segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Servos


Republico um de meus contos prediletos: Servos. Espero que releiam e que comentem, se assim desejarem. Um abraço!

Marco Hruschka


Na paragem, um homem bem portado, coluna ereta, olhar soberano, feição séria, fardado e com a mão direita no bolso do casaco tricolor espera a condução. Lentamente, aproxima-se outro homem, aparentemente maltrapilho, vestindo apenas uma túnica comprida de cor clara e sandálias. Possui barba e bigode compridos. O recém-chegado avista o oficial com olhos curiosos mas ao mesmo tempo receosos. Ao perceber que está sendo analisado, o cidadão de roupa nobre indaga:

- Que queres tu?

Após um breve silêncio reflexivo, ouve-se a resposta-investigadora:

- Quem tu és?

- Mas que disparate, como ousas tratar-me por tu? Indigente!

- Perdão, expressou-se, sem entender muito bem, o “mal vestido”.

- Isso mesmo que ouviste, sabes com quem falas?

- Não, foi exatamente o que lhe perguntei.

- Ora essa, estás a falar com Napoleão Bonaparte, comandante das tropas francesas que conquistaram a Europa.

Silêncio.

Um franzir de testa foi inevitável ao ancião. Admirou-se? Assustou-se? Será que teve medo ou rir-se-ia? E se realmente fosse quem tivera dito?

Refletiu sobre aquelas palavras e respondeu:

- Desculpe-me o abuso, mas, se tendes a Europa para vós, o que fazeis aqui, na paragem? Para onde irdes?

Sem perder a postura, levanta levemente o queixo e responde:

- Vou para a Lua!

A atmosfera toda se fazia confusa com aquela conversa, e o cidadão, curioso talvez, indaga-lhe novamente:

- Mas, enfim, o que desejais na Lua?

- Olho-a todas as noites e é como se ela me convidasse a conquistá-la, conquistá-la-ei, pois! Disse-lhe com a resposta na ponta da língua o utopista. Seria utopia?

- Mas chega de conversa fiada, quem pensas que és para querer saber de meus planos futuros? Inquiriu, quase que irado, o oficial.

- Chamam-me Sócrates, o sábio, mas prefiro ser somente Sócrates.

- Ah, Sócrates, o sábio, não é?! E o que sabes que eu não sei?

- Só sei que nada sei!

- Brincas comigo, intrépido?

- Não, não sou de muitas brincadeiras, mas digo-lhe a verdade.

O ambiente, por segundos, tornou-se taciturno. Os dois se entreolhavam sem se conhecerem, sem medo nem audácia. Enfim, para cortar aquele silêncio que incomodava a autoridade ali presente, esse perguntou:

- E tu, o que fazes aqui, para onde vais?

- Vou ao encontro de mim mesmo, responde o grisalho com um leve sorriso de complacência.

- Deveras me achas um ignorante! Explica-te ou mando prender-te!

- Não há motivo para tanta raiva, serei mais claro. Viajarei para dentro do meu “eu”, em busca de minha verdade.

- E achas realmente que passará uma condução cujo destino é “eu”?

- Com todo o respeito, não me entendes. Posso conseguir o que quero aqui mesmo, logo adiante, ou, sempre de modo mais rápido, em contato com a natureza, com a solidão de si próprio, basta uma revelação, a epifania, para que possamos entender o porquê de estarmos aqui e agora.

- Não me importam essas coisas, para mim, o que vale é liderar amparado em estratégias, conquistar, expandir o império.

- E a virtude?

- A virtude está no ato de vencer e ser admirado...

Sem ser percebido, aproxima-se um homem de aparência velha e respeitável e diz-lhes, pegando-os de surpresa:

- Tolos! Em verdade, em verdade vos digo: Nem um nem outro está livre do meu domínio, sois apenas instrumentos de minha vitória.

Aquele que mantinha a mão no bolso até então, indignado, pergunta-lhe logo:

- És quem, ó atrevido?

- Bento, João, Pedro, Clemente, Paulo, tenho vários nomes, escolham um, não importa. O que importa é que do meu trono dourado conquistarei o mundo. Nem o teu batalhão, que por sinal é mais meu do que teu, e nem a tua filosofia, nem aquele cidadão de aspecto oriental que trabalha ali, sem cessar, sem ser visto, ninguém poderá mudar o rumo do que é predestinado desde os primórdios. Meu reinado não é efêmero, é eterno. Sigam-me e os perdoarei.

E a alma do pequeno Estado jubilava... desde os primórdios.


PS: Foto Napoleão Bonaparte, por Jacques-Louis David.

Conto publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 18, pela CBJE

2 comentários:

Lilian Tavares disse...

Olá! Parabéns pelo blog e textos nele expostos. Continue movimentando idéias, emoções e conceitos através das palavras. Muito prazer!

Lilian Tavares

Lilian Tavares disse...

Resposta ao seu comentário: reconheço quase todos os meus sentimentos na obra da Clarice. Por isso, é minha preferida.

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Maringá, Paraná, Brazil
Marco Hruschka é natural de Ivaiporã-PR, nascido em 26 de agosto de 1986. Morou toda a sua vida no norte do Paraná: passou a infância em Londrina e desde os 13 anos mora em Maringá. Sempre se interessou em escrever redações na época de colégio, mas descobriu que poderia ser escritor apenas com 21 anos. Influenciado por professores na faculdade – cursou Letras na Universidade Estadual de Maringá – começou escrevendo sonetos decassílabos heroicos, depois versos livres, contos, pensamentos e atualmente dedica-se a um novo projeto: contos eróticos. Seu primeiro poema publicado em livro (Antologia de poetas brasileiros contemporâneos – vol. 49) foi em 2008 e se chama “Carma”. De lá para cá já, entre poemas e contos, já publicou mais de 50, não apenas pela CBJE, mas também em outras antologias. Em 2010 publicou seu primeiro livro solo: “Tentação” (poemas – Editora Scortecci). Em 2014, publicou “No que você está pensando?” (Multifoco Editora), livro de pensamentos e reflexões escrito primordialmente no facebook. É professor de língua francesa e pesquisador literário.

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