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sábado, 31 de janeiro de 2009

Ser-em-si

Sem mais palavras, com vocês... "Ser-em-si"!

Marco Hruschka


Do louvor à verdade, o próprio hino

Deserto inabitado, sol a pino

Insistir na crença de um deus sempre ausente

Sou dos outros o inferno inconsciente

 

Flor em broto, mas asfixiada, crua e cega

De Jesus aquele que o nega

Entrelinhas do além sonial

O vício salgado, imundo e banal

 

Quando choro, verto líquido escarlate

Quando grito, o timbre é de abate

Quando rio, a gargalhada é muda

Quando deveras enxergo, poesia desnuda

 

Será que mereço o teu céu de nuvens

Com anjos alados de penugens

A entoar cantos àquelas virgens santas

Que por debaixo das saias fogueiras tantas?

 

Por que não? Sou humano-animal-irracional

Como toda a minha raça feral

Em verdade, em verdade vos digo

Da alienação mental serei sempre inimigo


PS: Foto "O êxtase de Santa Teresa", de Bernini.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Assim na Terra como no Céu


Quem leu atentamente "Dom Casmurro" de Machado de Assis se lembrará de dois versos desse poema. Não ousaria plagiar o Mestre, sinto-me honrado em poder fazer uma brincadeira com um dos maiores escritores já visto no Brasil. Eis o aval: "Mas, como eu creio que os sonetos existem feitos, como as odes e os dramas, e as demais obras de arte, por uma razão de ordem metafísica, dou esses dous versos ao primeiro desocupado que os quiser". Certamente não fui o primeiro, mas o soneto perfeito saiu, como ele queria que fosse!


Oh! Flor do céu! Oh! Flor cândida e pura!

Capaz de negros e alvos conciliar,

De bíblia e alcorão unificar,

Os filhos do Senhor reclamam cura!

 

Cultiva esse povo com brandura!

Tens o mero dever de apaziguar,

Traga da estrela a luz a abençoar

Esses pobres que cá têm vida dura.

 

Ceda-me o papel de caridade,

Oh! Pai celeste! Faça-se igualha,

Que se extinga na Terra a pravidade!

 

Serei teu anjo, não quero medalha.

Pregar-Te-ei, fruirá a posteridade,

Perde-se a vida, ganha-se a batalha.


Marco Hruschka

Machado de Assis


terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Eu, Blimunda

Olá amigos! Posto agora um poema recém-escrito, chama-se "Eu, Blimunda". Sei que o texto deveria falar por si só, porém seria de grande valia para o entendimento desse poema que se conhecesse o livro "Memorial do Convento", de José Saramago, pois a intertextualidade é clara. Mas se conseguirem ver beleza por aqui, já fico feliz! Espero que gostem...


Marco Hruschka


Mirava nossas fotos, quimera?

E percebi o quanto éramos lindos juntos, voltasse pudera

O quanto éramos felizes juntos, chuva de estrelas

O quanto nos amávamos um ao outro, fogo de paixão em centelhas

Deveras foi uma vida contigo, meu amor, minha loucura

Contudo, meu olhar para ti será de eterna ternura

Saudade, compaixão, carinho... branduras tantas...

Pois sinto que também me amas

Mas és puro mistério, trevas no dizer

E por isso hoje não quero o pão do alvorecer

Preciso descobrir quais são os teus desejos

As tuas vontades, os teus anseios e devaneios

Abrirei os olhos no jejum necessário do trigo

E comprovarei o que vira em sonho antigo:

Tu e eu deitados na relva crepuscular

Paisagem, nascer do sol, amor e mar

Dois corpos na união primeira e imaculada do ser

Tu e eu enlaçados pelo eterno abraço do amanhecer

 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A contrarreforma ortográfica


Marco Hruschka


Caros professores, alunos, amantes de língua portuguesa, ou somente aqueles que se veem obrigados a compreender o padrão culto de nossa língua, teremos de ler e estudar mais algumas horinhas de nossas vidas, horas essas desnecessárias do ponto de vista cultural. Os que não sabem, ainda, perguntam o porquê. Explico-lhes: Querem unificar o português. Dizem que com isso conseguirão globalizar a terceira língua mais falada no Ocidente e que a equipararão à inglesa e à espanhola, que já são unificadas há tempo. Tais mudanças estão relacionadas apenas à ortografia, não envolvem fonética, sintaxe ou outras questões linguísticas.
Até que não seria uma má ideia a unificação do nosso idioma pátrio. Não para aqueles que terão de palestrar dando explicações sobre as mudanças propostas. Ficariam ricos. Ou então para aqueles escritores que precisam vender mais exemplares, tanto de nacionalidade portuguesa quanto brasileira, pois talvez os leitores de Moçambique comprem seu livro, pois agora não há condições de fazê-lo, é impossível saber o que é “enjôo”, “lingüiça”, “heróico” e “acto”.
Olhem pelo lado positivo, teremos mais letrinhas em nosso alfabeto, o “k”, o “y” e o “w”, uma vez que o inglês decidiu não nos abandonar. Não que isso seja ruim, uma língua deve estar em pleno desenvolvimento sempre, então nada mais justo que novas palavras, mesmo que estrangeiras, desde que auxiliem na comunicação. Mas algo me diz que é mais uma prova da dominação e invasão americana sobre nós, que declaramos Independência há anos, aos portugueses, europeus desmiolados, e aos africanos, infelizmente, ainda escravos como dantes.
Tal reforma não é, definitivamente, algo que irá aumentar o status (que me desculpem os puristas pelo estrangeirismo, mas estou sujeito a recorrer-lhe a qualquer momento) de nossa linguagem escrita, é uma mudança “meia-boca”, não unifica coisa alguma e mexe errado em pontos como o acento diferencial. Desejam tirar o acento do verbo “parar” no imperativo, “pára”. Como saberemos se é o verbo “parar” ou a preposição? Ah, você, mestre ou doutor, que me lê, diria: “Saberás pelo contexto!” Tudo bem, é possível. Mas se querem reformar a língua trabalhando nos acentos de forma a conglobá-la, por que não deixam o pobre coitado do acento em “pára”, verbo no imperativo afirmativo de segunda pessoa do singular ou presente do indicativo de terceira pessoa do singular? Qual é o seu defeito? Não é um bom diferencial? É claro que esse é só um exemplo do que poderia ser pensado melhor.
Quanto mais mudanças ocorrerem em nosso idioma, mais longe ficaremos de nossas raízes, que muitas vezes são de extrema importância para o entendimento de um termo, uma vez que o conceito original pode expressar seu significado essencial.
Eliminarão as letras mudas, “c” e “p”, do português de Portugal, como em “facto” e “Baptista”. O escritor prêmio Nobel de literatura, José Saramago, carrega consigo todos esses fenômenos em sua escrita, porém isso não o impediu de ser best-seller no Brasil.
Por que não nos espelhamos na França, berço da cultura europeia e mundial, e respeitamos nossa progênie para, aí sim, alçarmos voo à autonomia de refinamento (mesmo que a mudança não dependa só de nós), e elevarmos o país a um ponto diferente do qual se encontra hoje?!
Lembro-vos que o que foi defendido aqui ainda não é o pensamento daqueles que comandam a nossa língua, pelo menos não o da maioria, então gostaria de pedir-lhes, caros leitores, que não reparem em algumas palavras “estranhas”, ortograficamente falando, acima escritas, trato de me acostumar com a “reforma” ortográfica que em breve poderá dominar o português.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Mar

Marco Hruschka

Acordei com a cabeça perplexa, pesada, perturbada...

Descobri que o amor não é para mim, fiz algo que os deuses não gostaram e resolveram me castigar com um coração funesto, frívolo e fútil...

            Levo a vida como uma canção triste, com melodia magoada, nota desapaixonada e letra desesperada...

            Desesperadoramente grito por socorro... que desça um anjo munido de cura pura para tratar desse peito ferido pelo tempo e pelo universo... e pelas musas...

            As ondas coléricas da existência arrastaram para o fundo toda a fé que nunca foi minha, a esperança que pairava sozinha e o amor que outrora eu tinha...

            Oxalá a tormenta passe e o mar de lama se transforme em puro leite... que chova santo azeite para ungir minha alma indolente...

            Mas as lembranças são trevas... tempestades... trovões... que agitam meus pensamentos paralisando meu ser e meu não-ser. Oh Mar! Venha com vossa magnânima ressaca e leve convosco todo meu passado e meu presente, deixando à praia uma fagulha de futuro que ressuscite em mim o filho da outra vida, que eu seja fogo, que eu seja fênix...

            Mar fechado... nefasto, infausto, infalível...

            Estou fadado a essa vida amargurada, angustiada e mal-tratada.

            Sonho em ser o Mar... cercado de todas as baías, de todas as praias e cercanias; movimentar-me pelo mundo, do nada oriundo, nunca moribundo, refugiar-me no profundo... gozo mais que abundo...

            Mas a quimera é implacável, quando acaba, resta-nos o irrealizável. Felizmente a vida é sacrificável...

            Sou o Mar...

            Aquele que flutua, que tem a face crua, que a luz do sol recua, eu sou o Mar... o mar da Lua...

sábado, 17 de janeiro de 2009

Volúpia Volúvel


Um conto escrito após uma discussão com alguém especial, um desabafo, algo sem elaboração, apenas fruto de um sentimento confuso e doloroso.


Marco Hruschka


Não sei mais o que é a Felicidade. Hoje senti vontade de chorar. Porém, não o fiz. Não sei se porque não sou acostumado a esse ato, ou porque sou duro demais para tal, ou por isso, ou por aqueloutro...

            O fato é que, hoje, percebi que a pessoa que me acompanhava pelos caminhos da vida, aquela com a qual eu dividia tudo, meu tempo, meus sonhos, meus medos, minhas conquistas, não compartilhará comigo do mesmo destino. Eu sou, agora, o meu próprio destino.

            Depois de uma simples e corriqueira discussão, que serviu para explodir a bomba de efeito retardado que vínhamos carregando debaixo dos lençóis de nosso relacionamento, eu saí sem dizer palavra, em direção ao nada, remoendo futuros planos solitários, contudo, não completamente decidido, e sim confuso, atordoado... ela correu atrás de mim com o intuito de conversar, mas para mim não havia mais o que dizer, alcei vôo enveredado...

            Meus primeiros passos e uns bons outros que se seguiram foram de cabeça baixa, refletindo, lamentando, transbordando o baú de sentimentos sem distinguir quais eram bons e quais eram ruins, se realmente havia uns e outros separadamente. Senti fome... frio... cansaço... sono... era noite morta, andara demais...

            Mas reparei que estava mais leve mesmo fadigado, seguia apenas o meu ritmo de andar, impelido à solidão... o vento batia em meu rosto e me causava calafrios, e isso fazia com que me sentisse vivo. Ergui a cabeça e consegui enxergar o Mundo, tudo tinha cores diferentes do habitual, algumas pálidas e desfocadas, mas outras coloridas em aquarela, vi uma pomba branca no cume da cimeira...

            Andei, andei, andei... pareceu-me que caminhar livrava a minha alma de qualquer pecado que eu não tinha cometido, mas, doravante, estava imerso na voluptuosidade boêmia, no idílio mundano, na poesia da vida em si mesma...

            Desfrutaria do Carpe Diem grego, árcade, pós-moderno, seria eterno?

            Por outro lado, eterna seria a busca por um novo cupido que pudesse acalentar esse coração abnegado, machucado, que carrega o fado agridocicado do Amor.

            Lanço ao Zéfiro a decisão de minha fortuna, da qual achei que fosse dono. Somos apenas donos de nós mesmos, a nossa sorte está sujeita ao Universo, ao Tempo, ao Desconhecido...


sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

O Vinho


Poema escrito sob a inspiração do próprio vinho, nada mais natural...


O vinho me liberta, me possui, me domina

Libera o êxtase de outrora, o desejo do porvir

Sinto que quero, mas não posso, minha sina

Venha, companhia noturna, aproxima-se o finir

 

O licor magnífico, escuro, mais que vermelho crina

Transpassa ferindo de prazer ao ingerir

O gozo gélido escaldante cheiro à marina

Cabeça ao leu, a boca confessando ao sorrir

 

O álcool fantástico possuidor de loucuras

As minhas, sobretudo, as que me pertencem

O ser estrangeiro que me habita as sombras puras

 

Eis o ápice de mim próprio, almas que sentem

Mais vinho! Não há, não há mais curas

Um brinde à vida, o último gole, o Éden!


OBS: Poema publicado pela CBJE na Antologia de Poetas Contemporâneos, vol. 52.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Evolução


Temos abaixo um conto de Luigi Ricciardi, amigo e parceiro artístico, texto denominado "Evolução". Publico-0 em meu blog, pois é um conto muito interessante que retrata bem a atualidade quanto à globalização, espero que lhes agradem como agradou a mim. Aproveito para desejar um feliz 2009 a todos que passarem por aqui! ;)


Luigi Ricciardi

Gosto de fazer meus passeios a pé, o caminhar sempre foi um dos meus passatempos preferidos desde o frescor dos anos jovens; contudo, com o apressar dos tempos, a cidade se estendeu, ultrapassando os montes visíveis, e se tornou tão desmedida e alarida que não conheço quem consiga caminhar tranquilamente por suas vias, sem que sinta um odor pútrido aqui, ou escute os gritos fervorosos das buzinas e sirenes ali; e atravessá-la seria mais impossível ainda. Por mais que se ande, sempre se encontra uma rua ou um bairro desconhecido, a cidade cresce como fermento. Impaciento-me a poucos passos de casa, com o cantar desafinado dos vendedores ambulantes, com quem, por alguns reais, consegue-se comprar a caneta-tinteiro de JK ou o relógio de pulso do Che Guevara. Suspiro com calma fazendo um sinal de negativo com a cabeça para todos eles, mas sem parar de caminhar, para não ser engolido por suas bocas sem nexo. Mesmo com todos estes contratempos, e com o caminhar sôfrego, me aventuro uma vez a cada semana, pelos caminhos desta selva de pedras.

            Há tempos, em determinado trecho da minha caminhada, eu gostava de pegar o bonde para contemplar outras paisagens e para poder assim dar um descanso às pernas. Sempre encontrava algum cidadão simpático que era possível dirigir-lhe a palavra, comentando os resultados de futebol e as gingas de Carmem Miranda. Muitos namoros iniciavam-se dentro do bonde, com sorrisos tímidos e piscadelas, de onde saiam até casamentos, ou ao menos um encontro por trás dos muros do forte. Hoje não existem mais bondes, a cidade se modernizou com seus ônibus e metrôs, que carregam dores, cansaço e utopia de felicidade. Vivem lotados e levam pessoas, que sequer se cumprimentam, aos cantos mais inóspitos da cidade. Esbarra-se na sacola de um aqui, no calcanhar de outro ali. Às vezes alguém pede desculpa, vira as costas e nunca mais encontra a pessoa com quem esbarrou. Prefiro seguir a pé, não gosto de “estranhos”.

            Ao dobrar a esquina, escuto um frenesi de marretas juntar-se à sonata da cidade na construção de um novo edifício. Tento contar os andares, mas a babel é tão alta que se confunde com a luz do sol, que cega meus olhos cansados. Ponho-me de volta a caminhar. Por quadras e quadras caminho devagar olhando todos os movimentos: placas gigantescas com mulheres e seus corpos a mostra, carros de som anunciando uma apresentação de alguém que cante qualquer coisa que não sei o nome, a aglomeração em torno do homem atropelado pelo motoboy, dois rapazes com tocas e calças baixas conversando enrolado em um português tão incompreensível que me senti na Áustria. Olho clinicamente para os automóveis, o desfile de modelos e marcas é ininterrupto e o número deles é quase tão grande quanto o número de exemplares da biblioteca nacional do Rio.

            Em dado momento cruzo com quatro adolescentes. Todas elas com vestes estampadas com dizeres em inglês. Só consigo enxergar uma: Do it Yourself! Duas delas portavam fones de ouvido e escutavam algum tipo de som tribal, e as outras duas estavam conversando em inglês. Entendi só algumas palavras soltas, não prestei muita atenção, na hora tive saudades do francês que aprendi na escola.

            Após andar por aproximadamente duas horas, senti dores nas pernas e resolvi sentar para descansar. Lembrei-me de uma praça há algumas quadras dali e resolvi ir até lá para dobrar os joelhos e olhar o movimento da cidade e seus pormenores. Chegando lá me tomo de surpresa: não há mais árvores, nem bancos. Homens trabalham com picaretas, martelos e bigornas ao lado de uma placa que anuncia um novo centro comercial. Encolerizo-me. Minha mente voltou ao tempo que recitávamos poesia às meninas com quem estávamos de namorico nesses bancos de praça, lembrei-me das festas da cidade, quando ela ainda era uma menina, dos carrinhos de sorvete, das conversas e brincadeiras de fim de tarde, e dos senhores que levantavam o chapéu quando uma senhora passava por eles. Doeu-me o peito. Resolvi então procurar outro lugar. Retomei meu andar e caminhei pouco tempo quando a fome me bateu. Por estar longe de casa e triste demais para voltar resolvi fazer algo que não fazia há anos: arriscar comer fora de casa.

            Parei no primeiro estabelecimento que vi, estava cheio e não consegui lugar para sentar. Fiquei em pé durante quarenta minutos até um dos atendentes notar minha presença. A essa altura eu já tinha perdido qualquer esperança de ser atendido. Pedi o cardápio, mas havia esquecido os óculos em casa, então para não passar vergonha pedi ao garçom o prato da casa. Lembrei-me de Rosinha, antiga namorada e cantora de rádio, com a qual eu tomava meu café da manhã diário na padaria vizinha. Meia hora depois, já sentado em uma mesa com sujeira decenal, o sujeito que me atendera me trouxe o pedido. Com um dedo dentro do prato e a outra mão no avental lúgubre, deixou-me um copo de uma bebida gaseificada com gosto de água com açúcar e um prato generoso contendo uma porção de arroz amarelento, outra de feijão, quer dizer, caldo de feijão frio, um ovo que piava e um bife que quase mugiu. Só comi porque a fome varria meu corpo. Mal terminei e o tal garçom veio tirar-me da mesa com a justificativa de que o estabelecimento estava cheio. Paguei pela comida e o garçom não me devolveu o troco e a partir de então sequer me fitou, e continuou a atender aos outros clientes como se eu não estivesse ali. Cansei de esperar e saí.

            O tom sépia do céu enegreceu ainda mais meu peito e comecei a caminhar sem rumo, por alamedas que eu não conhecia a procura de algo que eu não sabia. Vi jovens correndo e entrando em uma loja, o nome era lan house. Sem saber a razão, entrei também atrás dos rapazes e vi vários deles com os olhos saltados em frente a computadores. Uma confusão de vozes tomava conta do lugar, juntamente com sons de tiros e gritos vindos sabe-se lá de onde. Tentei ver o que se passava na tela, mas só enxerguei uma confusão de cores e movimentos tão rápidos que tive tontura, e para não desmaiar voltei correndo pra rua, onde já começava a garoar.

            Senti falta das bibliotecas que eu freqüentava, senti falta da loja de doces, senti falta da banda que tocava no coreto, da barraquinha de algodão, do locutor do rádio. Minha visão ainda estava atônita, influenciada pela multidão de cores dos jogos juvenis. Continuei andando. Na esquina um garoto distribuía panfletos aos transeuntes. Estendi a mão para pegar um e o garoto não me entregou. Bateu no meu ombro. São sobre cursos para jovens, vovô, disse ele, o senhor não vai se interessar.

            A garoa cessara, mas com a alma em frangalhos, o peito dolorido, e as pernas trêmulas, sento-me no meio-fio molhado por não saber mais para onde ir. Haveria um trem para me levar para o campo, onde, na juventude, depois de andar pelas matas, eu repousava na rede?

            Perdi totalmente a noção do tempo, olhando para o nada, ouvindo o borbulhar de ruídos fantasmagóricos. Alguém tocou em meu ombro, e voltei do transe. Minha filha me estendia a mão e murmurava qualquer coisa que eu não entendia. Colocou-me no carro e me levou para casa. No caminho, a multidão corria como horas antes, sem cessar, a procura do nada, buscando o tudo, encontrando o vazio. Em cada rosto vi um sorriso envelhecido disfarçando uma lágrima que brotava dentro do peito. Meu Deus pra que tanto? Faltam pernas para quem corre, falta coração para quem pensa, falta cintura pra quem dança.

            Já em meu velho recinto tomo um banho para me lavar das tristes luzes modernas. Sento-me na cama e engraxo meu sapato, sentindo o cheiro da graxa e recordando bons momentos. Penso em ligar o rádio, mas desisto, não se acha mais nada audível. Ligo o gramofone, e ouço Piaf cantando lindamente como antes. Desejo não sair mais de casa, sinto que não faço mais parte deste mundo. A evolução cantou progresso e seduziu o mundo, que agora já não é mais meu. Desejo aqui neste quarto adormecer e encontrar a paz que perdi há décadas. 

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Maringá, Paraná, Brazil
Marco Hruschka é natural de Ivaiporã-PR, nascido em 26 de agosto de 1986. Morou toda a sua vida no norte do Paraná: passou a infância em Londrina e desde os 13 anos mora em Maringá. Sempre se interessou em escrever redações na época de colégio, mas descobriu que poderia ser escritor apenas com 21 anos. Influenciado por professores na faculdade – cursou Letras na Universidade Estadual de Maringá – começou escrevendo sonetos decassílabos heroicos, depois versos livres, contos, pensamentos e atualmente dedica-se a um novo projeto: contos eróticos. Seu primeiro poema publicado em livro (Antologia de poetas brasileiros contemporâneos – vol. 49) foi em 2008 e se chama “Carma”. De lá para cá já, entre poemas e contos, já publicou mais de 50, não apenas pela CBJE, mas também em outras antologias. Em 2010 publicou seu primeiro livro solo: “Tentação” (poemas – Editora Scortecci). Em 2014, publicou “No que você está pensando?” (Multifoco Editora), livro de pensamentos e reflexões escrito primordialmente no facebook. É professor de língua francesa e pesquisador literário.

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"A vida é um compromisso inadiável" M. H.
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