quinta-feira, 14 de maio de 2009

Eu e elas

Meu amigo e professor de francês, Fábio, ao ler o meu texto "Efêmero Deleite", teve a idéia de reescrevê-lo com um pouco mais de ousadia, deixando de lado a subjetividade, priorizando a realidade, a vida como ela é. Na minha opinião, um ótimo texto para retratar a atualidade, em que a maioria das mulheres se mostra fútil, em que o amor não tem vez, em que o que conta é o que você tem, e não o que realmente é. Um brinde às avessas às máscaras de cada um! Boa leitura.

EU E ELAS

Fábio Lucas Pierini

(para Marco Hruschka)

Elas vêm e vão. Sentam, cruzam suas pernas, acendem seus cigarros, fumam, riem, bebem, reclamam, choram, beijam. Tudo numa noite. Tudo numa mesa. As companhias variam, mas a história é sempre a mesma: hoje amam, amanhã dispensam. Simples assim. Se esse é o destino dos bacanas em seus carrões, imaginem o meu, que suo para pagar o financiamento de um semi-novo.

Vou e volto, levo e trago. Quem me vê em meu traje impecável e minha postura rígida não faz idéia do que escondo por trás deste sorriso hipócrita. Fantasio com todas elas, com cada uma delas ou com uma que seja todas elas, transando loucamente comigo. Sonho com sua pele de pêssego tratada com produtos caros, seus cabelos cuidados por mãos de profissionais conhecidos na cidade, seus corpos esculpidos nas academias mais badaladas e com o dia em que eu me sentarei com elas, fumarei com elas, beijarei suas bocas vermelhas e bêbadas e, após uma noite de muito sexo num motel de luxo, sairei de suas vidas como se nunca tivesse entrado, levando comigo talvez as marcas de um esmalte escarlate nas costas.

Mas eu nunca entro. Talvez porque não lhes valha a pena deixar entrar um homem que não queria voltar. Elas são vaidosas, querem nos ter a seus pés, pedindo, chorando, implorando. Eu só queria dar uma entradinha nesse mundinho apertado, limpinho e cheirosinho delas. Olhar bem de perto e gravar na memória o que faz delas tão elas mesmas.

Por volta das 6 da manhã a noite acaba e eu tenho de aguentar os últimos bacanas que ainda choram. Vou puxando a mesa e digo que passem no caixa. Babacas. Me emprestem essas porras dessas caminhonetes que eu mudo tudo isso. Chego aqui vestido feito um caubói pagando Amarula para aquelas me pagarem um pau e levo para dar uma volta. Conto umas piadas para fazê-las rir e vou embicando para o motel. Se disserem que não, trago de volta e espero outras. A noite é curta, mas tem sempre alguém que não se importa em curtir. Para quem tem grana e tempo, a paciência é obrigatória.

Mas ninguém me empresta uma caminhonete e tenho de voltar para casa no meu semi-novo. Contemplo-o. Meu único amigo. Quantas vezes não fiquei aí dentro lamentando minha má sorte, minha condição de escravo desse bando de bundas brancas? Quando comprei disseram: “Nessa cor é ruim passar para a frente”. Respondi: “Se eu comprasse um carro pensando na venda, seria revendedor”. As coisas às vezes se parecem com seus donos. Sou vermelho por dentro, e ele, por fora.

Até que ele chama a atenção. Toda semana dou um brilho. Acho que elas até olham para ele, mas quando veem que aqui dentro está um falido, ou melhor, aquele falido do barzinho, devem ficar com nojo. Será que elas se imaginam fazendo sexo comigo? Nem que fosse para deixar os bacanas com raiva, dizendo assim: “Saí com o garçom sim, e ele tem o pinto maior que o seu”. Mas elas não fazem isso. Dizem que fazem, mas não fazem, senão eu já teria descoberto o segredo de todas elas.

Passo pelo museu e vejo que já está aberto. Olho o relógio, verifico meu sono... Por que não? Entro lá como se entrasse numa igreja, com medo de encostar nessas coisas que devem ter um valor inestimável. Passo pelas galerias e não consigo entender quase nada. Mas muitas das pinturas, esculturas, gravuras, estátuas, tapeçarias e demais objetos têm algo em comum: homens e mulheres se dando bem uns com os outros.

Um objeto vermelho chama minha atenção. Um vaso ilustrando um homem e uma mulher usando trajes orientais, olhinhos puxados. O cara oferece uma flor para a moça ao mesmo tempo que beija a mão dela. E ela retribui, toda encantada. De repente, uma tristeza me invade. Uma angústia. E pela primeira vez em anos, eu consigo chorar. Reconheço. Eu queria amor. Mas elas não querem me dar. Tudo o que elas querem é uma Silverado, lençois de seda e um cartão de crédito. Se eu tivesse isso... Quem sabe... Quem sabe depois da primeira noite, elas... Não! Elas não me amam. Não posso amá-las.

Saio de lá chorando ainda, pensando na dor de estar sempre só. De elas darem aos bacanas o que pertence aos homens de verdade. Porque um bacana faz para elas tudo o que elas querem. E um homem de verdade... Um homem de verdade ama. Um homem de verdade nada mais tem a dar para sua mulher senão amor. Mas elas não querem amor. Talvez porque... Não sejam mulheres de verdade.

Entro no meu semi-novo vermelho e saio. Chego a uma esquina sem semáforo e vejo alguém tentando atravessar. Tem faixa de pedestre e eu paro. Sorrio simpaticamente para convencer o transeunte de que não passarei por cima dele enquanto ele atravessa. Mas não é ele, é ela. E ela agradece, com um sorriso tímido e baixa a cabeça enquanto passa diante de mim. Vejo que seus olhos ficam inquietos nas órbitas querendo saber se eu a contemplo. Claro que sim. Pele de pêssego, cabelos cuidados, corpo esculpido. Assim que ela chega ao outro lado da calçada, recolhe os cabelos, gira um pouco o pescocinho tatuado e discretamente aponta os olhos na minha direção, cravando em nós um lindo sorriso de satisfação.

Maringá, 14 de maio de 2009.

8 comentários:

Anônimo disse...

Bem aventurados aqueles que melhor se fantasiam neste gigantesco baile de máscaras. No apogeu da futilidade, o sentimento é brisa em meio ao furacão material. Não podemos correr o risco de sentir, seriamos alienígenas encarcerados na indiferença alheia.

Luigi Ricciardi disse...

Fábio Pierini conseguiu expressar exatamente o sentimento dos homens que tem alguma coisa a oferecer além de um carro. Mas que ficam escondidos pelas pick-ups, chapéus e botas, afinal é o que a maioria das mulheres modernas querem. Um idiota que ri de qualquer coisa e que tenha um carro bom para levá-las onde querem e que pagam tudo no fim da noite.

Nanda disse...

Só posso dizer que fiquei surpresa com a sensibilidade do texto!

Elina disse...

ah.. eu to morrendo de vontade de dizer q fiquei mto ofendida com aquela parte das "bundas brancas", tá?? hahaha

o bom mesmo é qdo se encontra um garçon, como o eu-lírico, mas q ainda tem tenham humor o suficiente para "rir de qualquer coisa e que tenha um carro bom para levá-las onde querem e que pagam tudo no fim da noite" ;)

MTO bom o texto.. não sabia q o Fábio escrevia tão bem!
Parabéns, professor..

Marco Hruschka disse...

Caro "Anônimo", parabéns pelo comentário, ao mesmo tempo que crítico, lírico e filosófico.
Caro "Luigi Ricciardi", bem-vindo desde sempre ao grupo dos revoltados contra a futilidade do ser humano contemporâneo.
Cara "Nanda", o texto realmente demonstra uma sensibilidade, mas, sobretudo, mostra-nos o que muitas vezes esquecemos de perceber, a ignorância absoluta do ser humano atual.
Querida "Élina", fique tranquila, você sabe que não precisa se ofender pela sua "bunda branca", ela é linda (rsrsrs). Vocês, mulheres, quando conseguirem ver a máquina desligada à figura do homem, ou seja, o homem como portador de sentimentos; algo além do consumo capitalista e dos bailes que não nos acrescentam em nada, a não ser como diversão esporádica, e não como uma cultura impregnada, dominarão o mundo! Vocês são poderosas!
Obrigado pelos comentários, o texto merece!

Nanda disse...

Sim Marco, infelizmente o ser-miserável existe, atribuindo a si a aos outros a categoria de coisa. Pensando cá com os meus botões, esse texto merece uma continuação.

Fábio Pierini disse...

Bom dia a todos.

Acho que também posso deixar uns comentários aqui também. Em primeiro lugar, gostaria de agradecer ao Marco por ter levado a sério o conto. Como disse a ele, digo a todos: não é o tipo de conto que estou acostumado a escrever (meu negócio é ficção científica), mas também tenho lá minhas indignações com a terrível inversão de valores que vivemos atualmente, pois as pessoas estão rindo de coisa séria e brigando por causa de futilidades - para dar apenas um exemplo de inversão.

O conto é uma agressão, sem dúvida. Já a sensibilidade... Eu procurei fazer o contrário do Marco: ao invés de um sujeito sensível (que não é um garçom de bar, mas um garçon, ou seja, um menino, um rapaz), eu quis colocar um sujeito bruto diante da mesma situação.

Obviamente não quero dizer que garçons sejam pessoas brutas, mas a idéia foi personalizar a indignação masculina com as escolhas feitas pelas mulheres que gostaríamos que gostassem de nós, mas que preferem aqueles que tem o que não temos e talvez nunca venhamos a ter o bastante: grana. E como não temos grana, fazemos de tudo para aparentar que temos: compramos um carro, símbolo de poder e riqueza numa sociedade de valores invertidos, como é a nossa.

Já as mulheres sabem muito bem como é difícil conviver com um homem que não pode levá-la de carro aos lugares que ela quer frequentar, pois todo o sacrifício de comprar sapatos de salto, fazer uma maquiagem que estraga com o suor, usar um vestido que levanta quando bate um ventinho ou quando se andam muitos metros, enfm, todo o trabalho de um dia para ficar bonita acaba em poucos metros de caminhada ou ao andar espremida num ônibus.

É um círculo vicioso. E uma boa discussão. E, obviamente, merece continuações.

Abraço a todos e obrigado por se importarem com literatura.

OBS - "Bunda Branca" é uma gíria para se referir aos playboys.

Stella Tavares disse...

Adorei sua maneira de se expressar, seus textos a tal ponto que decidi segui-los. Parabéns pelo blog.
www.manualdoinseguro@hotmail.com
oadestradordesentimentos.blogs.sapo.pt

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Marco Hruschka é natural de Ivaiporã-PR, nascido em 26 de agosto de 1986. Morou toda a sua vida no norte do Paraná: passou a infância em Londrina e desde os 13 anos mora em Maringá. Sempre se interessou em escrever redações na época de colégio, mas descobriu que poderia ser escritor apenas com 21 anos. Influenciado por professores na faculdade – cursou Letras na Universidade Estadual de Maringá – começou escrevendo sonetos decassílabos heroicos, depois versos livres, contos, pensamentos e atualmente dedica-se a um novo projeto: contos eróticos. Seu primeiro poema publicado em livro (Antologia de poetas brasileiros contemporâneos – vol. 49) foi em 2008 e se chama “Carma”. De lá para cá já, entre poemas e contos, já publicou mais de 50, não apenas pela CBJE, mas também em outras antologias. Em 2010 publicou seu primeiro livro solo: “Tentação” (poemas – Editora Scortecci). Em 2014, publicou “No que você está pensando?” (Multifoco Editora), livro de pensamentos e reflexões escrito primordialmente no facebook. É professor de língua francesa e pesquisador literário.

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