Gaia

Marco Hruschka
És meu porto, minha pátria, meu pai!
Um homem-pólo-oposto que sempre me atrai,
Uma selva cheia de atrativos temerosos,
Oceano vasto de quereres prazerosos...
É em tua mão forte e ágil que me realizo,
No toque firme, seguro, já não me responsabilizo,
Quero ser a pluma, o vento sulista, a ternura
Do afago que dá e que recebe, a chaga e a cura...
Em tua presença sou a terra fértil dos tempos de ouro,
A tradição do chinês, o charme francês e a força do mouro!
Madre natura, o âmago, o cio da terra em evolução,
O luar, o eclipse, a mudança repentina de estação...
Fecunda-me! Porque tu és o grão que gera a vida
E eu o vaso receptor do néctar, toda tua e embebida!
Lambuza-me! Se és o mel doce e denso agora meu,
Sorver-nos-emos lentíssimos e eternamente em apogeu...
Dar-te-ei o seio para que repouses sossegado,
Nuvem branca e de perfume natural, ó meu amado!
Às estrelas galgaremos, como duas almas a pairar,
Agora, fechemos os olhos e te mostrarei o que é amar...
Servos

Republico um de meus contos prediletos: Servos. Espero que releiam e que comentem, se assim desejarem. Um abraço!
Marco Hruschka
Na paragem, um homem bem portado, coluna ereta, olhar soberano, feição séria, fardado e com a mão direita no bolso do casaco tricolor espera a condução. Lentamente, aproxima-se outro homem, aparentemente maltrapilho, vestindo apenas uma túnica comprida de cor clara e sandálias. Possui barba e bigode compridos. O recém-chegado avista o oficial com olhos curiosos mas ao mesmo tempo receosos. Ao perceber que está sendo analisado, o cidadão de roupa nobre indaga:
- Que queres tu?
Após um breve silêncio reflexivo, ouve-se a resposta-investigadora:
- Quem tu és?
- Mas que disparate, como ousas tratar-me por tu? Indigente!
- Perdão, expressou-se, sem entender muito bem, o “mal vestido”.
- Isso mesmo que ouviste, sabes com quem falas?
- Não, foi exatamente o que lhe perguntei.
- Ora essa, estás a falar com Napoleão Bonaparte, comandante das tropas francesas que conquistaram a Europa.
Silêncio.
Um franzir de testa foi inevitável ao ancião. Admirou-se? Assustou-se? Será que teve medo ou rir-se-ia? E se realmente fosse quem tivera dito?
Refletiu sobre aquelas palavras e respondeu:
- Desculpe-me o abuso, mas, se tendes a Europa para vós, o que fazeis aqui, na paragem? Para onde irdes?
Sem perder a postura, levanta levemente o queixo e responde:
- Vou para a Lua!
A atmosfera toda se fazia confusa com aquela conversa, e o cidadão, curioso talvez, indaga-lhe novamente:
- Mas, enfim, o que desejais na Lua?
- Olho-a todas as noites e é como se ela me convidasse a conquistá-la, conquistá-la-ei, pois! Disse-lhe com a resposta na ponta da língua o utopista. Seria utopia?
- Mas chega de conversa fiada, quem pensas que és para querer saber de meus planos futuros? Inquiriu, quase que irado, o oficial.
- Chamam-me Sócrates, o sábio, mas prefiro ser somente Sócrates.
- Ah, Sócrates, o sábio, não é?! E o que sabes que eu não sei?
- Só sei que nada sei!
- Brincas comigo, intrépido?
- Não, não sou de muitas brincadeiras, mas digo-lhe a verdade.
O ambiente, por segundos, tornou-se taciturno. Os dois se entreolhavam sem se conhecerem, sem medo nem audácia. Enfim, para cortar aquele silêncio que incomodava a autoridade ali presente, esse perguntou:
- E tu, o que fazes aqui, para onde vais?
- Vou ao encontro de mim mesmo, responde o grisalho com um leve sorriso de complacência.
- Deveras me achas um ignorante! Explica-te ou mando prender-te!
- Não há motivo para tanta raiva, serei mais claro. Viajarei para dentro do meu “eu”, em busca de minha verdade.
- E achas realmente que passará uma condução cujo destino é “eu”?
- Com todo o respeito, não me entendes. Posso conseguir o que quero aqui mesmo, logo adiante, ou, sempre de modo mais rápido, em contato com a natureza, com a solidão de si próprio, basta uma revelação, a epifania, para que possamos entender o porquê de estarmos aqui e agora.
- Não me importam essas coisas, para mim, o que vale é liderar amparado em estratégias, conquistar, expandir o império.
- E a virtude?
- A virtude está no ato de vencer e ser admirado...
Sem ser percebido, aproxima-se um homem de aparência velha e respeitável e diz-lhes, pegando-os de surpresa:
- Tolos! Em verdade, em verdade vos digo: Nem um nem outro está livre do meu domínio, sois apenas instrumentos de minha vitória.
Aquele que mantinha a mão no bolso até então, indignado, pergunta-lhe logo:
- És quem, ó atrevido?
- Bento, João, Pedro, Clemente, Paulo, tenho vários nomes, escolham um, não importa. O que importa é que do meu trono dourado conquistarei o mundo. Nem o teu batalhão, que por sinal é mais meu do que teu, e nem a tua filosofia, nem aquele cidadão de aspecto oriental que trabalha ali, sem cessar, sem ser visto, ninguém poderá mudar o rumo do que é predestinado desde os primórdios. Meu reinado não é efêmero, é eterno. Sigam-me e os perdoarei.
E a alma do pequeno Estado jubilava... desde os primórdios.
PS: Foto Napoleão Bonaparte, por Jacques-Louis David.
Conto publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 18, pela CBJE
O filho do Céu

Um soneto em homenagem a minha amiga Sheila Luz, que pela fé no milagre, gerou Arthur, um bebê lindo e saudável! Brindemos com poesia o seu nascimento!!!
Marco Hruschka
Um anjo do céu disse-me ao ouvido
Que a pureza é inata na criança,
Sua presença sempre traz bonança,
O tom de sua voz é colorido.
De amor o coração é embebido.
Pra ter um pequenino pago fiança,
Em minha vida quero uma mudança,
Sozinha o meu peito é sofrido.
Agora no meu ventre um bebê gera...
Vem a mim, oh, presença idolatrada!
Que se faça real esta quimera.
Rogo a ti saúde à Mãe amada,
Hão de ouvir oração da fiel mera,
Já sinto que à luz tu serás dada...
Bailemos

Tu tens a inocência de uma criança que já sabe o que quer
A sedução de uma mulher cheia de medos e segredos
Na maciez da alma, és pluma corpórea, o querer é mister
Na pele alva e nos lábios rosáceos habitam meus desejos
Não chores, doce anjo, não temas
A vida é para aqueles que olham o futuro
Para o além, para o amor, esqueça as algemas
Que te prendem ao chão, abandone o escuro
Alto! Claro! Voe para a liberdade!
Seja céu, seja estrela, seja o luar...
Seja o espelho que cintila a tua celebridade
Seja fusão, a areia que se mistura brandamente ao mar
Baila comigo em meio às rosas escarlates
Seremos sustenidos crescentes em paixão
O amor nos guiará como bonifrates
E dançaremos amantíssimos o acorde da União
Marco Hruschka
O que é Literatura?

Muitas pessoas têm dificuldade em entender o que é a Literatura. Não digo defini-la, mas compreendê-la. Contudo, ela pode ser mais simples do que parece. Recorremos, então, às palavras de Afrânio Coutinho, renomado crítico literário brasileiro:
A Literatura é um fenômeno estético. É uma arte, a arte da palavra. Não visa a informar, ensinar, doutrinar, pregar, documentar. Acidentalmente, secundariamente, ela pode fazer isso, pode conter história, filosofia, ciência, religião. O literário ou o estético inclui precisamente o social, o histórico, o religioso, etc., porém transformando esse material em estético. Às vezes ela pode servir de veículo de outros valores. Mas o seu valor e significado residem não neles, mas em outra parte, no seu aspecto estético-literário, que lhe é comunicado pelos elementos específicos, componentes de sua estrutura, e pela finalidade precisa de despertar no leitor o tipo especial de prazer, que é o sentimento estético. O que a Literatura proporciona ao leitor, só ela o faz, e esse prazer não pode ser confundido com nenhum outro, informação, documentação, crítica. Não fora isso, não fossem a natureza específica da literatura e o prazer que dela retiramos, e as obras literárias não resistiriam ao tempo e às mudanças de civilização e cultura. (COUTINHO, 2008, p. 23)
É verdade que a literatura parte dos fatos da vida ou os contém. Mas esses fatos não existem nela como tais, mas simplesmente como ponto de partida. A literatura, como toda arte, é uma transfiguração do real, é a realidade recriada através do espírito do artista e retransmitida através da língua para as formas que são os gêneros e com os quais ela toma corpo e nova realidade. Passa, então, a viver outra vida, autônoma, independente do autor e da experiência de realidade de onde proveio. Os fatos que lhe deram às vezes origem perderam a realidade primitiva e adquiriram outra, graças à imaginação do artista. São agora fatos de outra natureza, diferentes dos fatos naturais objetivados pela ciência ou pela história ou pelo social. (COUTINHO, 2008, p.24)
COUTINHO, Afrânio. Notas de teoria literária. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.
Devaneios

Queria escrever um poema.
Na madrugada que passa lentamente,
Não tenho inspiração surpreendente,
Foge-me a cor, falta-me o tema.
O tempo, uma invenção, já não passa,
Transfigurou-se em tormento,
Resta-me apenas o lamento,
A pena a tinta já rechaça.
Se os meus versos já não como os de outrora,
Nem líricos, nem metafóricos, vãs palavras,
Que seja o desabafo entranhoso dessas massas
Que gritam por socorro desde há muito e agora.
Suplicam por esperança, por igualdade,
O coração dói por não mais confiar
Em nada e em ninguém, querem amar
E ser amados, resta-lhes o fantasma da saudade.
Esvaio-me no fim dessa poesia,
Hei de um dia voltar a respirar,
Ser o canto da sereia em alto mar
E contemplar a natureza em maestria.
PS: Foto "Skrik" ou "O grito", de Edvard Munch
Flor Tropical

Dizem as vozes de outrem que seu lábio é fruta
Polpa-mel saborosa que me incita a beber no cálice
Pomar de delícias variadas, êxtase no ápice
Textura ágil, quente, doce, fugir é labuta
Olhos de ônix forjados no fogo do Nada
Pois somente no Nada se encontra a finesse
Relíquia ocular a qual nunca se esquece
Pintura surreal pela mão do Mestre retocada
Possui um colo cor urucum-castanho
Acima se insinua o pescoço lascivo
Abaixo o contorno do seio subjetivo
O que faz o delírio-desejo ganhar tamanho
Mas se se tem conhecimento de sua alma
Mas a alma como sendo o conjunto de sua obra
Apaixona-se deveras como um Páris de outrora
Que pela bela Helena perdera toda a sua calma
Pois a inteligência se sobrepõe à perfeição do corpo-réu
Companhia excelente, o tempo se evapora como orvalho
Ser seu rei e contemplá-la no palácio, ato falho
Há que ser Deus e outorgá-la como Deusa lá no céu
Ousar-me-ei por amor

Anjo de Deus

Mas não de um anjo de um céu de um deus que não existe,
Mas de um anjo de meus sonhos,
E por isso mesmo é lindo,
O anjo é lindo, ela é linda, ela é o anjo,
E por falar em Deus, ó Deusa,
Vem que eu serei o teu, o que deveras existe,
E serás inocentemente feliz como uma criança a comer chocolate,
Tem razão o Poeta português, não há nada de mais verdadeiro do que isso,
Apenas esse poema, escrito com meu próprio coração,
Às vezes metido a poeta, e, quando apaixonado, artífice das palavras amorosas.
Pela inspiração que me toma, que é tu, emano poesia dos poros
E escrevo aqui uma carta de alforria, liberto nesse instante meu sentimento
Para que ele possa flutuar, leve como o teu olhar demanda,
Em direção aos teus lábios e tocá-los com a ternura que o inunda
Selar fisicamente o que espiritualmente já me toma
Sermos, por um instante que seja, a união da poesia e da paixão
Do perfeito e do sublime, da magia e do maravilhoso
Maravilhosa é a magia do teu sorriso, o brilho dos teus olhos
Aceita provar do beijo do poeta
E sentirás o coração bater mais forte
Como o cupido a lhe atingir a seta
Amar-te-ei por toda a sorte
Marias

Fantoches

Não posso mais olhar para aquela dama,
Cada vida é por si só aquela ilha inabitada que já diziam,
Se penso em um futuro ao seu lado, engano-me,
Peço-me perdão por mentir a mim mesmo,
A inocência me domina às vezes,
Almejo uma união, ser apenas um com ela,
Mas, na impossibilidade natural das coisas,
Devo me arrepender e voltar à realidade,
Doída, impiedosa, um vírus que se alastra
Pelos tecidos nos infectando mais e mais,
Preciso de uma injeção de sonho,
Quem sabe eu possa sorrir sem medo,
Sem o carma de ter que viver o que deveras é,
Mas... será que isso que chamamos de real
Existe de verdade, será que não somos pura metafísica?
Fantoches de um ser maior que brinca de manipular-nos?
Cobaias de um experimento não perfeitamente sucedido?
Não precisaria ser dito, pois é claro que somos um robô defeituoso,
Portador de uma bateria chamada coração,
Abastecida pela energia que vem do amor,
E quando a fonte seca, essa peça se desregula,
Desprevenida, o resto da sucata se confunde,
E, não sabendo o que fazer, como lidar sem o néctar,
Agoniza pela eternidade de seus dias,
Nessa abominável invenção que é a vida.
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Quem sou eu?
- Marco Hruschka
- Maringá, Paraná, Brazil
- Marco Hruschka é natural de Ivaiporã-PR, nascido em 26 de agosto de 1986. Morou toda a sua vida no norte do Paraná: passou a infância em Londrina e desde os 13 anos mora em Maringá. Sempre se interessou em escrever redações na época de colégio, mas descobriu que poderia ser escritor apenas com 21 anos. Influenciado por professores na faculdade – cursou Letras na Universidade Estadual de Maringá – começou escrevendo sonetos decassílabos heroicos, depois versos livres, contos, pensamentos e atualmente dedica-se a um novo projeto: contos eróticos. Seu primeiro poema publicado em livro (Antologia de poetas brasileiros contemporâneos – vol. 49) foi em 2008 e se chama “Carma”. De lá para cá já, entre poemas e contos, já publicou mais de 50, não apenas pela CBJE, mas também em outras antologias. Em 2010 publicou seu primeiro livro solo: “Tentação” (poemas – Editora Scortecci). Em 2014, publicou “No que você está pensando?” (Multifoco Editora), livro de pensamentos e reflexões escrito primordialmente no facebook. É professor de língua francesa e pesquisador literário.
Lançamento
No que você está pensando?
Meu livro de poemas
Tentação