segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Gaia


Arrisco-me em mais um desafio poético: o eu-lírico feminino! Trata-se de uma influência de Chico Buarque que sabe muito bem transpor para sua arte os desejos e sentimentos da mulher. Falo de uma influência com relação ao ato de escrever com voz feminina, pois o Chico possui um estilo característico, o qual muito me apetece, mas que não consigo seguir por já possuir, eu também, um estilo próprio. Além disso, a letra musical e o poema utilizam de penas diferentes, cada um com sua intencionalidade. Espero que gostem!

Marco Hruschka




És meu porto, minha pátria, meu pai!

Um homem-pólo-oposto que sempre me atrai,

Uma selva cheia de atrativos temerosos,

Oceano vasto de quereres prazerosos...


É em tua mão forte e ágil que me realizo,

No toque firme, seguro, já não me responsabilizo,

Quero ser a pluma, o vento sulista, a ternura

Do afago que dá e que recebe, a chaga e a cura...


Em tua presença sou a terra fértil dos tempos de ouro,

A tradição do chinês, o charme francês e a força do mouro!

Madre natura, o âmago, o cio da terra em evolução,

O luar, o eclipse, a mudança repentina de estação...


Fecunda-me! Porque tu és o grão que gera a vida

E eu o vaso receptor do néctar, toda tua e embebida!

Lambuza-me! Se és o mel doce e denso agora meu,

Sorver-nos-emos lentíssimos e eternamente em apogeu...


Dar-te-ei o seio para que repouses sossegado,

Nuvem branca e de perfume natural, ó meu amado!

Às estrelas galgaremos, como duas almas a pairar,

Agora, fechemos os olhos e te mostrarei o que é amar...

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Servos


Republico um de meus contos prediletos: Servos. Espero que releiam e que comentem, se assim desejarem. Um abraço!

Marco Hruschka


Na paragem, um homem bem portado, coluna ereta, olhar soberano, feição séria, fardado e com a mão direita no bolso do casaco tricolor espera a condução. Lentamente, aproxima-se outro homem, aparentemente maltrapilho, vestindo apenas uma túnica comprida de cor clara e sandálias. Possui barba e bigode compridos. O recém-chegado avista o oficial com olhos curiosos mas ao mesmo tempo receosos. Ao perceber que está sendo analisado, o cidadão de roupa nobre indaga:

- Que queres tu?

Após um breve silêncio reflexivo, ouve-se a resposta-investigadora:

- Quem tu és?

- Mas que disparate, como ousas tratar-me por tu? Indigente!

- Perdão, expressou-se, sem entender muito bem, o “mal vestido”.

- Isso mesmo que ouviste, sabes com quem falas?

- Não, foi exatamente o que lhe perguntei.

- Ora essa, estás a falar com Napoleão Bonaparte, comandante das tropas francesas que conquistaram a Europa.

Silêncio.

Um franzir de testa foi inevitável ao ancião. Admirou-se? Assustou-se? Será que teve medo ou rir-se-ia? E se realmente fosse quem tivera dito?

Refletiu sobre aquelas palavras e respondeu:

- Desculpe-me o abuso, mas, se tendes a Europa para vós, o que fazeis aqui, na paragem? Para onde irdes?

Sem perder a postura, levanta levemente o queixo e responde:

- Vou para a Lua!

A atmosfera toda se fazia confusa com aquela conversa, e o cidadão, curioso talvez, indaga-lhe novamente:

- Mas, enfim, o que desejais na Lua?

- Olho-a todas as noites e é como se ela me convidasse a conquistá-la, conquistá-la-ei, pois! Disse-lhe com a resposta na ponta da língua o utopista. Seria utopia?

- Mas chega de conversa fiada, quem pensas que és para querer saber de meus planos futuros? Inquiriu, quase que irado, o oficial.

- Chamam-me Sócrates, o sábio, mas prefiro ser somente Sócrates.

- Ah, Sócrates, o sábio, não é?! E o que sabes que eu não sei?

- Só sei que nada sei!

- Brincas comigo, intrépido?

- Não, não sou de muitas brincadeiras, mas digo-lhe a verdade.

O ambiente, por segundos, tornou-se taciturno. Os dois se entreolhavam sem se conhecerem, sem medo nem audácia. Enfim, para cortar aquele silêncio que incomodava a autoridade ali presente, esse perguntou:

- E tu, o que fazes aqui, para onde vais?

- Vou ao encontro de mim mesmo, responde o grisalho com um leve sorriso de complacência.

- Deveras me achas um ignorante! Explica-te ou mando prender-te!

- Não há motivo para tanta raiva, serei mais claro. Viajarei para dentro do meu “eu”, em busca de minha verdade.

- E achas realmente que passará uma condução cujo destino é “eu”?

- Com todo o respeito, não me entendes. Posso conseguir o que quero aqui mesmo, logo adiante, ou, sempre de modo mais rápido, em contato com a natureza, com a solidão de si próprio, basta uma revelação, a epifania, para que possamos entender o porquê de estarmos aqui e agora.

- Não me importam essas coisas, para mim, o que vale é liderar amparado em estratégias, conquistar, expandir o império.

- E a virtude?

- A virtude está no ato de vencer e ser admirado...

Sem ser percebido, aproxima-se um homem de aparência velha e respeitável e diz-lhes, pegando-os de surpresa:

- Tolos! Em verdade, em verdade vos digo: Nem um nem outro está livre do meu domínio, sois apenas instrumentos de minha vitória.

Aquele que mantinha a mão no bolso até então, indignado, pergunta-lhe logo:

- És quem, ó atrevido?

- Bento, João, Pedro, Clemente, Paulo, tenho vários nomes, escolham um, não importa. O que importa é que do meu trono dourado conquistarei o mundo. Nem o teu batalhão, que por sinal é mais meu do que teu, e nem a tua filosofia, nem aquele cidadão de aspecto oriental que trabalha ali, sem cessar, sem ser visto, ninguém poderá mudar o rumo do que é predestinado desde os primórdios. Meu reinado não é efêmero, é eterno. Sigam-me e os perdoarei.

E a alma do pequeno Estado jubilava... desde os primórdios.


PS: Foto Napoleão Bonaparte, por Jacques-Louis David.

Conto publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 18, pela CBJE

quarta-feira, 29 de julho de 2009

O filho do Céu


Um soneto em homenagem a minha amiga Sheila Luz, que pela fé no milagre, gerou Arthur, um bebê lindo e saudável! Brindemos com poesia o seu nascimento!!!

Marco Hruschka



Um anjo do céu disse-me ao ouvido
Que a pureza é inata na criança,
Sua presença sempre traz bonança,
O tom de sua voz é colorido.


De amor o coração é embebido.
Pra ter um pequenino pago fiança,
Em minha vida quero uma mudança,
Sozinha o meu peito é sofrido.

Agora no meu ventre um bebê gera...
Vem a mim, oh, presença idolatrada!
Que se faça real esta quimera.

Rogo a ti saúde à Mãe amada,
Hão de ouvir oração da fiel mera,
Já sinto que à luz tu serás dada...

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Bailemos

Tu tens a inocência de uma criança que já sabe o que quer

A sedução de uma mulher cheia de medos e segredos

Na maciez da alma, és pluma corpórea, o querer é mister

Na pele alva e nos lábios rosáceos habitam meus desejos


Não chores, doce anjo, não temas

A vida é para aqueles que olham o futuro

Para o além, para o amor, esqueça as algemas

Que te prendem ao chão, abandone o escuro


Alto! Claro! Voe para a liberdade!

Seja céu, seja estrela, seja o luar...

Seja o espelho que cintila a tua celebridade

Seja fusão, a areia que se mistura brandamente ao mar


Baila comigo em meio às rosas escarlates

Seremos sustenidos crescentes em paixão

O amor nos guiará como bonifrates

E dançaremos amantíssimos o acorde da União


Marco Hruschka

sábado, 18 de julho de 2009

O que é Literatura?

Muitas pessoas têm dificuldade em entender o que é a Literatura. Não digo defini-la, mas compreendê-la. Contudo, ela pode ser mais simples do que parece. Recorremos, então, às palavras de Afrânio Coutinho, renomado crítico literário brasileiro:

A Literatura é um fenômeno estético. É uma arte, a arte da palavra. Não visa a informar, ensinar, doutrinar, pregar, documentar. Acidentalmente, secundariamente, ela pode fazer isso, pode conter história, filosofia, ciência, religião. O literário ou o estético inclui precisamente o social, o histórico, o religioso, etc., porém transformando esse material em estético. Às vezes ela pode servir de veículo de outros valores. Mas o seu valor e significado residem não neles, mas em outra parte, no seu aspecto estético-literário, que lhe é comunicado pelos elementos específicos, componentes de sua estrutura, e pela finalidade precisa de despertar no leitor o tipo especial de prazer, que é o sentimento estético. O que a Literatura proporciona ao leitor, só ela o faz, e esse prazer não pode ser confundido com nenhum outro, informação, documentação, crítica. Não fora isso, não fossem a natureza específica da literatura e o prazer que dela retiramos, e as obras literárias não resistiriam ao tempo e às mudanças de civilização e cultura. (COUTINHO, 2008, p. 23)

É verdade que a literatura parte dos fatos da vida ou os contém. Mas esses fatos não existem nela como tais, mas simplesmente como ponto de partida. A literatura, como toda arte, é uma transfiguração do real, é a realidade recriada através do espírito do artista e retransmitida através da língua para as formas que são os gêneros e com os quais ela toma corpo e nova realidade. Passa, então, a viver outra vida, autônoma, independente do autor e da experiência de realidade de onde proveio. Os fatos que lhe deram às vezes origem perderam a realidade primitiva e adquiriram outra, graças à imaginação do artista. São agora fatos de outra natureza, diferentes dos fatos naturais objetivados pela ciência ou pela história ou pelo social. (COUTINHO, 2008, p.24)


COUTINHO, Afrânio. Notas de teoria literária. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Devaneios

Marco Hruschka

Queria escrever um poema.
Na madrugada que passa lentamente,
Não tenho inspiração surpreendente,
Foge-me a cor, falta-me o tema.

O tempo, uma invenção, já não passa,
Transfigurou-se em tormento,
Resta-me apenas o lamento,

A pena a tinta já rechaça.

Se os meus versos já não como os de outrora,
Nem líricos, nem metafóricos, vãs palavras,
Que seja o desabafo entranhoso dessas massas
Que gritam por socorro desde há muito e agora.

Suplicam por esperança, por igualdade,
O coração dói por não mais confiar
Em nada e em ninguém, querem amar
E ser amados, resta-lhes o fantasma da saudade.

Esvaio-me no fim dessa poesia,
Hei de um dia voltar a respirar,
Ser o canto da sereia em alto mar
E contemplar a natureza em maestria.


PS: Foto "Skrik" ou "O grito", de Edvard Munch

sábado, 4 de julho de 2009

Flor Tropical

Marco Hruschka

Dizem as vozes de outrem que seu lábio é fruta
Polpa-mel saborosa que me incita a beber no cálice
Pomar de delícias variadas, êxtase no ápice
Textura ágil, quente, doce, fugir é labuta

Olhos de ônix forjados no fogo do Nada
Pois somente no Nada se encontra a finesse
Relíquia ocular a qual nunca se esquece
Pintura surreal pela mão do Mestre retocada

Possui um colo cor urucum-castanho
Acima se insinua o pescoço lascivo
Abaixo o contorno do seio subjetivo
O que faz o delírio-desejo ganhar tamanho

Mas se se tem conhecimento de sua alma
Mas a alma como sendo o conjunto de sua obra
Apaixona-se deveras como um Páris de outrora
Que pela bela Helena perdera toda a sua calma

Pois a inteligência se sobrepõe à perfeição do corpo-réu
Companhia excelente, o tempo se evapora como orvalho
Ser seu rei e contemplá-la no palácio, ato falho
Há que ser Deus e outorgá-la como Deusa lá no céu

Ousar-me-ei por amor

Eis mais um soneto italiano. Eu sempre fui muito fã de mitologia, principalmente a greco-romana. Outrossim, mesclar temas pagãos e cristãos também sempre me agradou. Juntando tudo isso com com o tema predileto e universal, o amor, surgiu esse poema intitulado "Ousar-me-ei por amor". Espero que gostem.





Marco Hruschka


Apolo desafina à sua chegada,
Sua beleza supera a de Afrodite,
Tétis cedeu as águas acredite,
Páris entregou o pomo à nova amada.

Sua imagem se aproxima a de uma fada,
Continuo exaltando-a, se permite.
Minha vida a elogiar o anjo consiste,
Foi a Deusa a encantar predestinada.

Gostaria de ser seu preferido
Fazendo história em Bíblia ou Alcorão,
Viver eternamente em sua presença.

Roubarei uma flecha do Cupido
E atingirei certeiro o coração.
Juntos eternamente eis a sentença.

Foto: Cupido encordoando seu arco. Museus Capitolinos, Roma

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Anjo de Deus

Marco Hruschka



De um sorriso angelical,

Mas não de um anjo de um céu de um deus que não existe,
Mas de um anjo de meus sonhos,
E por isso mesmo é lindo,
O anjo é lindo, ela é linda, ela é o anjo,
E por falar em Deus, ó Deusa,
Vem que eu serei o teu, o que deveras existe,
E serás inocentemente feliz como uma criança a comer chocolate,
Tem razão o Poeta português, não há nada de mais verdadeiro do que isso,
Apenas esse poema, escrito com meu próprio coração,
Às vezes metido a poeta, e, quando apaixonado, artífice das palavras amorosas.
Pela inspiração que me toma, que é tu, emano poesia dos poros
E escrevo aqui uma carta de alforria, liberto nesse instante meu sentimento
Para que ele possa flutuar, leve como o teu olhar demanda,
Em direção aos teus lábios e tocá-los com a ternura que o inunda
Selar fisicamente o que espiritualmente já me toma
Sermos, por um instante que seja, a união da poesia e da paixão
Do perfeito e do sublime, da magia e do maravilhoso
Maravilhosa é a magia do teu sorriso, o brilho dos teus olhos
Aceita provar do beijo do poeta
E sentirás o coração bater mais forte
Como o cupido a lhe atingir a seta
Amar-te-ei por toda a sorte
segunda-feira, 15 de junho de 2009

Marias


Marco Hruschka



Seu nome é Maria. Mas poderia ser Joana, Cidinha, Daiana ou Raimunda. É interessante quando Saramago diz que conhecemos o nome que nos deram e não o que deveras temos. Você sabe o teu nome, caro leitor?
Maria é uma moça bonita, jovem, atraente, independente. Cuida de seu corpo, pois precisa dele para se realizar. Tem estatura mediana, é morena, mas gosta de usar máscaras. As pessoas a desejam, querem tocá-la, talvez nada mais. Mas ela sabe disso.
Hoje é sábado, por isso sairá. Irá a um baile, haverá "show" de rodeio, música sertaneja, não a de raiz, que defende a tradição do sertão e a cultura do povo mais simples, porém não menos inteligente. Trata-se de um novo estilo, chamado sertanejo universitário. Ver-se-á fumaça de cigarro, latas de cerveja no chão atrapalhando o movimento rústico daqueles seres, chamam de dança. Todo mundo sorrindo sem motivos concretos e outros animais sendo maltratados, a diferença básica está no chapéu, que os de cima usam. Ontem ela foi ao salão de beleza. Pintou os cabelos, fez alisamento, pois se sente mais segura assim, também fez depilação pubiana, pois tem a pretensão de transar nesse fim de semana e, claro está, precisa encantar o parceiro que ainda conhecerá.
Maria passou a semana toda pensando em como se vestiria no dia do baile, qual perfume usaria, em qual carro desfilaria pela cidade antes e depois da festa. Ela gosta das pick-ups, são grandes e espaçosas, faz com que ela se sinta mais importante, mais bem vista. Entretanto, basta-lhe uma saveiro semi-nova, o que ela quer é uma companhia motorizada.
Para chegar ao local do sacrilégio, ela convida como choffeur um amigo apaixonado, é óbvio que ele aceita. O iludido abre-lhe a porta do automóvel para que ela entre, entrega-lhe flores, ela finge que se emociona, elogia a roupa cafona do coitado e vão ouvindo acordes alienantes durante o trajeto. Quando chegam, as notas são as mesmas. O que muda é a companhia, pois ela o abandona na primeira oportunidade. Depois, alegará que se perdeu quando foi ao banheiro. Realmente se perdeu, mas foi nos braços de um bonitão de esporas.
Todavia, esse cowboy não serve para ela, pois não lhe daria o valor que ela julga merecer. Nisso o ser humano é como Deus, quer o veredicto . A nossa estrela vai para a pista e se movimenta freneticamente. De onde estamos, vê-se em uma mão um cigarro aceso, em outra, uma lata de cerveja emprestada de alguém. Sua cabeça está em outro mundo, é como uma fuga da realidade. Mas o que Maria não sabe e talvez nunca venha a saber é que foge exatamente para a verdade deplorável de sua existência.
Há um bobo da corte que comanda o festejo, ele faz graças na intenção de animar o pessoal. Mas nesse reino, devido à algazarra, ele utiliza um microfone para se comunicar com o resto, que aplaude, assobia, grita e sorri das rimas mal feitas pela figura emblemática.
Maria ainda não sabe, mas vomitará daqui a alguns instantes. O álcool já faz o devido efeito e seu estômago começa a maltratá-la. Ela disfarça, vai ao banheiro e faz o serviço. Lava-se. Aguarda alguns instantes até se recuperar um pouco. Dentro do possível, retoca o batom e volta para a multidão a mesma lady que chegara acompanhada do amigo apaixonado. Este, por sinal, encontra-se sentado num canto a olhar vagamente as coisas, desolado, bebendo sem perceber. A vida é assim, muitas vezes agimos sem dar-se conta.
A madrugada vai alta. A moça de quem falamos dançou até surgirem bolhas nos pés, bebeu a cerveja de vários colegas de noite e fumou até enjoar, pois não o faz no dia-a-dia. Já chega a hora de encontrar um bom acompanhante, aquele que vai lhe dar o derradeiro prazer e lhe dar uma carona confortável de volta. Já sabemos que esse homem não é nem o amigo apaixonado e nem o bonitão de esporas.
Ela não precisa nem procurar, os homens vêm até ela. No fim de festa costuma-se apostar todas as fichas. Nesse instante, o primeiro cidadão mais ou menos apresentável que demonstrar boas intenções usufruirá dos carinhos de Maria.
Ela olha para João, que lhe observa há alguns instantes. Ela sorri, ele se aproxima. Conversam qualquer coisa de banal e caminham em direção ao carro do indivíduo. A moça percebe que é um veículo interessante, já o fita com outros olhos, está feliz. Dançou, fumou, bebeu, divertiu-se e não gastou praticamente nada nessa noite. Quando chegar em casa esquecerá de agradecer a Deus por sua saúde, mas dormirá com o sorriso no rosto.
João é um bom rapaz. Não gosta de literatura, nem de cinema, nem de artes plásticas. Não costuma ler e nem se mantém atualizado com o mundo. Nunca ouviu falar de Vinícius de Moraes, não saberia relacionar Da Vinci a Monalisa, e acha que Freddie Mercury é só mais um cantor boiola dos anos oitenta. E ainda haverá quem diga que o narrador dessa história é que se muniu de sua pena mais preconceituosa, quando em verdade apenas delineia uma narrativa literária, e por isso mesmo artística, referente à realidade circunstante. Voltemos a João. Adora música sertaneja, a nova vertente, claro está. Veste-se com chapéu, botas e cinturão. Bebe cerveja em abundância. Sorri com facilidade. Tem bom coração. Tem um carro.
Nos arredores do circo, parece-nos zona rural, devido às vestimentas das pessoas que ali estão e pelo aspecto rústico da acústica. Porém, estamos na cidade. O casal sai ouvindo no cd player os mesmos arpejos que costumam ouvir durante a semana, iguais aos que vieram ouvindo e que ouviram durante o tempo que ali estiveram, gostam mesmo desse tipo de som.
João é um cara simples, gostou de Maria. Ele pretende levá-la embora sonhando em ganhar um beijo como recompensa e, quem sabe, sair com ela de novo.
A moça quer mais. Ela deseja saciar seus anseios de mulher. Quer sentir o prazer que lhe é de direito. Então, insinua-se para o rapaz, que fica meio constrangido, mas gosta, pois tem instintos. Ela diz, Bem que poderíamos ficar num lugar mais confortável, só eu e você, o que acha. Ele apenas sorriu e se endereçou ao motel mais próximo com o coração acelerado. Transaram. Magia para um, cotidiano para a outra. Ela dominou os gestos, a palavra, pois João é tímido. A única atitude deveras ativa do rapaz foi pagar a conta, como manda a cartilha do bom cavalheiro.
Foram embora. Ele a deixou em casa, com cara de bobo, pois não esperava tanto de sua amada. Conseguiu seu telefone, por isso irradia felicidade.
Agora, a donzela dorme relaxada em si mesma. A noite foi como programara. Sonhará com animais pulando e vozes dispersas, mas não se lembrará disso no dia seguinte, assim como também não se lembrará de João.

Conto publicado pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores no livro "Novos Talentos do Conto Brasileiro", em julho de 2009.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Fantoches


Não posso mais olhar para aquela dama,
Cada vida é por si só aquela ilha inabitada que já diziam,
Se penso em um futuro ao seu lado, engano-me,
Peço-me perdão por mentir a mim mesmo,
A inocência me domina às vezes,
Almejo uma união, ser apenas um com ela,
Mas, na impossibilidade natural das coisas,
Devo me arrepender e voltar à realidade,
Doída, impiedosa, um vírus que se alastra
Pelos tecidos nos infectando mais e mais,
Preciso de uma injeção de sonho, 
Quem sabe eu possa sorrir sem medo,
Sem o carma de ter que viver o que deveras é,
Mas... será que isso que chamamos de real
Existe de verdade, será que não somos pura metafísica?
Fantoches de um ser maior que brinca de manipular-nos?
Cobaias de um experimento não perfeitamente sucedido?
Não precisaria ser dito, pois é claro que somos um robô defeituoso,
Portador de uma bateria chamada coração,
Abastecida pela energia que vem do amor,
E quando a fonte seca, essa peça se desregula, 
Desprevenida, o resto da sucata se confunde,
E, não sabendo o que fazer, como lidar sem o néctar,
Agoniza pela eternidade de seus dias, 
Nessa abominável invenção que é a vida.

Marco Hruschka

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Maringá, Paraná, Brazil
Marco Hruschka é natural de Ivaiporã-PR, nascido em 26 de agosto de 1986. Morou toda a sua vida no norte do Paraná: passou a infância em Londrina e desde os 13 anos mora em Maringá. Sempre se interessou em escrever redações na época de colégio, mas descobriu que poderia ser escritor apenas com 21 anos. Influenciado por professores na faculdade – cursou Letras na Universidade Estadual de Maringá – começou escrevendo sonetos decassílabos heroicos, depois versos livres, contos, pensamentos e atualmente dedica-se a um novo projeto: contos eróticos. Seu primeiro poema publicado em livro (Antologia de poetas brasileiros contemporâneos – vol. 49) foi em 2008 e se chama “Carma”. De lá para cá já, entre poemas e contos, já publicou mais de 50, não apenas pela CBJE, mas também em outras antologias. Em 2010 publicou seu primeiro livro solo: “Tentação” (poemas – Editora Scortecci). Em 2014, publicou “No que você está pensando?” (Multifoco Editora), livro de pensamentos e reflexões escrito primordialmente no facebook. É professor de língua francesa e pesquisador literário.

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"A vida é um compromisso inadiável" M. H.
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