sexta-feira, 15 de maio de 2009

Efêmero deleite

Sempre tive problemas com mulheres. Ou melhor, nunca os tive porque nunca me aproximei o bastante de uma pessoa do sexo feminino que me permitisse a intimidade, sempre fui evitado e repelido. Confesso-lhes logo, esse é o meu segredo.

Não posso ser hipócrita e lhes dizer que sou um garçon bonito, seria pura e simplesmente para elevar o meu ego a um patamar ao qual nunca esteve e nunca estará. Sou o tipo de indivíduo que não possui dotes físicos notáveis, nem mesmo posso afirmar que sou simpático o bastante para convencer uma mulher a ficar comigo. Nunca tive namoradas... apenas algumas garotas que não me suportaram por mais de uma semana. C'est la vie, como dizem os franceses! Mas vá lá, vou contar-lhes um fato que não acontece todos os dias, muito menos com pessoas como eu.

Como nem sempre o diabo está atrás da porta, cuidando para que tudo seja uma desgraça, tratando de fazer com que a vida não tenha sentido algum, eis um dia em que a minha vida, há tempos sem propósito, passou a ter cabimento em si mesma.

Obviamente e de acordo com o pensamento de vocês, o tal cabimento só poderia ser o amor a uma mulher. Mas não a uma donna propriamente dita, pois a moça deveria ter a metade da idade da mulher perfeita e madura para Balzac, mas para mim, o convite ao pecado que nunca possuí.

Era um domingo, o céu estava nublado, porém, o sol conseguia penetrar às nuvens e propagar a sua cor formando uma aquarela. O vento não passava de uma brisa suave, clima e paisagem agradabilíssimos.

Eu acabara de sair do Museu de Antiguidades, zona norte da cidade. Sou apaixonado por objetos antigos, acredito que cada objeto possui uma história e que cada história deve ser respeitada e valorizada. Havia um vaso chinês de formato balaústre que me chamou a atenção. Não pelo formato, mas pela pintura. Havia um casal, o homem entregando uma rosa à mulher, que por sua vez beijava-lhe a outra mão. Escusado seria dizer que as lágrimas me vieram aos olhos, meu coração despedaçou como aquele vaso o faria se caísse ao chão. Lamentei não ter um amor, uma confidente, uma companheira, alguém para quem eu pudesse colher uma rosa e lhe dar como demonstração de afeto.

Saí do museu e, enxugando os olhos, entrei no meu carro, que por acaso consegui comprar com o suor do meu trabalho e com muita economia. Era um carro bonito, novo, não era dos mais caros, mas chamava a atenção por ser vermelho, a mesma cor da rosa do vaso, quanta ironia! Enquanto me preparava psicologicamente para poder dirigir o carro, depois da oscilação sentimental, avistei a tal graça saindo da portaria de um prédio bem à frente de onde eu estava estacionado. Resolvi esperar que ela passasse, pois era extremamente linda. Como sou um cidadão que não tem mais nada a perder quando o assunto é relacionamento heterossexual, resolvi não perder aquela imagem nem um segundo sequer e a encarei direto nos olhos. Uns olhos de cor mediana entre verde e azul, uma cor de riacho desconhecido. Sua pele era bronzeada, puxada para a cor indígena, só que com mais brilho. Seus cabelos não eram nem loiros nem castanhos, tinha a cor do mel virgem, virgem como ela também deveria ser. Era uma mestiça, nasceu de uma mistura racial da qual só lhe foi dada as características mais honradas de cada linhagem. Exuberante! Seu corpo, ainda em desenvolvimento, modelado pela roupa justa, já latejava prazer e euforia, não sou tão piegas a ponto de dizer que era uma miragem, mas, só de vê-la, meu coração arfava.

Repentinamente, vindo pela calçada que passaria ao lado do meu carro, a pequena travou seu olhar no meu e não havia nada que pudesse quebrar aquela linha imaginária e retilínea que se formou entre nós, sagrados segundos... Ela abaixou a cabeça como quem está acanhada e, logo em seguida, levantou-a e abriu um pequeno sorriso, leve, quase que malicioso, sensual, e ao mesmo tempo misterioso... 

Ela passou... E eu fiquei. Fiquei com o coração na mão, com a cabeça tumultuada, com a alma deliciada. Ela passou... para sempre... e eu fiquei. Fiquei sozinho... fiquei o mesmo... efêmero deleite.


PS: Conto Publicado na Antologia "Contos Selecionados de Novos Autores Brasileiros", pela CBJE.

Foto: "Le penseur", Auguste Rodin

3 comentários:

Marco Hruschka disse...

Glossário:

Garçon = Rapaz, em francês.
Donna = Mulher, em italiano.
C'est la vie = Assim é a vida, em francês.

Camila Peliçon disse...

Não sei nem o que dizer...
Maravilhoso...
Nunca li uma descrição tão linda de um encantamento por uma mulher e de um desejo de viver com outra pessoa.
Parabéns Marco, felicidades!!!

Sunshine disse...

Nossa...
só isso que digo.

Muito bom.

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Maringá, Paraná, Brazil
Marco Hruschka é natural de Ivaiporã-PR, nascido em 26 de agosto de 1986. Morou toda a sua vida no norte do Paraná: passou a infância em Londrina e desde os 13 anos mora em Maringá. Sempre se interessou em escrever redações na época de colégio, mas descobriu que poderia ser escritor apenas com 21 anos. Influenciado por professores na faculdade – cursou Letras na Universidade Estadual de Maringá – começou escrevendo sonetos decassílabos heroicos, depois versos livres, contos, pensamentos e atualmente dedica-se a um novo projeto: contos eróticos. Seu primeiro poema publicado em livro (Antologia de poetas brasileiros contemporâneos – vol. 49) foi em 2008 e se chama “Carma”. De lá para cá já, entre poemas e contos, já publicou mais de 50, não apenas pela CBJE, mas também em outras antologias. Em 2010 publicou seu primeiro livro solo: “Tentação” (poemas – Editora Scortecci). Em 2014, publicou “No que você está pensando?” (Multifoco Editora), livro de pensamentos e reflexões escrito primordialmente no facebook. É professor de língua francesa e pesquisador literário.

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