a seiva da paixão e tu padeces,

No fechar dos olhos, desfrutas do deleite, imensamente...

 

No profundo suspirar, deixa-te levar pelo que queres,

Cederás sempre ao nosso amor, paixão incandescente,

E alhures, nossos lêmures se unirão num banquete de prazeres.


quinta-feira, 7 de maio de 2009

Soneto de fidelidade / Soneto de separação / Soneto do amor total



Continuando a homenagem a Vinícius de Moraes, poeta maior da literatura brasileira, seguem-se 3 sonetos escolhidos por mim para representá-lo aqui. Seus poemas costumam acalentar a alma, tantas vezes magoada pelas intempéries da vida.


Soneto de fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Soneto de separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.



Soneto do amor total

Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.




quarta-feira, 6 de maio de 2009

Ternura - Vinícius de Moraes

Posto agora um de meus poemas favoritos de Vinícius de Moraes, Ternura. A nossa literatura e música atuais devem muito a esse grande compositor, músico e poeta. Um brinde ao conquistador!


Ternura

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicament
e.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora.


Texto extraído da antologia "Vinicius de Moraes - Poesia completa e prosa", Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1998, pág. 259.

sábado, 2 de maio de 2009

Vers Dieu


No levíssimo estar de alma,

Toda contorcida pelo espasmo cor de sonho,

Ela, riacho, pêndulo, mistério, miragem, desejo,

Se despede de si por um instante atemporal,

Momento este em que o ar é poesia,

Em sua mente, o nada em déjà-vu, pois já flutua

Um vazio suavemente carregado de futuro,

Sobe, se emana, se aflora, se espera,

As estrelas e seus astros observam-na passar levíssima

Os lábios exclamando o deleite subjetivo

E o respectivo corpo se retransfigurando

Em sua androgeneidade personal, mulher-anjo,

Respectivamente simples como as trevas e a luz;

E se Deus existe, estica a mão para reconhecê-la

E ao tocar-lhe a pele, ela já-se-é novamente,

E regride transgredindo...

Agora em seu leito de início, abre os olhos,

Seu gêmeo a sorrir-lhe, também voluptuoso,

Aguardando o seu completo retorno

Desta viagem brevemente eterna em direção a Deus.


Foto: Imagem de Lúcifer na catedral Saint-Paul de Liège, Bélgica.

O que um homem quer? Fabrício Carpinejar


Nós homens, reconhecemo-nos em muitas dessas frases, enxergamo-nos exatamente nesses atos ou maneiras de pensar. Um parabéns ao Carpinejar que, com tanta poesia e felicidade, conseguiu também dizer um pouco sobre essa "caverna obscura" que, às vezes, é o homem.


O homem não quer nada, quer descobrir o que quer no meio do caminho. O homem não quer ser elogiado em excesso, senão pensa que é deboche. Quer dormir por nocaute, não por escolha. Quer viajar o suficiente para não voltar a ser ele mesmo. O homem quer chamar atenção em público, ficar quieto a dois. Não quer o meio-termo. Quer falar mais do que devia, calar mais do que podia. Não quer se explicar quando está errado. Quer ser explicado quando está certo. Quer magoar sua mulher criticando a sogra. Quer se magoar provocando ofensas. Quer concordar para resolver depois. Quer surpreender com o número errado. Quer ter a razão quando falta o desejo. Quer jantar com calma, almoçar rápido. Quer o passado perto como um abajur. Não quer mistérios, quer segredos para contar aos amigos. O homem quer um violão para esconder suas dores. Quer sair para poder voltar. Quer conversar de noite para diminuir a culpa. Quer uma gaveta para amontoar a infância. Quer mostrar disposição quando está cansado. Quer consolar para evitar o choro. Quer sexo quando fala em amizade, quer amizade quando fala em sexo. Quer se duvidar ao extremo para se confirmar em seguida. Quer pescar para mostrar paciência. Quer o emprego do outro, o prato da outra mesa. Quer fingir que sabe o que não entende. Quer entender durante a conversa. Quer fazer sofrer o que ainda não sofreu. Quer chorar e soluça. Quer amar sem começo. Quer casar sem papel.Quer ter um confidente para não se trair. Quer rir alto sem trocar a marcha. Quer usar suas roupas até gastar. Quer ter seus lugares prediletos. Quer privacidade em banheiros públicos. Não quer ser convidado a carregar peso.Quer dançar sem comentários. Quer beber sozinho sua ressaca. Quer escutar seu nome para voltar ao papo. Quer jogar futebol para diminuir a idade. Quer se contestar quando não há dissidências. Quer a última palavra. Quer ser desejado por vaidade. Quer a fama ainda que seja mentira. Quer chegar atrasado para não ficar esperando. Quer esperar na porta para não se arrumar. Quer fingir pressa para não desabafar. Quer pular o domingo. Quer se arrepender do que não fez. Quer ser esquecido do que ser vagamente lembrado. Quer que a mãe não conte suas manias e apelidos no jantar de família. Quer iniciar o que não terminou. Quer interrogar o próprio ciúme. Quer desistir das expectativas. Quer expectativas para não desistir. Quer receber visitas na hora errada. Quer telefonar para não dizer nada. Quer amar os filhos como se fosse um filho. Quer ser pai de seu pai. Quer orar nos ouvidos do mar. Quer ser ilegível para deixar dúvidas. Quer morrer de mãos dadas. Quer viver sem trégua. Quer adivinhar sua mulher pela respiração. Quer a aparência de uma aventura. Quer disciplinar a chuva. Quer ter uma árvore para atravessar o rio. Quer transformar seu dever em direito. Quer enganar sua fome. Quer escrever para não publicar. Quer arrancar os dentes do relógio. Quer esticar o elástico da terra.Quer reservar os olhos como uma mesa. Quer ser a paisagem da cidade durante o dia. Quer dominar seus impulsos. Quer se reconhecer na neblina. Quer seguir o rio que secou. Quer se aquecer no que não tem significado. Quer se sentir inteiro ao desfazer a bagagem. Quer dobrar o sol como uma carta. Quer que a água continue seu cabelo. Quer recuar para se repartir. Quer avançar para se repetir.

Foto: "A criação de Adão", de Michelangelo 

O que uma mulher quer? Fabrício Carpinejar


Mais um dos poucos que conseguem, mesmo que em partes, compreender o ser feminino. Belas frases acertadas, outras nem tanto, mas um texto que merece ser lido, apreciado, refletido e, sobretudo, sentido.

Uma mulher não quer que o homem fique perguntando toda hora o que ela quer. Ela não quer ser definida, mas compreendida. Não pretende discutir relacionamentos no fim da noite, mas os filmes que ainda vai assistir, as expressões que ainda vai aprender. Uma mulher escolhe inúmeras vezes a roupa não porque é volúvel ou tem dificuldades de decisão, mas para ver seu corpo em seqüência. As roupas são o espelho, o espelho não é o espelho. O que a mulher quer está longe de significar um controle remoto, ela deseja que seus ouvidos sejam rezados com insistência, em voz e vela baixas. Ela deseja que o homem adivinhe seu desejo. Que fale palavras rudes com ternura, que fale palavras ternas com violência. Que a paixão seja inventada, não datilografada em sinais e segunda via. Porque quando uma mulher goza sai de seu corpo, o homem fica em seu corpo a assistindo. O que um mulher quer é visitar a mãe sem medo da mãe. Falar com o pai sem medo do pai. A mulher quer a inocência do medo da infância. O que uma mulher quer é uma piada que a faça rir bonita, não uma piada que a faça rir de qualquer jeito. O que uma mulher quer é que o homem feche a porta de noite para ela abrir de manhã. Ela quer ter um filho para não se matar de amor por uma única pessoa. Uma mulher quer a esperança de não ser ela, ao menos mensalmente. Ela quer falar com as amigas o que um homem não sabe ouvir. Ela não quer que o homem mude de assunto porque não o interessa. Quer que o homem entenda que nem sempre ele é seu assunto preferido. Ela quer dançar para outros homens para chamar o seu para perto. Ela quer dançar sem pensar que dança. Uma mulher quer ser restituída de seus erros, quer que acreditem nela quando mente, que duvidem dela quando fala a verdade. Uma mulher quer percorrer a saudade e não se abandonar. Uma mulher quer Deus estendido como uma praia vazia.Uma mulher quer ser perfeita dentro de suas imperfeições, detalhista em suas expedições pelas sobrancelhas. Uma mulher quer conversar para se perseguir.Quer ser olhada nos olhos, na cintura dos olhos. Quer que a janela se incline como um girassol. Quer ser a paisagem de sua cidade à noite. Quer ir vivendo o que não entende. Quer dizer o que sofre para não sofrer do mesmo jeito. Uma mulher quer descer do mundo em movimento. Ter sonhos eróticos para embaralhar as lembranças da semana anterior. Criar uma outra mulher dentro de si que a contraponha. Que seja legível como um pássaro no escuro, um rio no escuro, uma fruta na água. Uma mulher quer se sentir pressentida ao andar de costas, nunca chamada ou assobiada. Uma mulher quer descansar com afeto, sem intenções outras, ter os cabelos alisados e um colo, para perdoar o dia. Ela quer que o homem a ajude a enterrar o passado com direito a uma cruz e um nome. Que a ajude a desenterrar o futuro. Ela quer andar no mistério, mas de mãos dadas. Ela quer ser surpreendida com um beijo nos ombros, agradecer um espanto. Ela quer que a felicidade não seja permissão. Ela quer conferir se tudo vai dar certo para errar com vontade. Ela quer descobrir o que a vida quer dela nem tarde ou cedo demais. Ela quer que o homem feche as antigas relações e os frascos do banheiro. Uma mulher não quer que o homem fale por ela, como eu tentei fazer. 

Foto: "O nascimento de Vênus", de Botticeli.
sexta-feira, 1 de maio de 2009

Quando a gente ama - Oswaldo Montenegro

Uma letra simples, mas que reflete claramente a nossa alma...


Composição: Marcelo Barbosa Barreti / Nil Bernardes / Fábio Caetano


Quem vai dizer ao coração,
Que a paixão não é loucura
Mesmo que pareça 
Insano acreditar

Me apaixonei por um olhar
Por um gesto de ternura
Mesmo sem palavra
Alguma pra falar

Meu amor, a vida passa num instante
E um instante é muito pouco pra sonhar

Quando a gente ama,
Simplesmente ama
É impossível explicar
Quando a gente ama
Simplesmente ama!

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Arnaldo Jabor - Deusas do sexo

Brindemos às mulheres intelectualmente capazes, que possuem uma visão de mundo avançada, aquelas que nos atraem pela inteligência, pelo bom gosto. Um viva às gentilizes e seu reconhecimento, apostamos ainda nos valores morais, não falamos daqueles deturpados e impregnados na sociedade, claro está, mas daqueles que nos remetem ao clássico, à saúde mental da população.

Marco Hruschka




A política está tão repulsiva que vou falar de sexo.

Outro dia, a Adriane Galisteu deu uma entrevista dizendo que os homens não querem namorar as mulheres que são símbolos sexuais. É isto mesmo. Quem ousa namorar a Feiticeira ou a Tiazinha? As mulheres não são mais para amar; nem para comer. São para "ver". Que nos prometem elas,com suas formas perfeitas por anabolizantes e silicones? Prometem-nos um prazer impossível, um orgasmo metafísico, para o qual os homens não estão preparados... As mulheres dançam frenéticas na TV, com bundas cada vez mais malhadas, com seios imensos, girando em cima de garrafas, enquanto os pênis-espectadores se sentem apavorados e murchos diante de tanta gostosura. Os machos estão com medo das "mulheres-liqüidificador".

O modelo da mulher de hoje, que nossas filhas almejam ser, é a prostituta transcendental, a mulher-robô, a "valentina", a "barbarela", a máquina-de-prazer sem alma, turbinas de amor com um hiperatômico tesão. Que parceiros estão sendo criados para estas pós-mulheres? Não os há.

Os "malhados", os "turbinados" geralmente são bofes-gay, filhos do mesmo narcisismo de mercado que as criou. Ou, então, reprodutores como o Szafir, para o Robô-Xuxa. A atual "revolução da vulgaridade", regada a pagode, parece "libertar" as mulheres. Ilusão a toa. A "libertação da mulher" numa sociedade escravista como a nossa deu nisso: super-objetos.

Se pensando livres, mas aprisionadas numa exterioridade corporal que apenas esconde pobres meninas famintas de amor e dinheiro. São escravas aparentemente alforriadas numa grande senzala sem grades. Mas, diante delas, o homem normal tem medo. Elas são areia demais para qualquer caminhão. Por outro lado, o sistema que as criou enfraquece os homens que rabalham mais e ganham menos, tem medo de perder o emprego, vivem nervosos e fragilizados com seus pintinhos trêmulos, decadentes, a meia-bomba, ejaculando precocemente, puxando o sacos, lambendo botas,engolindo sapos, sem o antigo harme "jamesbondiano" dos anos 60. 

Não há mais o grande "conquistador". Temos apenas os "fazendeiros de bundas" como o Huck, enquanto a maioria virou uma multidão de voyeurs, babando por deusas impossíveis. Ah, que saudades dos tempos das bundinhas e peitinhos" normais" e "disponíveis"... Pois bem. Com certeza a televisão tem criado "sonhos de consumo" descritos tão bem pela língua ferrenha do Jabor. Mas ainda existem mulheres de verdade. Mulheres que sabem valorizar o que tem "dentro de casa". E, acima de tudo, mulheres com quem se possa discutir uma música do Paulinho Moska ou de Ravel sem medo de parecer um "tio" ou "aquele cara metido a intelectual". Mulheres que sabem valorizar uma simples atitude, rara nos homens de hoje, como abrir a porta do carro para elas. Cartas (ou e- mails) românticos. Escutar no som do carro aquela fitinha velha dos Carpenters ou o Cd dos Carpenters (Kenny G já chega a ser meio breguinha... mas é bom !!), namorar escutando estas musiquinhas tranquilas. Penso que hoje, num encontro de um "Turbinado" com uma "Saradona" papo deve ser do tipo "meu professor falou que posso disputar o Iron Man que vou ganhar fácil.

Ah querido ... o meu personal Trainner disse que estou com os glúteos bem em forma e que nem vou precisar de plástica".

Para bom entendedor ... meia. E a música ?? Se não for o "último" "sucesso (????)" dos Travessos ou Chama-Chuva ... é BONDE DO TIGRÃO mulheres do meu Brasil Varonil!!! Não deixe que criem estereótipos!!

Não comprem o cinto de modelar da Feiticeira. A mulher brasileira é linda por natureza !! Silicone é para as americanas que não possuem a felicidade de ter um corpo esculpido por Deus e bonito por natureza. E se os seus namorados pedirem para vocês ficarem igual a feiticeira, fiquem ... a Feiticeira dos seriados de Tv. Façam-os sumirem !!!
quinta-feira, 9 de abril de 2009

O Evangelho Segundo Jesus Cristo - José Saramago


Vocês já terminaram de ler um livro e tiveram arrepios de prazer? Foi o que aconteceu comigo quando terminei de ler "O Evangelho segundo Jesus Cristo" de Saramago. Fiquei em transe por alguns segundos tentando adaptar a mensagem. Não me arrependo de tê-lo escolhido como tema de minha monografia, será um prazer escrever algo a respeito. Eis as citações que mais me tocaram. Leitura recomendada, independente de crenças.


"[...] pois o Bem e o Mal não existem em si mesmos, cada um deles é somente a ausência do outro." P. 18

“Mas também há quem afirme que este é o próprio crânio de Adão, subido do negrume profundo das camadas geológicas arcaicas, e agora, porque a elas não pode voltar, condenado eternamente a ter diante dos olhos a terra, seu único paraíso possível e para sempre perdido.” P.19

“Deus, que está em toda a parte, estava ali, mas, sendo aquilo que é, um puro espírito, não podia ver como a pele de um tocava a pele do outro, como a carne dele penetrou a carne dela, criadas uma e outra para isso mesmo, e, provavelmente, já nem lá se encontraria quando a semente sagrada de José se derramou no sagrado interior de Maria, sagrados ambos por serem a fonte e a taça da vida, em verdade há coisas que o próprio Deus não entende, embora as tivesse criado.” P. 27

"O espelho e os sonhos são coisas semelhantes, é como a imagem do homem diante de si próprio" P 38

“Em verdade, em verdade vos digo, não há limites para a malícia das mulheres, sobretudo as mais inocentes.” P 39 

“[...] mas os anjos, mesmo podendo muito, como se tem visto, levam consigo as suas limitações de nascença, nisso são como Deus, não podem evitar a morte.” P 126

 “[...] é uma indignidade a que se sujeita o ser humano, tratá-lo com um cãozito ensinado a reagir a um estímulo sonoro, voz, assobio, ou estalo de chicote.” P 128

“[...] afinal a ausência é também uma morte, a única e importante diferença é a esperança.” P 195

“Os escravos vivem para servir-nos, talvez devêssemos abri-los para sabermos se levam escravos dentro, e depois abrir um rei para ver se tem outro rei na barriga, e olha que se encontrássemos o Diabo e ele deixasse que o abríssemos, talvez tivéssemos a surpresa de ver saltar Deus lá de dentro.” P 241, 242

“[...] e Deus, se está em toda a parte, como se diz, não escolheu uma coluna de fumo para mostrar-se, talvez esteja naquela água que corre, a mesma onde se banha a mulher.” P 270 

“[...] o problema de Deus é esse, ninguém tem o nome que ele tem.” P 330 

“[...] pois já se sabe que as palavras proferidas pelo coração não têm língua que as articule, retém-nas um nó na garganta e só nos olhos é que se podem ler.” P 331

"A verdade e a mentira passam pela mesma boca e não deixam rasto, o Diabo não deixa de ser Diabo por alguma vez ter falado a verdade." P 357

"Que coisas que nós não sabemos haverá entre o Diabo e Deus" P 359

“[...] Estás curado, murmurou Jesus docemente, tomando-lhe a mão. No mesmo instante Lázaro sentiu que o mal lhe fugia do corpo como uma água escura devorada pelo sol” P 413

“Lázaro, levanta-te, e Lázaro levantar-se-á porque Deus o quis, mas é neste instante, em verdade último e derradeiro, que Maria de Magdala põe uma mão no ombro de Jesus e diz, Ninguém na vida teve tantos pecados que mereça morrer duas vezes, então Jesus deixou cair os braços e saiu para chorar.” P 428

"[...] clamou para o céu onde Deus sorria, Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez." P 444


Marco Hruschka no Facebook

Quem sou eu?

Minha foto
Maringá, Paraná, Brazil
Marco Hruschka é natural de Ivaiporã-PR, nascido em 26 de agosto de 1986. Morou toda a sua vida no norte do Paraná: passou a infância em Londrina e desde os 13 anos mora em Maringá. Sempre se interessou em escrever redações na época de colégio, mas descobriu que poderia ser escritor apenas com 21 anos. Influenciado por professores na faculdade – cursou Letras na Universidade Estadual de Maringá – começou escrevendo sonetos decassílabos heroicos, depois versos livres, contos, pensamentos e atualmente dedica-se a um novo projeto: contos eróticos. Seu primeiro poema publicado em livro (Antologia de poetas brasileiros contemporâneos – vol. 49) foi em 2008 e se chama “Carma”. De lá para cá já, entre poemas e contos, já publicou mais de 50, não apenas pela CBJE, mas também em outras antologias. Em 2010 publicou seu primeiro livro solo: “Tentação” (poemas – Editora Scortecci). Em 2014, publicou “No que você está pensando?” (Multifoco Editora), livro de pensamentos e reflexões escrito primordialmente no facebook. É professor de língua francesa e pesquisador literário.

Lançamento

Lançamento
No que você está pensando?
"A vida é um compromisso inadiável" M. H.
"A cumplicidade é um roçar de pés sob os lençóis da paixão." M.H.

No que você está pensando?

No que você está pensando?
Pensamentos e reflexões

Meu livro de poemas

Meu livro de poemas
Tentação

Total de visualizações de página

Seguidores

Contato:

marcohruschka@hotmail.com
Tecnologia do Blogger.